quinta-feira, agosto 27, 2015

o Picasso de Jung


Entre 11 e 30 de outubro de 1932,  o Museu de Artes de Zurique abrigou exposição com 460 quadros de Pablo Picasso. O sucesso de público -quase trinta mil visitantes - foi um dos estímulos para que Jung, sempre atento aos movimentos sísmicos da alma coletiva,  se debruçasse sobre o fenômeno Picasso. O resultado foi um artigo curto mas polêmico, em que ele faz de Picasso um "irmão" artístico (e psíquico) de James Joyce, que fora tema de outro texto de Jung, pouco antes. 
A polêmica se deveu ao fato de Jung apontar nas obras de Picasso e Joyce uma fonte de criatividade psicológica parecida com a de seus pacientes esquizofrênicos, que Jung convidava também à expressão artística. Na verdade a aliança da psicologia analítica com a pintura é mais profunda, diríamos mesmo genética, isto é, de base. Não por acaso sua exuberante manifestação, entre nós, na terapêutica revolucionária de Nise da Silveira, que rompe com a camisa-de-força psiquiátrica para reintroduzir o afeto e a arte (pintura, desenho, argila etc) como motores da autocura da alma dilacerada pela psicose. 
Já comentei o quanto a expressão pictórica foi importante no  "confronto com o inconsciente", eufemismo para a viagem ao umbral da loucura, que Jung vivenciou quando da ruptura com Freud, em 1913. 
Mostrei em artigo na revista Percurso (*vide referência ao final) o quanto a infância de Jung foi perpassada de angústias que analistas como Winnicott não hesitaram em qualificar de psicóticas; graças ao seu gênio, porém, ele pôde flutuar onde muitos afundariam (lembrando aqui o brasão da cidade de Paris), e se impor sobre suas crises com a vontade enérgica dos grandes criadores. Ao invés do naufrágio, pôde velejar (de fato, um de seus hobbies mais diletos) pelas tormentas, se valendo de recursos como a expressão simbólica na pintura.
Cena do filme "Um Método Perigoso", representando Jung (à direita) e Freud no lago de Zurique

No artigo sobre Picasso, Jung reitera um ponto importantíssimo, e mal compreendido por muitos maus leitores da teoria dos arquétipos. Não se trata de significados fixos, prisioneiros fáceis de verbetes de dicionários de sonhos: simbólico é o que NÃO tem sentido, isto é, se por sentido entendemos a correspondência óbvia com algo do mundo externo ou da linguagem estabelecida.  Simbólica é a expressão mais potente, num dado momento, de algo em nós que ainda não sabemos  muito bem o que "quer dizer". Se é que quer dizer. Não tenho certeza de que a flor levantada por Buda no célebre sermão quisesse nos dizer algo de particularmente especial. Ela simplesmente é, como as coisas da vida celebradas pelo guardador de rebanhos, como o peregrino das florestas de imagens poetizadas pelo simbolismo de Baudelaire -e pelo de Jung. 
Símbolo, também, tende a ser algo que desacata a percepção habitual dos objetos no tempo e espaço. Uma das modalidades dessa "distorção" tomou forma  no cubismo de Picasso, que vinha dar expressão não mais a objetos externos, nem mesmo às "impressões" fugidias deles, à la Manet, e sim a algo de mais misterioso.  Um drama interior de morte (anunciada na "fase azul" e na identificação com figuras inquietantes como as prostitutas sifilíticas, as máscaras africanas) e ressurreição, nas errâncias da figura mítica do Arlequim, este "trickster", bobo da corte, que caçoa e corrige, trapaceia e ensina balançando entre a alegria e a melancolia,  o nobre e o vulgar, o grotesco e o sublime.

Jung manifestava então certo otimismo sobre os rumos que a arte de seu contemporâneo Picasso assumiria. Não era propriamente um fã da "beleza" e prazer estético, que não encontrava, nos quadros do pintor espanhol; tampouco é elogioso, nesse sentido, ao "Ulisses" de Joyce: nos dois casos, aponta a fragmentação, a falta de sentimentos e a atração luciferina típica dos psicóticos, impotentes (ou libertos, dependendo do ponto de vista) em relação ao afã dos "normais" e dos neuróticos de achar sentido em tudo, tapando as fendas da vida com a tranquilidade das traduções fáceis.
 Não que dessa "nekyia", descida aos infernos, aventura comum a  Picasso, à multidão de seus fãs e sua época (que é a nossa, ainda?), se pudesse esperar uma saída pacificadora, um happy end tranquilo, que para vulcões criativos como o autor de "Guernica" seriam, isso sim, forma miserável de extinção. Mas nas crises atestadas pela obra de Picasso, nas suas diversas fases e temas, haveria o testemunho da luta titânica do homem moderno em forjar para si uma possibilidade de vida autêntica nos escombros da arquitetura de destruição dos delírios totalitários e do eclipse do "sentido", que recua, como um João Batista, para que possa crescer este redentor perturbador que é o  símbolo.
* Meu artigo sobre as angústias infantis e a obra de autocura de Jung:
 http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=12&ori=autor&letra=L