quinta-feira, agosto 06, 2015

Filêmon e Francisco

O "Filêmon" de Jung

Sabe aquelas "coincidências" que nos levam a pensar que o acaso não existe? Jung tinha um nome para elas, sincronicidade: convergência de sentido, sem nenhum elo de causa e efeito, entre dois eventos, um em nosso espírito, outro no mundo externo. O tema é fascinante, tive oportunidade de conhecê-lo mais de perto ao traduzir o livro de Joseph Cambray a esse respeito, em que ele não só explica Jung, mas explora a importância da sincronicidade em eventos históricos, nas descobertas científicas (a tal "serendipidade"), entre outras esferas. 
Pois bem, por vezes minhas resistências céticas a esse tipo de conceito saem abaladas da experiência prática. Conto dois casos recentíssimos.   
Anteontem eu lia sobre o modelo de gestão e liderança que o Papa Francisco tem mostrado em Roma. Liderança é a capacidade de articular uma visão (uma "fé", seja nos brinquedos com a maçã mordida de uma grande empresa ou na cruz do filho do Homem) e de fazer os outros "comprarem" e concretizarem essa visão. Nos melhores empreendedores, os de índole huimanista, como Francisco,a liderança se despe das arrogâncias do poder pelo poder, se tingindo de uma alquimia de generosidade e astúcia, manto de paz mas espada de cruzado, pregação menos pela falação que pelo exemplo. Atenção, que um João Paulo II já tinha, para a dimensão simbólica essencial dos gestos, das imagens que o líder da Cristandade romana transmite ao mundo em tempos de globalização comunicativa. E eis que me viro casualmente e deparo com um skatista. Na simpatia com que o vi, não entrava sincronicidade, mas sintonia de empatia. A coincidência junguiana (precisamos dicionarizar isso, como os Freudian slips do father of fools dos dicionários estrangeiros) veio mesmo ao reparar no skate da criatura. Objeto raro dentro de um metrô, mesmo na descolada Linha Verde; e ainda mais raro, mas tão conforme ao espírito de Francisco, o Jovem, havia no skate um desenho de uma cruz, de um coração e de um sinal de identidade entre os dois.



E, umas duas semanas atrás, estava eu caminhando na direção de uma deliciosa padaria entre minha casa e a paróquia que muito frequentei na adolescência. Levava a tiracolo o "Livro Vermelho" de Jung,  um experimento poético, psicológico e pictórico (lindos quadros da lavra do próprio mestre suíço) em que a figura de Filêmon tem grande importância. Esse personagem do Fausto de Goethe encarna um princípio de sabedoria ancestral, de humildade, virtudes  e função compensatória, para os tempos modernos, de rebelião da serenidade que me lembram (até no aspecto físico) o Papa Francisco. Na vida de Jung, desempenhou o papel de guia pelos desfiladeiros do inconsciente (não mais apenas pessoal, e sim coletivo), descida ao Hades (nekya, catábase) em busca da alma soterrada pelo consciente ego- falo-cêntrico, "fáustico". Com efeito, Fausto na tragédia goethiana assume, em seu pacto mefistofélico, a persona de uma espécie de engenheiro "empreendedor" que atropela a choupana dos  velhinhos Filêmon e Báucis, estorvo inútil a seus projetos de modernização da cidade grande. 
E eis que minha caminhada, sempre tão significativa nos anos em que ia buscar Deus aos pés da Virgem da Salette, me viro abruptamente à minha direita -movimento como o que anteontem me revelou o skate da equação cruz=amor- e vejo uma placa "absurda", para mim inédita e tão sincronística naquele contexto, por conta do "Livro Vermelho" que me ocupava as mãos e a mente; uma placa de divulgação comercial suspensa na grade um prédio e com os dizeres "Filêmon-Pinturas"!