domingo, agosto 23, 2015

Heidegger e Hannah ardentes e o e aí, tem jeito?


Meu encanto só aumenta a cada vez que reabro as páginas da correspondência de amor entre Heidegger e Hannah Arendt (pra mim, Hannah "Ardente", no vigor intelectual e paixão de mulher). Menos badalado- até porque sempre envolto na clandestinidade extra-conjugal-  do que a relação entre Sartre e Simone de Beauvoir, esse affair nem por isso é menos relevante. Ao contrário, segue nos ensinando o quanto e como os filósofos também amam, e o quanto o amor, todo amor, precisa ser resguardado da brutalidade banal de nossa época de abordagens do tipo "e aí, mina, tem jeito?". Ainda que o tesão que nos mova, filósofos ou não, possa transpirar para si aproximadamente esse mesmo ardor, de que "tenha jeito". Que tenha jeitos, com beleza e profundeza.
Assim como outras "minisséries" deste blog, como a atual leitura do pensamento de Fellini, proponho alguns recortes sobre acontecimentos e significados deste amor ardente, que esteve nos bastidores da gênese de Ser e Tempo, de Heidegger,  então já um respeitado professor da universidade de Malbourg. 
Casado, com filhos, tinha 35 anos quando conhece em sua sala de aula, em 1924,  Hannah, uma judia-alemã de 18 anos. Passam rapidamente de professor e aluna à condição de amantes. Os encontros clandestinos perduram por quatro anos. Depois se separam, e se mantêm afastados por vinte anos. Nesse meio tempo, houve o trágico envolvimento de Heidegger com o Nazismo, Hannah foge para a América, se casa duas vezes, desmonta implacável as engrenagens modernas do totalitarismo e do antissemitismo;  ambos publicam muito, a fama só aumenta de parte a parte... mas o fogo ardente da juventude não se calou. Reatam com prudência o relacionamento em 1950, mantêm-se amigos até a morte de Hannah em 1975. Poucos meses depois ele partia. 
É sabido que Sartre, filósofo do absurdo, tinha com o Castor (apelido carinhoso que dava para a filósofa central do feminismo) um pacto: entre eles, o amor  "necessário" (absoluto), em meio a tantos relacionamentos "contingentes". E sempre, a liberdade. Que pode assumir o dulcíssimo peso do compromisso, do "engajamento", sem se negar enquanto tal, sem virar a mediocridade moralista de casamentos muito mais "respeitáveis" e infelizes. 
Falei em dulcíssimo peso do amor. E não foi por acaso. Esta é uma das imagens que Heidegger cunhou para o que ambos, ele e Hannah, viveram com a epifania da paixão. Foi o amplexo solar e lunar do destino. O momento mágico em que ambos puderam se tornar quem eram, porque também puderam tomar sobre si a vida um do outro ("doravante vais fazer parte da minha vida", o professor enlouquecido assevera em carta febril, logo após certa consulta em seu escritório particular com a jovem e brilhante estudante).
Para Heidegger, o humano (Dasein, "ser aí") se singulariza dentre todas as coisas, os demais entes (os sendos temporários do Ser) como um ser de possibilidades. Hoje se usa muito na mídia essa expressão, "aproveite suas possibilidades" se torna cada vez mais um convite sedutor quando as pessoas se apercebem de que não têm a obrigação de cumprir sempre o mesmo script, arrastarem a mesma rotina, gastarem seu tempo como gastam a pasta de dente de manhã e de noite. Quando descobrem isso, estão descobrindo o que Heidegger, e seus seguidores existencialistas, afirmaram e alçaram a termo técnico da filosofia: as nossas possibilidades. E dentre elas, a mais rica de todas é o amor, disse ele -para Hannah, em segredo, e para nós todos, cifradamente, no tratado de 1927 Não só na descoberta de que somos fadados à morte, mas também de que somos chamados ao amor, é que que a vida adquire sua seriedade própria, insustentável leveza (Kundera), o mais pesado dos fardos. O mais doce também, sussurrou em carta de 1925. Carta, canção, "cantada" romântica, cantada caetana: nosso bardo tropicalista falaria em "dulcíssima prisão" do amor, ainda que como algo a ser evitado pela mulher que desacata todas as expectativas aprisionadoras, na música "O Quereres". O doce peso do amor, de fato, não precisa virar prisão. Sem ter a vulgaridade efêmera do "e aí,tem jeito?", os relacionamentos podem ter a densidade erótica que vincula, que engaja. Podem durar segundos ou décadas, podem não passar de uma troca de olhares no café no intervalo de uma exposição de arte ou , após longa carreira de anos, filhos e netos, chegar aos passos trêmulos de dois velhinhos ainda enamorado. Muitas possibilidades. O amor, a mais rica delas, sempre.