domingo, agosto 16, 2015

o esplendor e tristeza de Adele


A DAMA DOURADA (WOMAN IN GOLD)
SINOPSE
Dirigido por
ComHelen MirrenRyan ReynoldsDaniel Brühl mais
GêneroDrama
NacionalidadeReino Unido , EUA
Em 1998, a refugiada judia Maria Altmann (Helen Mirren) busca a ajuda do advogado Randol Schoenberg (Ryan Reynolds) para recuperar uma obra de arte pertencente à sua família, roubada pelos nazistas. Ela processa o governo  da Áustria já que a obra, o quadro Retrato de Adele Bloch-Bauer I, está exposta em um museu do país.

ANOTAÇÕES
Este "A Dama Dourada" é de um primor estético inegável -verdade que as locações de Viena e o quadro em disputa facilitavam muito esse quesito, tamanho o esplendor. Saímos gratificados da sala de cinema também também pelas boas atuações do par de protagonistas. Cabe valorizar no trabalho de Reynolds a capacidade de um certo auto-apagamento intencional, para que a força de seu personagem estivesse justamente nas marcas de imaturidade e sensaboria de um homem comum, descendente de um gênio mas ainda à procura de auto-afirmação a despeito da inexperiência e das dificuldades prosaicas com a família a cuidar e as contas a pagar.
Neto do compositor August Schoenberg, Randol é um jovem advogado que, movido a princípio por interesses materiais (a grana que podia obter de um caso envolvendo a restituição de um quadro milionário), pouco a pouco se deixa levar por questões mais idealistas. Não um heroísmo abstrato, mas a busca da reparação de uma injustiça que, no limite, fazia dele próprio, Randol, e de seus ancestrais, tão vítimas quanto a família de Maria e o  retrato da tia dela,  Adele,  ainda "prisioneiro" numa galeria de Viena. Sim, essa metáfora contundente é citada ao longo do filme: o quadro de Adele, como os milhares tomados pela camarilha de Hitler era ainda uma espécie de refém. Se representa uma espécie de rainha, ou mesmo deusa, tamanho o poder que transmite por suas cores e magnificência,, seu trono está manchado de sangue. Um pesar de caráter histórico que dava significado ainda mais soturno à melancolia pessoal da mulher ali retratada, uma dama da aristocracia judaico-austríaca da primeira metade do século XX, casada, mas sem filhos, saúde instável, e morta com pouco mais de 40 anos, de meningite. Todo o luxo que a recobre , que a embrulha para presente ao nosso olhar encantado, esconde essa alma ferida e falsificada como o título nazi com que foi rebatizado, "A Dama Dourada", para que assim fosse manipulada pelos interesses estéticos do Terceiro Reich sem que soubessem do sangue das vítimas às custas do qual tais fachadas se erguiam. 
Tudo isso é muito forte e expressivo, fazendo do filme uma bela, em mais de um sentido, oportunidade, de rever de uma ótica nova um tema ameaçado de banalização e esquecimento, como o Holocausto.  Memória, essa virtude tão marcante do Povo do Livro, não por acaso é dimensão crucial do estilo de cura da alma inventado por um gênio judeu. A catarse pela rememoração é um tema importante na evolução da história, nas alternâncias entre o presente e o passado, nas oscilações de Maria em sua determinação de enfrentar poderosos interesses políticos e econômicos, tanto na Áustria como nos EUA e "salvar" o quadro de Adele, em quem de certo modo a própria Maria se via espelhada, até pelo laço de amor com a tia, que lhe dera o colar com que fora retratada no quadro de Klimt. 
Por outro lado, sentimos que questões e personagens histórica e psicologicamente tão ricos poderiam ter sido mais desenvolvidos. Sobretudo Adele: o filme nos suscita, sem atendê-lo, um enorme desejo de saber mais sobre esta mulher espetacular e misteriosa, e sobre os significados mais sutis por trás de um quadro que se tornou ícone nacional, vide a resistência da galeria a devolvê-lo a quem de direito. Um quadro que retrata, mais que uma mulher particularmente vistosa, a glória e morbidez da condição feminina na alma universal e em culturas conservadoras, repressoras e produtoras de "anjos azuis" perigosos como aquele com as pernas de Marlene Dietrich. Eterno feminino, eterno enigma até para o genial conterrâneo de Klimt que levantou a questão ainda sem resposta: o que quer a Mulher?

Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer II