quarta-feira, agosto 12, 2015

a dança da revolta


Jimmy' s Hall
de Ken Loach
SINOPSE
(http://www.adorocinema.com/filmes/filme-221207/)
Leitrim, Irlanda, 1932. Jimmy Gralton (Barry Ward) retorna à cidade em que nasceu após um autoexílio de 10 anos em Nova York, devido à perseguição que sofreu dos líderes locais pelo fato de ser comunista e defensor da liberdade de expressão. A princípio ele pretende levar uma vida pacata, mas os jovens da cidade e seus velhos amigos insistem para que reabra o antiga salão, onde a população em geral podia ter aulas de graça e ainda se divertir, em animados bailes. A iniciativa não agrada o padre Sheridan (Jim Norton), que logo se torna um ferrenho opositor de Gralton.

COMENTÁRIO

Depois  "O Dançarino do Deserto" (confira minha análise aqui: http://unzuhause77.blogspot.com.br/2015/04/a-liberdade-e-os-relinchos.html), eis uma segunda bela oportunidade, este ano, de experimentar na telona a revolta que dança. O conflito entre liberdade e opressão encarnado na luta pelo direito, aparentemente pouco "politizado", a dançar, pintar e  bordar. No longa de Richard Raymond, vemos o drama de Afshin Ghaffarian (Reece Ritchie) e amigos da universidade para poderem montar um espetáculo de dança no Irã, contra o veto a esse tipo de expressão (ou qualquer outra, desde que livre) pela ditadura fundamentalista de Ahmadinejad. 
No belo filme de Ken Loach, somos lembrados de que a intolerância estúpida nos ameaça não só de fora para dentro, na figura dos fanáticos de outra religião. O deslocamento de perspectiva aqui não é do espaço, mas do tempo: voltamos à tensa Europa do início dos anos 30, para reencontrar, num episódio obscuro do interior da Irlanda, a Igreja Católica nesse papel abjeto dos terroristas de Maomé (como tendemos a julgar TODOS os islâmicos). Muito longe do espírito de João XXIII e do Concílio Vaticano II, que ainda demoraria cerca de 30 anos para acontecer e transformar os valores da Igreja Católica, vemos ali um padre que mal consegue esconder de si e do colega mais jovem de paróquia a admiração que sente pelo líder Jimmy Gralton. Mas ele não tem o culhão ainda para um mea culpa. Para se arrepender do pecado da cegueira social, da fobia de "cheirar como suas ovelhas" (antigo preceito dos franciscanos), de perceber o quanto há em Jimmy, nos amigos e jovens libertários que ele reúne em torno de um salão de festas e estudos,  muito mais de sementes de evangelho que nos esquemas espúrios de poder em que a noiva de Cristo se permitia "ir com" os latifundiários e milicos e prostituir da fé e do amor à tradição o fascínio em fascismo.
A tentação libertária que o velho padre evita já fez história no seio da Igreja moderna. Muitos dos sacerdotes que mais se consagraram pela atuação progressista no Brasil e no mundo começaram militando nas hostes conservadoras. Foi assim com Dom Paulo Evaristo, dom Helder Câmara;  até Jorge Bergoglio, o nosso Papa Francisco,  foi julgado de extrema direita nos tempos de bispo na Argentina, e hoje aterroriza os conservadores que o  acusam de ser um infiltrado do Foro de São Paulo em Roma.  
Vale muito a pena, no filme, seguir de perto o conflito filosófico do velho padre consigo mesmo e com Jimmy. Vale também atentar para  a explosão do padre jovem, de saco cheio dos jecas reacionários locais e suas táticas de Ku Klux Klan:  "Não é comunismo, é a  pobreza, estúpido", traduzindo aqui à la Bill Clinton seu insight sobre as razões da revolta das massas contra a opressão e a miséria que devastavam o mundo e incubavam o ovo da  barbárie totalitária e genocida. Aqui há um elemento de especial atualidade, para pensarmos com lentes despojadas a razão de governos desastrosos como o de Dilma terem tido ainda lastro popular o bastante para se reelegerem, em meio à gritaria preconceituosa contra "os nordestinos", "os vagabundos", os dependentes de bolsa-esmola. Num país como o nosso, carente de tudo, inclusive de vergonha na cara dos "defensores do povo", é muito difícil vir com discursos imitados de Reagan e Thatcher (líderes que amo, como os seus países respectivos, mas temo ainda intraduzíveis entre nós), conluios corruptos generalizados, e baioneta de Bolsonaro a tiracolo, explicar para o andar de baixo que aqui, terra de injustiças abissais, tem que valer "meritocracia". Menos aceitável ainda é essa postura para a Igreja, que por vocação é a voz dos sem voz, o cajado sagrado para reagrupar as ovelhas dispersas, dentro e fora de nós, cuidar dos mais fracos, curar as feridas e acender a chama da fé concreta, relembrar o Reino de Deus que começamos a viver na Terra no instante em que, sem saciar, ao menos podemos e devemos, todos,  não morrer da fome de pão e de beleza (Frei Betto).
Os opressores, no Irã de hoje, na Irlanda de ontem, na alma decrépita de sempre,  "têm razão" em se preocupar com a dança. A revolta é essa semente pura que Camus tanto valorizava e lamentava ser apodrecida pela hipocrisia e vontade de poder dos próprios movimentos revolucionários. É um anseio que toma o homem dos pés à cabeça, pondo músculos e ideias em coreografias de transformação. Quase sempre dança  -quese sempre perde, como sugere a ambiguidade da expressão dançar entre nós. Mas antes disso deixa seu legado, seus jimmys a nos insuflar de novo a coragem a cada geração.. A revolta que dança, antes de dançar no sentido de ser traída ou sufocada,, dança no sentido de inflamar a alma ao prazer entre corpos que sugere, em nossa libido, um outro convívio e uma outra sociedade, menos apartada, rígida e recalcada.