Thursday, August 13, 2015

a bênção dos anjos do Mal

Trombeta de Fellini: "Tempo de despertar!:


Um dos paradoxos com que os ateus gostam de curto-circuitar seus rivais teológicos se expressa na perguntinha aparentemente ingênua: Deus, sendo onipotente, pode criar uma pedra que Ele próprio não consiga levantar? A armadilha é que, se respondemos "sim", então Deus não é onipotente porque não pode levantar uma pedra. E, se respondemos que não, Deus não é onipotente porque não pode criar tal pedra. 
Amo esses jogos do pensamento. Um deles embasa o título do livro de Fellini que comecei a comentar esta semana: "Eu sou um grande mentiroso". Como? Se você é um mentiroso, tenho no mínimo razões de suspeitar que esteja mentindo também nisto, e portanto seja verdadeiro. E se não está mentindo nisto, como saber se é mesmo um grande mentiroso?
Tais exercícios, além de divertida dieta para a mente, fazem entrever a própria atmosfera vital que tornou o adjetivo "felliniano" uma marca tão típica. Os limites da razão, a dúvida, a ambiguidade, rachaduras tantas para a invasão da fantasia, do delírio, da festa, da abolição do tempo-espaço profano de unidades lógicas imiscíveis. Con-fusão, con-fissão, implosão do principium individuationis (princípio de individuação), emergência de dimensões menos newtonianas, mais quânticas, isto é, mais "fellinianas" mesmo, da realidade e do pensamento, que aliás não são senão um, para nós.
Mas a potência da imaginação não navega solta no oceano da existência, como um cruzeiro do Amarcord. Ela tem de saudar as coerções que a limitam, as pressões, a necessidade. A invenção, rebelião contra o mundo dado, é em si mesma uma declaração de confronto, e não vive sem antagonistas. É o que Fellini sugere ao falar da importância dos atritos do real de que vem a fagulha da criação de seus filmes:
-(Damien Petttigrew) Como nascem seus filmes em geral?
-(Fellini) Bem, devo fazer uma declaração que talvez pareça uma brincadeira um pouco vulgar, mas de fato é a pura verdade: meus filmes nascem porque assino um contrato, me dão um adiantamento, eu não quero devolver e, portanto, tenho que fazer o filme. Quero dizer que meu tipo psicológico é provavelmente derivado daquele do artista do século XV, que tinha necessidade de um papa, de um grão-duque, de um príncipe, que lhe dissesse 'faça-me um afresco neste teto'. 'Prepare-me um madrigal para o casamento de minha irmã'. O artista da corte, elogiado, mas igualmente ameaçado, era obrigado a criar para satisfazer uma encomenda. Da mesma maneira, me parece que meus filmes nascem porque eu assino um contrato e me sinto pressionado. Talvez, além do aspecto humorístico dessa definição desenvolta, existe o reconhecimento de uma dependência de uma pessoa criativa que tem necessidade de um cliente não somente para satisfazer a encomenda, mas também contra quem se rebelar, temer".
Fellini nos dá pistas importantíssimas para nosso desenvolvimento pessoal, ao sublinhar a necessidade do heterogêneo, da pluralidade, do convívio dos opostos como dínamo de transformação. Parafraseando os hindus, o gênio que há em um grande criador como Fellini saúda o gênio que há em nós. Viver bem, fazer do jogo de dados da existência um filme belo, é uma tarefa genial.   E vivemos melhor quando não abafamos o princípio do conflito, da contradição. "A pessoa criativa colocada ekm dimensão de total liberdade tende a não fazer coisa alguma. Se há uma coisa perigosa para o artista, é precisamente a liberdade total, a espera da inspiração e toda essa retórica romântica". Na política, por exemplo, é mortal a ausência de um grande inimigo, é ele que pode fazer de nós um grande combatente.
Portanto, quando os fantasmas vierem assombrar sua até então pacata e neutra noite de sono, encare isso como a entrada em REM, o estágio próprio do SONHO, em que nada neutro é possível, e em que o demônio dos problemas perturbadores pode ser não a trombeta do apocalipse mas um anjo disfarçado convidando você para brincar.
"Fight and dance with the devil"