sábado, agosto 22, 2015

Jung, Fellini e o valor da neurose



Jung nos oferece três palavras de sua própria lavra, como ferramentas do aprendizado da autoleitura. Palavras de sua lavra, frutos de sua obra de vida, desde quando a criança solitária e angustiada que, crescendo, se viu acolhida no círculo sofisticado da psicanálise vienense. Mas que, dentro do adulto, pressionou as paredes, bateu as panelas, e enfim tragou o adulto de volta pra si, numa espécie de renascimento não sem regressão quase literal à infância: viagem às fronteiras da psicose, perigo de afogamento contornado pelas capacidades de mergulhador. Dessa viagem marítima noturna
(outra imagem do "Livro Vermelho" de Jung)

resultou um Jung não mais  freudiano, tampouco "junguiano" (dava, às gargalhadas, graças a Deus por não sê-lo), mas um Jung "si mesmo", como nos convida cada qual a ser nossa tarefa, nosso destino. As palavras, registros de suas atividades no período da crise pós-separação de Freud e busca de um nome próprio como psicólogo do profundo, são:

GESCHEHENLASSEN (deixar acontecer)
"Pensei então, 'ignoro tudo de tal maneira que vou fazer simplesmente o que me vier à cabeça'. Abandonei-me assim aos impulsos do inconsciente".
BETRACHTEN (considerar/ engravidar)
Frente ao que aparece, Jung não se escondia em esquemas de análise. Prestava atenção. Acolhia as visitas do imprevisto. tal como um Espírito Santo de que a Virgem Alma deve parir, dando luz às forças cegas da aflição em imagens que têm um valor funcional integrativo, de aumento de "integridade": nos tornamos mais completos e mais honestos, porque mais habilidosos como regentes da orquestra de nossos anjos e demônios.
SICH AUSEINANDERSETZEN (confrontar-se com) 
Esse verbo aparece muitas vezes na obra de Jung. O "confronto com o inconsciente" é momento -aliás vários, cíclicos como a vida- em que já não dá pra passar ao largo, e sim ATRAVÉS do mundo estranho e surpreendente que nos habita e nos rodeia. Antenas da compreensão ligadas no 220,  dentro e fora, para o milagre e mistério de todas as criaturas, daquelas a que menos dávamos bola, daquelas que tínhamos por repugnantes, hostis. Como nos filmes de terror, em que a assombração, mais que querer sangue, pedia socorro. 
Tudo isso faz da assim chamada "doença" da alma uma grande oportunidade de transformação criativa. Daí que Fellini -mais um trecho da entrevista que colhi para vocês- possa, numa de suas várias referências elogiosas a Jung (mentor fundamental de sua ruptura com o neorrealismo de Rossellini, o "Freud" do qual ele precisava se afastar para tornar-se si mesmo) ao longo de suas entrevistas, falar no quão é importante "bendizer" (ou seja, encontrar-lhes uma forma de expressão benigna) nossas neuroses, como explico a seguir.