segunda-feira, agosto 24, 2015

o silêncio de Hermes



Grandes coisas pedem de nós ou silêncio ou um falar com grandeza. O moço da padaria, agora há pouco, me recordou esse preceito de Nietzsche pelo embaraço que teve ao me revelar o  sonho -se tornar aviador- que o movia para estar (isto ele havia contado com a fibra de sempre, quando fala em livros) estudando muita matemática recentemente. Seu embaraço não era por falar de algo longínquo como o céu em que gostaria de estar voando. Era a regra hermética do silêncio em ação, recomendada para metas que nos convocam inteiramente, nos exigem longa preparação, precisão matemática, a ousadia do voo. Boa sorte na jornada, rapaz. Que o aviador e santo Exupéry, padroeiro dos pequenos príncipes, vos abençoe e vos guarde. Gente assim me entusiasma a acreditar que nem tudo no mundo é essa máquina de moer gente que vemos, horrorizados, no clipe abaixo.
O pensamento de Nietzsche consta num poema citado por Jung em Símbolos da Transformação:
"Silêncio!-
Sobre grandes coisas -eu vejo o Grande!-
devemos silenciar 
ou falar grande:
fala grande, meu maravilhoso saber!"
Na abertura de A Vontade de Potência, ele retoma a ideia:
"Grandes coisas exigem que nos calemos a seu respeito ou que falemos com grandeza: grandeza quer dizer: com inocência - cinicamente".
Não sei se "cínico" é a melhor definição para essa inocência, a não ser que ele esteja pensando na escola cínica de Diógenes, marcada não pela mentira, cafajestagem, vigarice que hoje associamos a uma pessoa cínica. Ao contrário, esses andarilhos se marcavam pela extrema paresía,  "falavam rasgado", eram sinceros, mesmo insolentes no esculacho à hipocrisia e à prepotência dos conformistas e dos poderosos. 
É atraente esse convite do autêntico cinismo, mas não muito sadio para quem, ao contrário de Diógenes, não queira viver vestido apenas de um barril, andando pelas ruas fazendo zombarias e gestos escatológicos sem medo nem expectativas para o amanhã; para quem tenha a vulnerabilidade social de um humilde trabalhador de padaria, moendo café num mundo que mói os sonhos de muitos em troca do lucro de poucos; e mesmo para quem queira e deva se resguardar dos riscos psíquicos que o próprio Nietzsche corria, ao se expor à miséria devoradora da cultura de sua época, e de seus próprios desejos imaturos (prova disso a obsessão anticristã, a deriva megalomaníaca e o jugo às chicotadas afetivas de Lou Salomé).
Que a grandeza do falar dos sonhos seja então procurada de outra forma. Não sem a companhia do silêncio de Hermes, resguardando-os da curiosidade banalizante dos outros. E Não sem a santidade do pequeno príncipe , figura que me lembra o filme que acaba de ser lançado, e que preciso ver com urgência, nessa plataforma de aviação imaginária que sempre foi para mim a sala escura do cinema.