Tuesday, August 18, 2015

as paixões e o castelo interior


Legal essa definição de T. S. Eliot sobre o processo criativo: "O artista será mais perfeito à medida que nele estiverem separados o homem que sofre e o espírito que cria; e assim, de modo ainda mais perfeito, o espírito vai digerir e transformar as paixões que são seu elemento". 
Não se trata de negar ingresso de entrada às emoções, no castelo interior (santa Teresa d' Ávila) em que a alma opera suas invenções e acessa seus céus e infernos. Os afetos, as paixões (isto é, tudo o que nos atinge, o que se "padece", passivo, sem os poderes apolíneos do compreender e agir com autonomia e voz de comando sobre o acaso e o arbítrio alheio) têm garantido esse ingresso, e ingresso VIP: para a tribuna de onde se verão espelhadas dentro do laboratório do artista, homeopaticamente retrabalhadas para que seu veneno seja remédio, depuradas de seu sobrepeso tóxico, de sua dor, valorizadas, sim, em sua intensidade e veracidade (em especial a angústia, afeto que não mente, segundo Lacan), mas sublimadas pelas leis próprias da atividade espiritual, hierarquicamente superior ao meramente "psicológico", que é volúvel e passivo. A confusão de espiritual e psicológico é dos piores desastres que o subjetivismo moderno acarreta para nosso desenvolvimento pessoal. Traz encapsulamento num falso self, infla egos que já não se põem a serviço da obra, a obra é que vira pretexto para eles.  Embora psicólogo, quando Jung pensa a arte ele aplica a categoria de obras "psicológicas" a um gênero inferior à das VISIONÁRIAS, estas mais abertas, mais amplas, "generosas", porque falam e deixam falar o gênero humano na individualidade do artista.