Sunday, August 16, 2015

a padroeira da libertação





SINOPSE
A Língua em Pedaços
Inédito no Brasil, este texto de Juan Mayorga é baseado no livro autobiográfico da poetisa e santa espanhola Teresa d'Ávila (1515-1582), "O Livro da Vida", celebrando o 5º centenário de seu nascimento. O espetáculo mostra o embate entre a carmelita e seu inquisidor, que a acusa de subversão e heresia por causa de suas experiências místicas.


Gênero: Drama
Direção: Elias Andreato
Com: Ana Cecília Costa e Marco Antônio Pâmio (a partir de 01/08, substituído por Joca Andreazza, na temporada do Teatro Eva Hertz
Duração: 60 minutos
Classificação: 12 anos
Texto: Juan Mayorga




ANOTAÇÕES
Pode-se comparar o "Livro da Vida" de Teresa d' Ávila, fonte de inspiração da peça "A Língua em Pedaços", com as "Confissões" de Santo Agostinho. Isso fica claro pela analogia entre os contéudos: ambos falam da experiência interior de um cristão com seu Deus, embora em Agostinho, arquétipo da transição da Idade Antiga ao Medievo, da filosofia greco-romana à cristã, tal experiência nasça de uma ruptura, de uma "conversão. O mundo de Teresa é o do fim da Idade Média, início da modernidade, tensões religiosas dentro e fora da Igreja Católica, Inquisição, Reforma protestante.  Nessa atmosfera, o imaginário coletivo já aponta não mais para o rumo, e sim para além da síntese de filosofia e teologia que homens como Agostinho tinham estruturado como visão de mundo. 
Teresa nos soa impressionantemente "moderna". Seu gênio religioso é o da desestruturação. Não no sentido que seus inquisidores insinuam, o de um desequilíbrio mental, heresia, possessão demoníaca. Teresa desestrutura porque, em pleno seio da Igreja espanhola, inquisitorial, patriarcal, dogmática, ela tem o "desplante" de ser uma mulher radical, cuja fé não é herética, mas profundamente pessoal, porque vivencial, antes de mais nada. Ela é expressão por excelência do gozo místico, "fora da lei" -insubmissa às convenções sociais, ao contentamento masculino com uma ordem calcada em obediência e autoridade. Seu caso fascinaria Jacques Lacan, que menciona Teresa, num de seus seminários, como caso típico da singularidade do desejo feminino. Teresa é a santidade do gozo não estrutural, no sentido em que os linguistas tipo Saussure falam de estruturas como esquemas abstratos, em que as palavras estão separadas das coisas. Por isso a "Língua em Pedaços": o gozo de Deus, tal como nos artistas insanos da tão "teresiana" psiquiatra Nise da Silveira, requer o mergulho na singularidade do Self, que é linguagem, mas linguagem expandida, poética, extática, que bota para quebrar. 
Frei Betto conta que, jovem seminarista em plena crise de sua vocação sacerdotal, foi a leitura das obras de Teresa que o salvou. Também por esse dado ela nos fala hoje, 500 anos depois, como uma padroeira da libertação. Não necessariamente de um movimento ideológico específico -a teologia de Betto e Boff precisa ser urgente e passionalmente relida e "liberta" da mácula dos anos de PT no poder, de revolta corrompida pelo poder. 
Libertação pessoal, minha, sua, retorno da Anima que vem desestruturar a ditadura patriarcal dos bispos sardinhas que querem jogar água no nosso caldeirão e calar o nosso fogo, como numa dada cena do espetáculo.
Libertação coletiva, pela maior empatia com Deus e com o próximo no espírito do despojamento carmelita que vive as noites escuras da alma (São João da Cruz, discípulo de Teresa)  com a segurança e o contentamento que vem de estar na presença da "única coisa necessária" - a quem tem Deus nada falta, diz o poema citado pelo cenário, este mesmo que parecia carvão em brasas no momento em que o bispo sardinha tentara acalmar com água na fervura a "impaciência" de Teresa, apesar de que seu célebre poema fale nas virtudes da paciência. 
Paciência com as coisas do mundo, com os inquisidores, com a ignorância, até com as agressões como a do celular do público que foi arremessado na cara dos artistas (não o celular, mas seu toque irritante e desrespeitoso, temi que os atores tivessem de parar a peça). Impaciência do ardor, da busca, da urgência da transformação quando é o Amado, e não seus representantes, quem vem nos chamar.