Wednesday, August 26, 2015

o apocalipse de Fellini


Creio ter ouvido pela primeira vez este nome, "paparazzi", quando da morte de Lady Di, em 1997. Caçadores de celebridade, ficaram eles próprios célebres. Afinal eles nunca haviam levado tão longe o cumprimento de sua missão, no uso de sua máquina e seu rifle: caçaram com pleno êxito, ajudaram diretamente a produzir a morte da princesa, sendo depois responsabilizados criminalmente pelo fato, segundo lemos aqui:
 http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2008/04/07/ult34u202838.jhtm

Sintomas de uma cultura que cada vez mais dissolve as fronteiras entre ficção e realidade na aura irreal e inescapável do espetáculo, esses personagens hoje tão corriqueiros nasceram, eles próprios, da imaginação ficcional. Em sua certidão de nascimento está o nome de Federico Fellini, que em "La Dolce Vita" (1960) batizou de Paparazzo um dos fotógrafos que acompanham o jornalista Marcello (Marcello Mastroianni)  nas errâncias pelo vazio esplendoroso, quando não brutalmente trágico, da vida numa cidade grande (no caso, Roma, mas bem podia ser Paris, Nova York ou nossa São Paulo atual) da segunda metade do século 20 em diante.
 A diva do cinema americano, a aparição fraudulenta de Nossa Senhora ou a mãe que está para saber que o marido (Steiner) acaba de matar os dois filhos e se suicidar, nada pode escapar das lentes "objetivas" de uma cultura que esmaga o subjetivo, a dignidade da pessoa humana, seus valores e seu anseio de sacralidade mais recônditos, que no "apocalipse de Fellini" (feliz expressão de Almeida Salles num memorável artigo sobre esse clássico) não passam de resíduos estranhos, "sobrenaturais" mas incompreensíveis, como o peixe (símbolo cristão) que irrompe na praia, olhos fitos como a câmera de Paparazzo, após mais uma madrugada dissipativa e vulgar de vida loka de um grupo da alta burguesia.



Outro desses vestígios de redenção é a menina que acena ao longe, nessa mesma praia e manhã, para Marcello, como o que o chamando para fora do inferno. Assim como noutros momentos em que músicas ou fatos (como o já citado suicídio e duplo assassinato) parecem querer romper o torpor de sua consciência, Marcello não "escuta" o apelo, volta para sua nau dos insensatos, enquanto a menina, de sorriso que a faz também parecer uma anciã, o contempla, compassiva, espero que não com o pensamento de que ali se vai uma alma condenada para sempre.
"É preciso ser surdo e cego", disse Fellini, na época, em resposta à onda de protestos conservadores que o acusavam de denegrir a Igreja, a moral e os bons costumes, "para não ver, para não perceber o imenso desejo de salvação subjacente a todo os filme. O que exigem de meus personagens? Que proclamem a altos brados o seu arrependimento? Quem está se afogando não grita o próprio arrependimento, e sim pede socorro. Meu filme inteiro é um pedido de socorro. E se não entendem esse pedido, a culpa não é minha".
Um pedido de socorro que toma forma inconsciente, por exemplo, no alegre uivo de Sylvia (Anita Eckberg)  junto aos cães na noite -pouco antes do espetacular banho na Fontana di Trevi, em que a aura de redenção volta a acenar como que num batismo de purificação que faz o barulho ambiente ceder ao silêncio amoroso. 

Uma angústia generalizada que porém não será sanada por meras elocubrações  intelectuais como a da alta roda em torno de Steiner, sobrenome que alude, claro, a um dos nomes mais importantes do espiritualismo moderno, Rudolf Steiner. Se a Igreja não está bem na foto, tampouco Fellini aponta um caminho fácil e "new age" de reconciliação do homem com a transcendência. É preciso curar também a imanência, olhar com carinho e responsabilidade para nossas potencialidades bloqueadas por uma sociedade que se cega para o humano enquanto sacraliza a visibilidade do espetáculo idiota.
"La Dolce Vita", em cartaz no Itaú da Augusta, propicia uma experiência que não é fácil em nenhum sentido, inclusive pelas três longas horas em que o tédio propositalmente faz-nos ser arrastados num filme aparentemente sem história - como anistórica e esfuziantemente tediosa é a vida besta, meu Deus, denunciada também pelo poeta itabirano, nisto em coro com o gênio felliniano.