Saturday, August 08, 2015

a vingança de Ártemis

Guardo dos tempos juvenis de militância católica a lembrança de uma vigília na Igreja da Salette, madrugada adentro, que se completou pela ida com os amigos ao Mosteiro de São Bento para a primeira missa da manhã. De uns anos para cá, o fervor igrejeiro não se manteve tão intenso, apesar de consideravelmente curado de suas feridas desde a posse de Francisco. Mas o gosto das vigílias permanece. Delícia "estar acordado quando todos dormem" (Renato Russo), por motivos de amor, de escrita ou mergulhado em filmes, como desta sexta para sábado. Revi "Prisoners" (Os Suspeitos"), de Denis Villeneuve.
O filme, de 2013,  conta com atores de estágios distintos de fama, mas irmanados todos, ali, pelo estado de graça. Atuações fantásticas, sublinhando em riqueza de sutilezas a atmosfera tensa, eletrizante,, da labiríntica busca por duas crianças sequestradas de duas famílias de classe média americana, em pleno Dia de Ação de Graças, tão importante no imaginário daquele país.
A questão nacional não é irrelevante. O filme (como boa parte do que a ideologia política de Hollywood nos oferece, à exceção de um Clint Eastwood) tem uma pegada nitidamente democrata, veremos logo no quê. Um dos protagonistas, Keller Dover (Hugh Jackman, sensacional), é um verdadeiro "thor"(o) de virilidades republicanas, desde o hábito de cantar no chuveiro o lindo hino  "Star-Spangled Banner" até o tesão de caçar veados, digo, os animais mesmo. 
A cena inicial nos põe na perspectiva em que ele e o filho estão ao mirar no inocente cervo na floresta. O pai reza o Pai-Nosso e ordena ao filho que atire. Sucesso fulminante. Mas é uma das poucas alegrias que aquela família terá ao longo das quase três horas do filme.
Há o dia da caça e o dia do caçador. Mas  Keller viverá as duas situações naquele mesmo dia. Depois de cumprido o rito "másculo" de iniciação do filho ao prazer e perícia da caça e de aconselhá-lo, no caminho para casa, a estar sempre "alerta" para os perigos do mundo, esses perigos virão à caça deles. A filhinha Anna, junto com a amiguinha Joy, 6 e 7 anos, saem para brincar na rua, enquanto as duas famílias (representantes das etnias branca e negra) relaxam e se confraternizam após a refeição (ao som, bem desafinado, do hino americano). E não voltarão.Quem voltará à floresta, próxima de onde eles moram, é Keller e o filho,durante  angustiante jornada de resgate. A busca policial será liderada pelo detetive Loki, nome de deus nórdico, como o "Thor" que associei a Keller pelo temperamento e inclusive pelo uso, violento, do martelo, como instrumento de ameaça contra o suspeito que ele captura por sua conta e risco. Nisso também um traço que associaríamos à ideologia republicana e tea party, a causa armamentista, em que a legítima defesa, ataque preventivo e justiça com as próprias mãos parecem caminhar juntas.
Loki (Jake Gyllenhal, ator de quem gosto muito, vide:  http://unzuhause77.blogspot.com.br/2015/01/os-paparazzi-da-desgraca.html) mostra-se de uma ambivalência instigante. Seu tique nos olhos, suas tatuagens ocultistas, até o interesse por horóscopo chinês, antes de convocado á ação, sublinham esteticamente seu ar estranho. Sua ambivalência porém, não é de caráter, mas de competência. Sempre empenhado, ele contudo alterna momentos de bravura arguta com outros de certo desleixo ou desequilíbrio que nos irritam, como quase tudo que vai postergando o avanço da investigação, a procura das meninas, a punição dos culpados, o alivio da dor daquelas mães, em especial a esposa de Keller, Grace Dover (Maria Bello). Não que a outra mãe, Nancy (Viola Davis), esposa de Franklin (Terrence Howard), sofra menos. Mas se mostra mais ativa, num jogo sutil de compensação da predominância de macho alfa que Keller tem em relação a Franklin.Grace basicamente dorme (sedada) ou chora enquanto os dias passam. Seu desespero atiça em Keller uma conduta cada vez mais destemperada, que nos deixa entrever pecados do passado, "lavados e remidos", como dizem os pastores, pela conversão radical. Sua caminhonete tem os dizeres "Keller Dover: Remodelagens e Reparos". Profissão e anseio moral.  
Um desses pecados é a bebida, e Keller nele recai após 9 anos e meio, o que aprofunda a violência com que trata Alex Jones, Paul Dano, em performance sinistra como um adulto com idade mental de 10 anos . Alex é sobrinho de "Holly", a Santa, a velha satânica (diabolicamente perfeita atuação de Melissa Leo, que vejo em sites ter uns trinta anos a menos do que aparenta no filme).
Não vou entrar em detalhes da evolução e desfecho -uma cena crítica do filme destoa, porque inverossímil, da excelência do conjunto, mas não o compromete-, apenas marcar uma semelhança temática com "A Caça", filme dinamarquês um ano anterior. Me refiro justamente à matança de animais, mais especificamente, de veados, em ambos os filmes. Parece nítido, num caso e noutro, a dimensão trágica, a pecha de maldição que fará do caçador objeto de caça,  de que se investe esse "assassinato" de nossos irmãos bichos -e o fato de vermos assim um costume milenar, antes tolerado e muito glamourizado, é sinal dos tempos. 

Tempos de uma consciência coletiva cada vez mais ecológica, que amplia o sentimento de justiça, de "cidadania" para uma escala não apenas social, mas cósmica. A Terra como uma grande família, em que ou nos respeitamos todos ou morreremos juntos. Casa de amigos ou alçapão para a tortura recíproca de "prisoners", caça e caçadores entre si. 
Não por acaso a comoção com o leão morto na África pelo norte-americano bem de vida e de alma que cheira a Bush. Não se trata (fraco senão cínico sofisma de certos setores conservadores)  de embarcar numa campanha midiática e histérica que sobrecarrega leões, focas e golfinhos da atenção que não damos a temas como o avanço do aborto no Ocidente secular ou da perseguição de cristãos pelos fanáticos islâmicos. O respeito à vida tem muitas dimensões e tarefas, como a casa do Pai tem muitas moradas -e não é só casa do Pai, mas da Mãe, a Deusa que renasce para vir equilibrar os polos ying e yang do mundo e da História. Que nos convida ao Amor, como Vênus, ou nos castiga pelo ódio, como Acteon devorado pelos próprios cães -ao ser transformado justamente em veado pela deusa da caça, Ártemis. Impiedosa como a Natureza em vingança, ela o  pune pelo pecado de encará-la, nua, profanando com desejos libidinais, na lenda,  o que a caça cruel e desnecessária  executa, na vida,  em termos de arrogância violadora do templo ecumênico do Ser. Neste átrio somos os sendos, brotos num gerúndio efêmero do rizoma eterno,   os hóspedes, os chamados a ser co-cuidadores, não os donos.