Tuesday, August 04, 2015

"porque ele era ele, porque eu sou eu"


Não conheço uma definição mais precisa e bonita do mistério da amizade do que a de Montaigne, ao "explicar" a "razão" de seu afeto por La Boétie: "Porque ele era ele, porque eu sou eu". Quase como Javé se definiu para Moisés: "Eu sou aquele que sou". Algo quase platônico, anterior a tempo e espaço, e como força invisível a moldar os acontecimentos numa dada direção, qual jogo de dados viciados.  "Para além de todo meu discurso e do que posso dizer particularmente sobre isso, existe não sei que força inexplicável e inelutável, mediadora dessa união; nós nos procurávamos antes de nos conhecermos".
O "porque ele era ele, porque eu sou eu" já apareceu entre nós em música de Chico Buarque, e é ponto de partida do discurso de uma das personagens do tão almodovariano "Uma Nova Amiga", de François Ozon, que assisti hoje no delicioso Reserva Cultural. Quase impossível analisar qualquer aspecto da história sem cair na barbaridade do spoiler. 
Minha política é sempre ver primeiro uma obra que me interesse antes de ter contato com o que se diz dela, primeiro pela qualidade da maioria dos textos e segundo por me privarem da virgindade dos fenômenos, do cinema como exercício da surpresa de amar à primeira vista.
Para não cair (muito) nesse pecado que meu kama-sutra de amante da cultura abomina, gostaria de me ater a esse aspecto do filme, a referência a Montaigne, e a associações que ela me desencadeia. Ela aparece logo nos primeiros minutos, no funeral de Laura, quando Claire lamenta em discurso a perda da amiga e relembra a intensidade do amor (não sem conotações homoafetivas) que a unia à amiga, morta por câncer pouco depois de dar à luz uma menina com o marido David. Quem encarna o viúvo é Roman Duris, em performance esplêndida nesse e no seu "outro" papel, o de Virgínia: a morte de Laura trouxe à tona, de volta,  seu hábito, aliás conhecido e não condenado pela esposa,  de se vestir de mulher. "Cada qual deve inventar seu caminho de fazer seu luto", diz a dada altura, numa espécie de paródia da sentença abstrata, ainda que legitimadora do estranho impulso,  que ouviu de uma "psi" com quem foi "se tratar". 
A legenda brasileira crava que se trata de uma psiquiatra, mas fica em aberto se não se trata de uma "psi" -coterapeuta ou "psi" - canalista. Eu tendo a apostar mais nesta última hipótese, por se tratar de França, a Meca dos lacanianos. É com eles que aprendemos algo também essencial à "ideologia" do filme: a natureza não-natural, me perdoem o paradoxo, de nossas escolhas e identificações sexuais. O sujeito se inscreve no lado masculino ou feminino da sexuação não obrigatoriamente pelos gens e genitais com que veio ao mundo. E a sexualidade, para Lacan, tampouco se define simplesmente pela escolha do objeto amoroso.
 Veremos afinal "Virginia" (nome de clara conotação "virginal") se apaixonar por Claire, que de "clara", isto é, unívoca,  não tem nada no que tange à orientação de sua libido.Virgínia diz que nunca transou nem se interessou em transar com homens. O cross-dressing aponta aqui para uma inscrição "feminina" na escolha da identidade corporal, do corpo próprio que se quer mostrar para o outro (e para si, no espelho),  mas que não implica desfeminização do outro corpo que se quer levar para a cama. 
O marido apaixonado, lindo, viril (sem ser machista) de Claire simplesmente não lhe basta: é como o prato saboroso que certa noite ele prepara mas ela mal toca. Como disse Ozon em entrevista, é uma ilustração da complexidade dos encontros e desencontros de amor em nosso tempo, por mais que discursos "conservadores" (no mau sentido que comentei em texto sobre o imbecil matador de Cecil) tentem camuflar tal escândalo, incriminando tudo que escapa do antigo modelo familiar como uma conspiração comunopetista internacional, do Foro de São Paulo, do "marxismo cultural". Mais Scruton e menos Olavo de Carvalho, amigos conservadores! Não que eu não respeite e não goste de várias coisas que ele diz, e não admire o movimento cultural que ele capitaneia, quase como um Stefan George nos tempos da Alemanha do início do século 20, em que jovens sedentos de sentido de vida acorriam a círculos carismáticos à direita ou à esquerda. Mas minha opção por um conservadorismo mais liberal, senão libertário, por mais que soe a quadrado triângulo, traduz meu momento espiritual, a estação (no sentido do dial musical, inclusive) do meu próprio (auto)conservar. Conservação da vida, dos seus valores supremos, como o amor, recusa de putarias provocativas à la marcha das vadias, repúdio a gayzismo cristofóbico. Conservação da vida mas sem sufocação dos viventes em quaisquer camisas-de-força que nos tirem a liberdade de amar, se é que de liberdade se trata, e não de destino: porque ele era ele, porque eu sou eu.