sábado, agosto 22, 2015

a arte da crise e as proteções de amianto


Jung, Livro Vermelho

Assim falou Fellini (vide comentário no post anterior):
"Certamente no tipo psicológico da pessoa criativa é evidente que o artista se alimenta precisamente do que provoca os traumatismos psicológicos; os ferimentos, os traços de sua existência psíquica, e assim as formas de sua neurose têm uma função providencial para ele. Parece-me que Jung reconhecia o caráter providencial, extremamente positivo da neurose, não só do ponto de vista estritamente psicanalítico e clínico... A neurose obriga a se compreender a si mesmo, a mudar de ponto de vista sobre as coisas e começar uma descida em si mesmo. Ela é providencial para a existência, por tudo que se pode aprender através de um melhor conhecimento de si mesmo... Mas no caso particular do artista, a neurose, a neurose tem um caráter providencial também no nível da constituição de um depósito, de um entreposto, de um antro cheio de tesouros no qual pode pescar às mãos cheias todas as histórias, como nos contos que falavam de um tesouro no fundo do mar, ou numa caverna na qual só se pode entrar vencendo monstros e dragões que a guardam. Em geral, a pessoa criativa deve procurar trazer à luz uma das jóias, uma parte desse tesouro ou dessa coisa escondida; ela deve, naturalmente, se expor aos perigos, que são os guardiões infernais, satânicos. Certamente, esse perigo permite ao artista se identificar com o aspecto mais que neurótico, psicótico do seu empreendimento, como na grande tradição dos artistas malditos, como Van Gogh, Poe, Baudelaire, Rimbaud,, que pagaram um tributo muito alto por chegarem muito perto de certas verdades sem ter a proteção ou o conhecimento da psicanálise. Eles não se utilizaram de PROTEÇÕES DE AMIANTO (itálico no original) para esse contato com uma dimensão magnética".