sábado, agosto 29, 2015

Resenhas para a Folha, agosto 2015

Cena de Mahabharata, montagem clássica de Peter Brook e Jean-Claude Carrière


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
sábado, 29 de agosto de 2015
textos de CAIO LIUDVIK

O ESPAÇO VAZIO

“Posso pegar um espaço vazio e chamá-lo de um palco deserto. Um homem caminha por este espaço vazio enquanto outra pessoa o observa, e isso é tudo de que se precisa para dar início a um ato teatral”. Essas palavras são o portal de abertura rumo a uma das estéticas mais influentes do teatro mundial desde fins dos anos 60. No Brasil, repercute nas montagens de um Antunes Filho e Gerald Thomas, que assina prefácio desta edição. O manifesto já clássico de Peter Brook, na esteira da “orientalização” contra-cultural do Ocidente, defende um despojamento externo e interno,  dos cenários e do ator,  em comunhão imaginativa com o espectador que completa em si o sentido sugerido na ribalta. Isso tudo na contramão do que Brook designa de o “teatro moribundo”, de pompas e paetês que desfiguram a mensagem radical que clássicos como Shakespeare teriam para nós no aqui e agora. Nome central da cena britânica e parisiense, pôs em prática tais preceitos em montagens célebres como a do épico hindu  “Mahâbhârata
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

CASAMENTO E MORAL
“A moral tradicional não errou ao exigir o autocontrole, mas ao exigi-lo no lugar errado”. Ao invés do amor, “generoso e expansivo”, tal disciplina deveria conter é um sentimento “restritivo e belicoso” como o ciúme. Com a perspicácia de quem antevinha, já em fins dos anos 20, as novas dinâmicas  sociais e sexuais trazidas pela pílula anticoncepcional e pela  revolução feminista, Bertrand Russell apregoa (e diagnostica) nesse ensaio a liberalização da moralidade do amor. Seu espírito cético e anticlerical é traduzido na militância por uma ampla reforma de valores, que despoje os prazeres e deveres humanos do peso da superstição e do tradicionalismo rígido. Russell fala em “casamentos experimentais”, cujo vínculo só se estreitaria de fato no momento da vinda e criação dos filhos. Em nossa cultura contemporânea do “ficar”, são preceitos nada estranhos, mas que convidam a uma responsabilidade moral nem sempre respeitada pelo hedonismo inconsequente.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO


MINHA PARIS, MINHA MEMÓRIA
Nascido em Paris em 1921, Edgard Morin diz, nessas memórias mescladas a retrato afetivo da Cidade-Luz,  que se tornou propriamente parisiense apenas quando a mãe morreu. Essa perda foi a “Hiroshima interna”de sua infância e de sua vida,  mas como que lhe empurrou a um segundo nascimento e uma segunda casa (ou mãe), a Paris de suas evasões imaginárias, nas salas de cinema, a Paris das canções românticas “(Em Paris , em cada subúrbio/ O sol de cada dia / Faz desabrochar um sonho de amor / Em cada destino”) a que ele fazia jus nas colinas estratégicas em que levava suas conquistas amorosas para o primeiro beijo.  A cidade palco e co-protagonista de sua biografia e da história mundial do tumultuado século 20, com suas ruas marcadas pela guerra, ocupação nazista, resistência, revoltas estudantis de 68. 

JOSEPH FOUCHÉ
De professor eclesiástico a  um blasfemo saqueador de igrejas. De um radical carniceiro (responsável pelos massacres de Lyon) e autor do “primeiro manifesto comunista da história”, a algoz de Robespierre . Traidor também de Napoleão, de quem fora ministro e fundador da moderna polícia política.  As peripécias e o caráter (ou absoluta falta dele) de Joseph Fouché (1759-1820), um dos mais importantes e sombrios personagens da Revolução Francesa, são tema deste ensaio de Stefan Zweig, publicado em 1929, sob o impacto, entre outras febres políticas calamitosas recentes ou iminentes, do novo surto revolucionário que tomara a Rússia. Tratava-se, segundo Balzac, da “personalidade psicologicamente mais interessante de seu século”, um gênio sinistro que vale a pena ser investigado por si mesmo e pelo que descortina sobre a psicopatologia do poder em geral, sobre o hábitat político que - os brasileiros que o digam- parece tão afeito ao cinismo camaleônico (entre nós macunaímico), sem nenhum caráter.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO  

PERSEGUIÇÃO E A ARTE DE ESCREVER
Um dos pensadores políticos mais importantes do século 20, Leo Strauss aqui esboça os fundamentos do que ele chama de uma “sociologia da filosofia”, calcada, antes de mais nada, na “periculosidade” da livre investigação racional nas sociedades mais diversas, desde a democracia ateniense que assassinou Sócrates até –e é esse o contexto que Strauss examina mais de perto nos ensaios aqui reunidos- a cultura judaico-islâmica medieval. A linha argumentativa chega a nos fazer pensar na magnífica perspectiva do crítico brasileiro Luiz Costa Lima sobre o “veto à ficção”, o controle social do imaginário, e as respostas que a literatura lhes dá ao longo dos tempos. No caso dos pensadores, mostra Strauss analisando casos como o de Maimônides e Spinoza,  tal resposta vem muitas vezes na forma de um dualismo entre suas doutrinas “exotérica” e  “esotérica”, esta última reservada aos leitores mais seletos, com faro para as entrelinhas.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO