segunda-feira, agosto 31, 2015

as omeletes de Picasso


Semana passada eu "interrompi" o fluxo de posts sobre a psicologia da criação à luz de Fellini para dar palavra ao "Picasso de Jung" . Mas o trecho a seguir mostra que estamos "in famiglia" transitando entre esses três pensadores. Suas áreas de atuação são diversas, mas sim, são pensadores, num sentido mais essencial do que é sugerido pelas regras comuns de especialização acadêmica. Pensam por imagens. 
A imagem é a síntese complexa de conceito, emoção e o mundo sensorial. A imagem é o quadro da alma que sonha, seja a que hora do dia for; para a alma que "imagina" com liberdade e foco, até os atritos da mais ríspida realidade prosaica são travesseiros que convidam ao repouso das armas e ao salto do onírico.
Negar à alma a imagem é como tentar proibir ao rouxinol o seu canto. Absurdo. A beleza é nosso elemento natural. Para além dos clichês.  Fellini pontua -e poderia estar falando de um quadro de Picasso, ou poderia ser o próprio Picasso falando- que para sua estética não interessa se algo é  "bonito" ou "feio" nesta ou naquela cartilha convencional. O que interessa saber é se é VITAL. "É a definição que me é mais próxima e que me permite entrar em contato com a expressão artística. Se uma obra é vital existe nela uma vida misteriosa, uma vida própria".
Este é um conceito estético VITALÍSTICO, segundo suas próprias palavras. O termo é de grande importância no panorama filosófico a partir de fins do século XIX.  Abrigando nomes e enfoques diversos, como Bergson,  Nietzsche,  Ortega y Gasset, os vitalismos advogam a necessidade de pensar a vida a partir da vida, isto é, não reduzi-la a esquemas abstratos, a leis do inorgânico, acompanhá-la e traduzi-la em sua energia e dinâmica próprias, sublinhando o papel do corpo, dos instintos, dos desejos, paixões, luta pela subsistência, força, sonho.

Gênio e touro sexual, insaciável no espírito e na carne -foi pai aos 77 anos de idade, soube de uma artista talentosa, picassiana na fome solar de vida e criação-  Picasso marca a mentalidade moderna, "vitalística" com suas obras e seu carisma. Como afirma Fellini: "Um artista como Picasso é como uma fonte. Picasso é tão criativo que me parece que ele habita no imaginário onírico dos artistas como o símbolo de qualquer coisa de substancial".
E ele relata a Damien Pettigrew, na entrevista que estamos lendo juntos, dois sonhos em que Picasso lhe apareceu como spiritus rector, mestre interior. Nos dois casos, o sonho lhe ocorreu em momentos de intensa depressão, bem à maneira como Jung ressalta o papel compensatório do inconsciente, do símbolo,  nos momentos de exaustão de nossos recursos linguísticos habituais para dizer e "tocar" (adiante) nosso mundo.  
"No começo de 8 e 1/2, que eu não queria mais fazer, sonhei que fora recebido numa modesta cabana, onde morava Picasso. Ele me acolheu e me preparou uma omelete com ovos que ele mesmo pegou. Ele me convidou para sentar. Deu-me um guardanapo para que eu não me manchasse. Dizia-me: 'Não se suje jamais". E depois dividimos essa omelete, que estava muito boa. Eu me lembro que nesse sonho, durante toda a noite, ele me falou sem parar com a um velho e grande amigo".
No segundo sonho, o autor de Guernica aparece de costas. A "omelete" que tem a oferecer, abastecimento com as energias primevas (ovo), é a coragem. Não numa pacata conversa entre amigos ao anoitecer numa cabana, mas em plena borrasca do inconsciente. No combate às águas do caos. Fellini nadava no mar e queria voltar, porque o mar se tornara agitado. O céu escureceu; parecia-me que  me havia afastado demais da praia. De repente, vi emergir no meio das ondas cor de chumbo, enfurecidas, ameaçadoras, a cabeça careca de Picasso que, com a branca coroa de monge, ombros robustos, nadava, nadava. E eu dizia: 'Quero voltar'. E Picasso sacudia a cabeça e dizia: 'Não! Não' e me incitava a nadar".