sexta-feira, agosto 07, 2015

os sentidos do belo



Chego encantado da experiência, no sentido pleno, propiciada pelo filme "Real Beleza", de Jorge Furtado. Lembro de Jorge com afeto, como professor num curso de roteiro anos atrás. Aqui nos meus velhos papéis encontro um de seus pensamentos, na verdade de um mestre chinês do século XV: "A finalidade de todo método é não parecer ser um método". Ele então dizia da necessidade que o criador tem de, como diz Jung da clínica analítica, dominar todos os conceitos e técnicas, mas não ser dominado por eles, se abrindo ao fluxo vivo do encontro analítico ou da invenção artística (ambos aliás tão semelhantes). "Real Beleza" faz assim, tamanha a leveza com que se utiliza de conhecimentos sobre a estrutura do roteiro, a jornada do herói, aqui figurada na busca do fotógrafo "decadente" por uma "new face", não para livros rosas ou porcarias do gênero, mas como beleza real, que o fotógrafo (Vladimir Brichta, um desses caras de uma beleza humilhante para o comum dos mortais, num dos sentidos do belo com que o filme joga) traduz, no nível do corpo humano,  como a composição sutil entre a carnalidade da boca e a espiritualidade do olhar, entre outros atributos que destacam alguém no seio da multidão. Impressionante a caracterização que o filme faz do personagem e da aura de Francisco Cuoco, o belo aqui transformado em sublime, que inclui em si algo da ordem do temível e horrível, no caso, a decrepitude, ligação com a morte, impotência criativa. 
Festim para o nosso olhar, na formosura do tesouro difícil de conquistar, a jovem (Vitoria Strada) que Brichta intui que tem que ser a sua nova modelo, e nas paisagens do interior gaúcho, de "estrada perigosa", que o fotógrafo penetra ao encontro da menina, do pai (Cuoco) e da mãe (Adriana Esteves) dela. Festim para o espírito, nos poesias deliciosas que são citadas ao longo do caminho, como "O Pastor Amoroso", de Caeiro, do qual cito trecho particularmente caro:
"Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim".