terça-feira, agosto 25, 2015

discurso de Al Pacino em "Perfume de Mulher"


Tudo vale a pena quando a alma, longe de pequena, é grandiosa como no filme "Perfume de Mulher". Vale a pena inclusive retomá-lo mais atentos em outro momento. 
Sorver com mais minúcias a riqueza do personagem e da atuação de Al Pacino como o tenente-coronel Frank Slade.
Ou a viagem de celebração da vida a que ele, ainda que na posição de quem deve ser cuidado, conduz um jovem colegial, Charlie Simms (Chris O' Donnell, também maravilhoso no seu papel). 
Ou, nessa travessia, momentos como a famosa cena do tango. Màxima reverência à esplêndida luta de vida ou morte  em que Frank, mais que o "Velho Sábio", cego vidente (Tirèsias) da cena que separei hoje para vocês, se faz pupilo do pupilo, aprendendo com ele, verdadeira luta do patriarca com o Anjo, depois do divertimento efêmero com a Ferrari e com a dança, a revalorizar a própria vida, mesmo com todas as perdas havidas, mesmo nas trevas, graças à coragem do Anjo, Charlie, em se atirar para salvá-lo de si mesmo. Graças ao que esse menino acende nas trevas da cegueira e da morte  com sua luz de empatia (amor mais viril e assertivo do que  "pena" que temos por coitados).
A cena do discurso final foi, nesta edição do youtube, editada de uma perspectiva interessante para estudiosos da liderança numa sociedade tão competitiva e violenta como a nossa. Vem à luz, na contramão da lógica da esperteza covarde, a força do caráter, na recusa de Charlie a delatar seus colegas. E para tanto não se sentia movido  pela mesma forma de empatia que o ligava a Frank -sequer era amigo dos colegas que aprontaram com o diretor, colegas esses com a "forma e a figura", diz o jovem no interrogatório, de "muitos outros" alunos daquele colégio, deliciados pela travessura a que assistiram, sem a coragem de participar. Tinha è sua voz da consciência, prescrevendo decisões segundo valores que em nada nos recompensem imediatamente, atè mesmo indo contra nossos interesses (Charlie ficou à beira da expulsão).
 Perigoso elogiar demais os méritos dessa ação de Charlie se nos voltamos para a Banânia moral de nossa Brasília Amarela. Hoje há cínicos que diriam que "não confiam em delatores", no que deturpam, em interesse próprio, a lição ética que o filme esboça em seu contexto moral outro. Ao tratar de ética, não podemos nunca deixar de lado o horizonte concreto de cada caso. Até o diabo saberia citar a seu favor as Sagradas Escrituras, como o fez no embate com Cristo no deserto. Não é na letra, mas no espírito e no caráter, ante as encruzilhadas da situação específica, que tudo se decide.