Monday, August 17, 2015

caminhando e cantando com os coxinhas


Esse coxinha da elite opressora, com seu samba "Amanhã vou pra Brasília", no alto de um dos carros de som, foi o cara mais sensacional da manifestação de ontem na Paulista. Ele e o cântico, que nos fazia sentir em plena Bombonera, do "dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ô, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe Moro". E a mina tocando bumbo e dançando o vem pra rua de O Rappa num espírito de alegria contagiante e xamanística como daquele artista brincante Antonio Nóbrega. 


Já a ala da intervenção militar, ao invés da alegria jovial dessa galera, tinha um aspecto sombrio e triste, triste como a senhora, depois da mina radical que era ela menos entrada em anos, que tomou a palavra para cobrar um novo golpe militar, extinção dos comunistas, e puxou um pai-nosso tão sem espírito que ela acabou errando no final, e compensando a gafe com uma emocionalidade em lágrimas tão sinceras quanto as da bispa Francileia, esposa do apóstolo Valdemiro, nos cultos da Mundial.
Minha travessia da Paulista, desde a Vergueiro à Consolação, teve a delícia habitual somada ao conforto de poder andar não só nas calçadas, como na rua e até na bonita ciclovia do Haddad, prova, como sua própria gestão em si, de que nem tudo que é petista é petralha e é lixo. Gosto da gestão Haddad, não acho que desperdicei meu voto, e o prefiro um milhão de vezes em comparação às alternativas que se anunciam para o ano que vem. Pensar a política com afetividade -grande mérito de nosso tempo de redes sociais republicando a república- não implica ceder sempre à voz do fígado, xingar de "escória" o adversário, como dizia uma pichação sobreposta a cartaz do PCO contra o impeachment. Escória, e seus análogos, suspeito com Lacan, são uma forma de nomeação desesperada com que projetamos nosso pavor do Real, do sinistro da vida, do inquietante, sem lugar, hostil. Melhor então que tenha o rosto de um ódio concreto, uma fogueira como a de Salém, que nos alumie e pareça diluir  a neblina tóxica da angústia. Projetamos, localizamos num inimigo, desopilamos o ódio e esquecemos de reciclar o  lixo próprio, a angústia, eterno medo de ter medo, que seria menos amedrontador se encarado de frente. Desperdício de energia, jogo estéril, pai-nosso sem espírito, lágrimas de crocodilo, secas como a São Paulo de Alckmin.
Leveza de alma ,ontem, em caminhar, cantar e gritar quando tinha vontade, calar e pensar quando não. Anotações de slogans e imagens. Sensação de fazer parte da História. Me perguntar se isso vai dar em alguma coisa, ou o que "a mídia" acha dos protestos, é mascarar a alegria autêntica do Ato pessoal.  É desprezar, em nome do falatório frouxo da sociedade sonambulizada,  a lição da criança que, dormindo a maior parte da aula, acordou apenas em tempo de anotar uma equação que a professora acabava de escrever na lousa. Sem saber que era um exemplo de exercício impossível de resolver para crianças naquela idade, ele imaginou que se tratava de lição pro dia seguinte. Não sabia que era impossível, foi lá e fez.
Falando em psicanálise: 
"Aliteração: consiste no fato de que uma determinada palavra, uma letra, troca de posição com outra letra da mesma palavra, de modo que essa sofre uma mudança total de significado. Por exemplo, a palavra PODER, trocando a posição das letras E e R, transforma-se na palavra PODRE (acredito que muitos leitores diriam que, nesse exemplo, o significado de ambas as palavras, poder e podre, continuam o mesmo)". 
David Zimerman, Etimologia de Termos Psicanalíticos