Tuesday, August 25, 2015

follow your bliss (centésimo post de cinema)


Por meio da amiga Manuela Pérgola, no facebook, deparei com o seguinte poema de Hilda Hilst:

"É meu este poema ou é de outra?
Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?
Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa que escondidas
(Para que seja eterno o meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?
Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.
A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos remos que inventei.

De imediato, mas sem muita clareza senão a da intuição turva, esses versos ressoaram como epígrafe possível para o novo recorte que me preparava para fazer da entrevista de Fellini que estamos comentando há alguns posts. O diretor de "La Dolce Vita" fala nesse momento da estranheza, da distância de si para si, que lhe acomete quando, de criador, passou a espectador como outro qualquer de seus próprios filmes:
"Revendo meus filmes, por acaso - porque não os revejo nunca por minha própria vontade- ou quando acontece de ver uma fotografia ou um trecho na televisão, me vem espontaneamente a pergunta: 'Mas quem é esse que fez esse filme? Como é possível: Como pude impor minha vontade a milhares de pessoas para realizar tudo isso? ' Digo estupefato, o que me faz imaginar que no momento em que me torno cineasta, sou habitado por um hóspede obscuro, que não conheço, que toma a direção do barco e dirige em meu lugar. Eu coloco unicamente à sua disposição a minha voz, minha sensibilidade artesanal, minhas tentativas de sedução, de plagiador ou de autoridade. Entretanto é um outro que age, um outro com quem vivo e que eu aprendo a conhecer pelo que escuto dizer dele. Algumas vezes, lendo críticas de meus filmes, acabo por descobrir alguma coisa deste outro"
Poderíamos multiplicar infinitamente os paralelos dessa experiência, que é nossa também no dia-a-dia, quando estamos em estado de FLUXO, entregues a uma atividade que exige total concentração mas, paradoxalmente, saída de nós mesmos. Sim, então o eu é um outro (Rimbaud), mas o Outro não é um outro eu, é um processo em aberto, um vento que sopra, um fogo que aquece e alumia e se dissipa em cinzas, no cinzento day after em que, espantados, e algo tristes, testemunhamos que uma obra se usou de nós para vir a ser. Fomos a manjedoura suja, mas a alma virgem, em quem a casca do ego se rompeu e o Outro em nós se soergueu para falar mais alto, no silêncio de poder, com voz de comando, nos levando de vento em popa para horizontes mais largos de mundo e de experiência. Tsunamis mentais que nos dobravam agora são, quando muito, regurgitações da natureza que vemos de longe e acima, do alto da montanha mágica do Self. É o o Anjo Guardião de quem E. W. Butler fala no delicioso livro iniciático A Magia e o Mago. É o daimon de Sócrates, cuja obediência pode nos levar à morte por cicuta, como no caso dele, mas como quem cumpre sua missão em plenitude, atingindo o estado "eudemônico" que é o nome grego para a felicidade. Joseph Campell resume isso, à luz da experiência mítica universal da jornada do herói, em seu convite: FOLLOW YOUR BLISS, siga o rastro do que te leva à experiência suprema de significado e prazer, essa que o poeta Yeats também captou bem nos seguintes versos:
"Meu quinquagésimo ano veio e se foi,
Eu, um homem solitário,
Sento-me em um bar lotado emk Londres,
Um livro aberto e um copo vazio no tampo da mesa de mármore.
Enquanto olhava para o bar e para a rua,
Meu corpo subitamente ardeu em chamas,
e durante mais ou menos 20 minutos,
a minha alegria foi tão grande que parecia que fui abençoado e podia abençoar"
No caso de Fellini, essa metafísica do daimon criador está implícita na experiência que ele chama de "terapêutica", e comum, de ir par ao estúdio, num duro inverno europeu, tomado de gripe, de febre de 39 graus, e lá ela simplesmente desaparecer, em meio às excitações e preocupações da atmosfera do estúdio, do lidar com os atores, a filmagem em si, e assim por diante. "Se posso trabalhar até quando não estou bem de saúde, não vou me deixar condicionar por detalhes tais de meu humor ou meus estados de espírito, além daqueles que estão a serviço do jogo ao qual me entrego".
Muitos atores sobem à ribalta num estado de completa debilidade física ou psicológica, doença ou luto na família, contas para pagar etc, e lá se permitem o que Grotowski chamou certa vez de experiência do ATOR SANTO, não num "baixar o santo" arbitrário e místico, no mau sentido, mas como fruto de técnica e de ética da criação. 
Eu me lembro de uma estréia, nos tempos de Macunaíma, em que um diretor da escola resolveu invadir nosso espaço mais íntimo, o do palco a poucas horas do espetáculo, trazendo broncas e negativismos do gênero. Algo me fez de imediato saltar para fora dali, e ir caminhar nas redondezas do Bexiga enquanto aquele tsunami de mediocridades passava abaixo, distante, sem riscos para o que o Anjo exigia de mim e me dera em meses de preparação e transformação pessoal.