sábado, agosto 29, 2015

pequeno guia filosófico para "Homem Irracional"

Woody Allen durante as filmagens, com Emma Stone e Joaquin Phoenix 


"Na vida, nunca faltará quem lhe diga como viver. Essa gente sempre todas as respostas: o que você deve ou não fazer. Não discuta com eles. Apenas responda: 'Claro, excelente ideia'. E faça o que bem entender".
(David Dobel, personagem de Igual a Tudo na Vida, de Woody Allen)
Curioso como, diante de proposições saborosas como essa, eu tendo a rir um riso de aprovação não sem um quê de ironia, pressentindo que um outro lado, um algo além da verdade engraçada que soou no radar desse radicalismo, ficou de fora, e seria igualmente valioso incorporar. Nesse caso concreto: aprecio o elogio da independência pessoal , ainda mais quando acompanhada da boa educação de fingir que aceitou o pitaco do outro.
 Mas um diretor  tão iconoclasta ante todas as vacas sagradas, e que brinca que nasceu no seio do judaísmo e se converteu ao narcisismo, como se mudasse de uma religião para outra,  parece nos alertar, com uma piscadela marota, sobre a possìvel necessidade de relativizar a verdade "absoluta" de declarações de fé no faço o que me der na telha: a suspeita de que esta seria uma versão pobre e gorda do que seria uma liberdade mais autêntica, aberta, que cuida da própria vida mas não perde a capacidade de trabalhar e amar, que são coisas basicamente sociais, ou interpessoais. 
O narcisista doente (pois, como arquétipo, Narciso pode ser bom ou mau) se fecha em si mesmo e deixa crescer um barrigão entediado como o de Joaquin Phoenix em "Homem Irracional"., detalhe estético que nesse contexto parece feio porque desleixado, não por alguma ditadura da magreza. Sem fazer muita força, mais no jeito e talento que na obsessão meticulosa de apresentar uma nova obra-prima (que não é), o mestre Allen nos entrega um bela refeição para a mente. Um prato cheio para voos filosóficos a sós ou bem acompanhados. E atentem para a uma referência filosófica velada, que não vi ainda citada por aí: o juiz Thomas Spangler, tão útil à reviravolta existencial do professor de filosofia até então atolado na depressão, bebedeira e impotência. O nome desse juiz nos remete, sem alarde, mas por nome e sobrenome, ao autor de "A Decadência do Ocidente", Oswald Spengler. Um dos elos de ligação entre a filosofia nietzschiana da vontade de poder e as bases ideológicas mais diretas do nazifascismo, Spengler operava com uma clássica distinção entre "Kultur" (princípio dinâmico, vigoroso, jovial de criação espiritual enraizado todavia na dimensão telúrica da existência) e "Zivilisation" (a velhice da Kultur, com embotamento e desenraizamento dos homens em relação à sua natureza mais profunda, ecológica e biológica, inclusive). Ele ataca a "Zivilisation" moderna, cosmopolita, tecnocrática, considerando que a guerra de 1914 marcava um momento de rebelião do espírito alemão arcaico contra essa ordem estranha e hostil a seus desígnios mais essenciais. Seria um turning point para fora do estado de desespero e estagnação que marcavam o "inverno" da modernidade, no esquema cíclico das quatro estações com que Spengler implode a visão iluminista da História como progresso linear das luzes da razão e do bem-estar. 
Essa apologia da violência redentora  também permeia, de outra maneira, o existencialismo de Sartre. A frase famosa de "Huis Clos", citada no filme (o inferno são os outros) é um indicativo da maneira belicista como Sartre encara os relacionamentos. E noutra peça, ja rumo ao marxismo, "As Mãos Sujas", Sartre retrata elogiosamente o pragmatismo de Hoerderer, disposto a sujar as mãos de sangue e de merda em nome da revolução,,  confrontado ao idealismo pequeno-burguês de Hugo. 
E, em "Homem Irracional" é crucial a tentação da violência, V de Vingança, como forma de justiça autêntica quando a Justiça está corrompida e, mais existencialmente, como elixir dos fluidos criativos desbloqueados. O júbilo de autolibertação violenta de Raskolnikov,  é ressignificado, em "Homem Irracional", pelo fato de o exemplar de Abe Lucas de "Crime e Castigo" tomar como uma espécie de  epígrafe  a frase "banalidade do mal",. Culimância lógica do que no niilismo russo nasce como reivindicação de privilégios sde prender e soltar, torlerar ou matar, pelos super-homens em relação aos meros "vermes", trata-se da expressão que Hannah Arendt cunhou em seu estudo sobre Eichmann e a frieza com que os nazistas apenas "cumpriam ordens" ao prender, explorar e matar 
Retomando a vertigem de Pascal ante o fim dos divertimentos alienantes que nos desviavam de nossa miséria, o existencialismo nasce em meados do século 19. Nos dois casos uma índole antirracionalista produz essa filosofia antifilosófica e revoltada. A denúncia anticartesiana de Pascal se metamorfoseia no furor antihegeliano de Kierkegaard, autor de "O Conceito de Angústia"  -de onde provém a frase citada pelo professor em classe, "A angústia é a vertigem da liberdade"-, e de "O Desespero como Doença Mortal",   citado por Jill, a universitária atraente que, nessa cidade norte-americana de segunda linha,  se põe numa posição como a de Hannah Arendt aluna de Herr Professor  Heidegger, na Malbourg dos anos 20. Abe Lucas, em estado de cinzas como a ave fênix do sobrenome do ótimo ator que lhe deu vida, estava escrevendo um livro sobre as relações entre Heidegger e o nazismo. Estava tão excitado com a empreitada (sim, é disso que o mundo está precisando, mais um livro sobre tema tão batido - será mesmo?) quanto pela profissão de professor e pela própria filosofia. Já nas primeiras aulas que dá quando chega trazendo seu "viagra para o departamento de filosofia" local, o professor brochado declarava que a maior parte da filosofia é uma bulllshit distante das realidades cruéis da vida. Bullshit como a da teoria moral de Kant, que proibía ao homem virtuoso o direito de mentir, mesmo se as tropas nazistas lhe chutassem a porta de casa perguntando se por acaso a família de Anne Frank estava escondida ali. Imoral ali seria você dizer que não, não interessa o que os SS fizessem com as vítimas de sua sanha assassina e de nossa "sinceridade".Por outro lado, o filme mostra que a desconstrução da ética kantiana , este bastião secular dos dez mandamentos do Deus morto, e a crise de todo critério objetivo de moralidade, nos sujeitam ao perigo de que cada um seja "juiz" absoluto de suas próprias ações, com poder de decidir por exemplo quem merece ou não o direito a seguir vivendo. Da asfixiante cátedra de masturbações verbais da filosofia, caimos assim, e depressa, na selva  em que "tudo é permitido" - não se esqueça por um minuto a presença fundamental de Dostoiévski neste e noutros filmes do diretor nova-iorquino.
Como um Spinoza da Big Apple, Woody Allen já declarou, pelos filmes e em entrevistas, que em sua visão sombria da condição humana num mundo sem Deus e sem utopias coletivas confiáveis, a melhor ética possível é a ALEGRIA. Citando título de outro filme recente (também sobre um intelectual amargurado que atrai uma jovem iniciante na vida), diríamos que whatever works: Não importa como, contanto que funcione. E que não destrua o direito do outro à alegria também, portanto à vida. O professor Abe Lucas não nos dá exatamente um aula magna deste preceito ético. Mas até por isso sua lição nos ensina, e muito. Acende uma lanterninha providencial na escuridão.