terça-feira, agosto 11, 2015

a noite estrelada de Fellini


Começo aqui a compartilhar alguns recortes que faço à leitura de  Federico  Fellini- Eu Sou um Grande Mentiroso (ed. Nova Fronteira), entrevista do genial cineasta italiano a Damien Pettigrew (Nova Fronteira, 1995). O título me remete à célebre afirmação de Picasso, de que "a arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade". 
O artista subverte o pacto de sonâmbulos do mundo social saturado de verdades mentirosas. Se tocado pelo fogo da gnose (conhecimento transcendente), o artista inverte este jogo instituindo pelo ato da imaginação "mentiras" reveladoras do que até então inexistia, ou era ocultado, esquecido, ou era apenas um potencial dormente no ventre do real. Por ato da imaginação não entendo um esforço meramente voluntário, planejado, embora ele faça parte: o decisivo porém é o wu wei dos chineses, agir pelo não agir, pelo deixar acontecer, pelo mergulho nas fontes do inconsciente (sonhos, fantasias, visões), seja pela serena "soltura" de espírito de um Mestre Eckhart ou nos passos atormentados de um Jackson Pollock.
Tal capacidade de rebelião é uma força que, se mal administrada, se reverte em fraqueza. Tantos casos de artistas que desperdiçam o vigor da criatividade em labaredas -loucura, depressão- que, ao invés de acalentar e iluminar no inverno escuro, devoram a própria casa (psíquica). Tantos desses outsiders vivem, caso de Van Gogh, o êxtase da noite estrelada para, pouco depois, saírem de cena deixando uma nota de despedida: "A amargura nunca acabará".
Assim nos aproximamos do trecho da entrevista que eu tinha em mente divulgar:
"Meu trabalho é fazer cinema, e a maneira pela qual eu o faço é um modo de existência e não somente um modo de expressão. Parece-me que, nesse tipo de extroversão, reconheço alguma coisa que me pertence de forma muito íntima, a tal ponto que, fora das luzes da sala, da materialização de fantasias e de sonhos, da maquiagem dos atores, da criação de uma ordem, fora da atmosfera de um set de filmagem, sinto-me um pouco vazio; sinto-me imediatamente no exílio".
Exílio que Clarice Lispector expunha em tons ainda mais dramáticos:  "Eu acho que quando não escrevo, estou morta".
Ensinamentos preciosos para nosso dia-a-dia: a criatividade é um dom para todos, é um estado de "fluxo", como dizem os psicólogos, que mais que ser forçado a ser, quer não ser atrapalhado pelos nossos bloqueios, estresses, caprichos. É a vida secreta do espírito, conexão de amor com o mundo, seiva que nos faz ser. É a senha oculta, aparentemente perdida, mas que sempre esteve na carteira, como a foto que Walter Mitty vai buscar do outro lado do mundo. Decisão de viajar ao encontro da foto, do fotógrafo e da cena viva e nova a ser fotografada,  para buscar, e já ser,  libertação do mero devaneio  passivo e realizar para si o propósito da "Life" da qual, simbolicamente, ele cuidava do departamento dos negativos. Nisso tudo ele foi, claro, impulsionado, quem viu o filme lembra, pelo amor à nova colega de trabalho, diante de quem não podia se ver mais da forma letárgica, na versão pobre de si, que até então aceitava como coisa natural. 
Entre o cinema de Fellini, a escrita de Clarice, a viagem de amor de Mitty, qual é a sua noite estrelada?