quinta-feira, agosto 20, 2015

criação e revolta


Comemorando a reestreia hoje, no Espaço Itaú da Augusta (meu eterno "espaço Unibanco"), de La Dolce Vita,  vamos a mais um recorte da entrevista de Fellini a Pettigrew. Vimos, no post anterior, o genial cineasta falar da importância de pressões, por exemplo a de um contrato de trabalho, para que seus projetos deslanchassem. Fellini naquele contexto enfatizava a necessidade não de obedecer por obedecer, mas de vivenciar a criação como uma espécie de batalha, ou jogo, que por definição são atividades calcadas no conflito, no enfrentamento de vontades opostas à nossa. 
No trecho de hoje, vemos esse aspecto se esclarecer. Aqui Fellini nos dá indicações preciosas do quão Albert Camus acerta ao apontar no âmago do homem, em especial quando artista (inclusive o artista do viver, todo homem que faça da vida uma obra de arte), a dimensão da revolta. Contestação. Assentimento com a vida, mas recusa do que, na vida, a nega, vida ascendente contra a vida meramente dada, contra a inércia estranha ao élan criador. Não se cria quem é satisfeito. Nem Deus suportava o tédio da solidão, por isso se "revoltou" e criou. Que diremos então de nós, pobres mortais, com anseios tão vastos para tão pouco tempo que nos é dado, e com a pulsão de fazer arte porque a vida não basta (Ferreira Gullar)? 
Por isso Fellini pode explicitar em palavras, pelo que vemos a seguir, o que tão bem "pensa por imagens" na sala escura de seu universo fílmico do sonho, da memória, do êxtase de trapacear com os limites acanhados da cinzenta atitude realista da qual, em termos estéticos, ele partiu e com a qual rompeu, graças ao princípio de um realismo mágico que quebrou as tábuas do cânone estabelecido por  Rossellini em "Roma, Città Aperta" (1944-5): 
"O artista é fundamentalmente um transgressor. Ele pode ser também um revolucionário, mas psicologicamente o artista tem uma necessidade infantil de transgredir. Para isso, basta os pais, um padre, a polícia e um entrevistador. Um ser criativo tem necessidade de se exprimir através de um ato de transgressão para fazer ruir a violência da tradição, do que está consolidado, dos costumes que sufocam, porque, daí em diante, está tudo ultrapassado". 
Fellini sugere que, antes de ideologias revolucionárias, o que move um artista é uma vontade mais arcaica, infantil, de transgredir. Grandes reacionários políticos como Nelson Rodrigues faziam com a mão esquerda, a do gênio artístico, o que a mão direita de suas personas sociais não podiam se permitir. É a criança esquerdista, ou melhor, anarquista, a nos espicaçar contra a seriedade risível das autoridades e verdades estabelecidas. 
A criação envolve violência, ou melhor, como diriam os revolucionários políticos, uma contra-violência, resposta à opressão inscrita na própria "normalidade"prévia. Reparem que as forças dominantes gostam de lamentar quando os oprimidos as desacatam: tá vendo, isso é coisa desses intelectuais que envenenaram a massa com discursos de ódio, de "nós contra eles" etc. Ora, minha gente, que pacifismo ingênuo, hein? Antes da revolta estava tudo na santa paz, sim, mas para os interesses da injustiça. A revolta, isto é, a criação (não a acomodação interesseira e corrupta aos esquemas pré-estabelecidos), exprime, na alma e nas sociedades, esse grande NÃO. Estava tudo errado, ou melhor, passou a estar, pelo meu ato instituidor do novo.