quarta-feira, setembro 30, 2015

ele tem sempre razão

Cartaz com o lema "Mussolini ha sempre ragione"


O velho tá desencanando de disfarçar o fascismo, latente já no lema (Olavo tem razão), imitação DESCARADA do clássico "Mussolini tem sempre razão". Heidegger, no período de reitor nazista, era mais sutil do que a recomendação a seguir. Mas, assim como o 1 está para 7, no placar imortal da Copa do Mundo, nosso ˜reitor de si mesmo" (universidade alguma, aqui ou na América ou no mundo, cabe para seu gigantesco saber), o macho alfa do conservadorismo brasileiro, está para Heidegger.

A presença de analfabetos funcionais em massa nas universidades, na mídia e nos altos postos da administração pública já se tornou UM PROBLEMA DE SEGURANÇA NACIONAL. Se não encontrarmos um modo de tapar a boca dos imbecis e impor o respeito devido aos mais cultos e preparados, este país sofrerá derrota após derrota e irá de queda em queda mesmo no trato dos problemas mais simples e elementares da vida prática. Uma nação de incapazes é ela mesma incapaz. Incapaz de sobreviver. Dilma Rousseff é apenas um resumo condensado da estupidez geral. Removê-la do posto é um ato simbólico e nada mais. As massas de imbecis falantes em todas as esferas da sociedade são o verdadeiro inimigo.
CARVALHO, Olavo de
nota de facebook, 28/09/15

guerra e jogo do amor segundo Polanski


A PELE DE VÊNUS
Direção - Roman Polanski
França  / Polônia
SINOPSE
A trama gira em torno de Vanda (Emmanuelle Seigner), atriz que se esforça para convencer o diretor Thomas (Mathieu Amalric) de que ela é a pessoa ideal para interpretar a protagonista de sua mais nova peça, inspirada em obra de Sacher Masoch.


No cartaz, o salto alto que estilhaça os óculos do saber e do poder masculinos. E desde a sequência inicial, com a invasão das três portas do teatro pelo olhar da câmera, estamos avisados: quem dará as cartas é a Mulher. E não uma qualquer.  Vanda (Emmanuelle Seigner, esposa de Polanski, em estado de graça ) a princípio parece uma mera atriz  de modos chulos, trajes e curvas provocantes e disposta a tudo, sobretudo o bom e velho teste do sofá, para conseguir o papel da dama de mesmo nome do texto do espetáculo. Uma "coincidência" misteriosa, a nos nomes, como tudo que cerca essa estranha e magnética visitante. Mas com o avanço do jogo entre os dois, madrugada adentro, Vanda se transmuta em outras, por exemplo a "psicanalista" com óculos intelectuais e sexy tailleur, capaz de "ver dentro" (insight)  a vidinha sexualmente insossa que seu paciente leva e que o leva. Ou ainda, evidentemente, a deusa evocada pelo título. 
Aliás, essa expressão "Pele de Vênus" nos fala não de uma, mas de "duas" peles de natureza  e escala diversa: a estola física, fetiche sexual particular, próprio do personagem masculino da peça, Severin. E a própria Vênus, como "pele", vestimenta arquetípica, coletiva, com que a cultura tenta ansiosamente traduzir , ordenar, se proteger (conforme se patriarcaliza) do anárquico Real do sexo e da fêmea no Simbólico-Imaginário do Amor e "da" Mulher, essa que não existe, segundo Lacan. Desponta aqui a dimensão propriamente mágica do "fetiche", isto é, do feitiço, que faz do sexo experiência limítrofe (como a pele da gente) entre os territórios do sagrado e do profano, do natural e do cultural. 
No debate entre Vanda e Thomas sobre o suposto "machismo" do texto de Sacher-Masoch, está implícita uma tensão mais ampla, histórico-cultural, entre as perspectivas pagã e judaico-cristã de reconhecimento do poder da mulher. O reconhecimento é o mesmo, mas com conotações emotivas e morais opostas: da exaltação extática nos mitos de Afrodite e das Bacantes ao temor sagrado a Eva, a Lilith, refletido na citação bíblica que abre o texto e fecha o filme: "E o Todo-Poderoso o feriu e o entregou às mãos de uma mulher". 
Como a câmera que invade as três portas do velho teatro parisiense,  Polanski parece nos convidar  a revisitar da ótica matriarcal, pretérita e futura (impressão minha ou é a hora e a vez de uma nova hegemonia das mulheres?) um poder "diretor" patriarcal suscetível, de tão desgastado que está, a ser facilmente seduzido e  "travestido", ou melhor, transvalorado, no sentido revolucionário que este termo tem na filosofia báquica de Nietzsche.
O "masoquismo" de Masoch, para além da tara erótica do gozar sofrendo, catalogada pelos psiquiatras, assume assim uma dimensão filosófica maior,  no contexto da "guerra dos sexos",  esse conflito que ainda precisamos aprender, como outras diferenças humanas, a tirar do registro opressivo e maniqueísta isso "versus" aquilo, senhor "versus" escravo. E, trazendo a questão masoquista para o nível dos afetos carnais, é preciso lembrar a lição freudiana de que as "perversões" em geral, entre as quais figura esta inspirada (involuntariamente)  no nome do escritor austríaco, não são por si sós uma "doença".
Nascemos perversos, por assim dizer: com múltiplas possibilidades, vias e regiões de energização erótica no contato com nosso próprio corpo, o da mãe, o dos outros. E, ao longo de uma vida sexualmente satisfatória, é provável que o coito genital papai-mamãe não elimine de nós o anseio por outras brincadeiras, desviadas dessa rota previsível, "pervertidas". Podem não envolver chicotadas físicas ou morais como ao gosto de certo tipo de "masoquistas", mas jamais estarão distantes, senão em grau, da natureza eminentemente sofredora, instável, de "queda" e ferida, que há no "fall in love", no "tomber amoureux".
Por que não a brincadeira gozosa com o próprio sofrer do amar, com a própria lógica do "versus", por que não carnavalizar, na cama, o que fora dela tantas vezes é causa de tragédia na história: nossa sanha de dominío, nossa vontade de poder?  
O sado-masoquismo, nessa ótica lúdica, se faria um modo de "transvalorar", transformar consentido e democrático jogo win-win, a  estranha ambivalência que faz do senhor escravo do escravo, e do escravo, senhor do senhor. Uma ambiguidade virtual que torna possível a  alternância concreta entre esses polos de domínio e submissão nos jogos de Vanda / Vênus e Thomas / Severin, numa noite em que o que é cênico e o que é real são também universos sem peles espessas que os separem. 
Entre jogo e guerra, o filme nunca "concilia" a tensão. Gravita, vai ficando cada vez mais evidente, na lógica trágica, de punição para a hybris do diretor que começara zombando, senão do feminino em geral, dessa geração atual, de atrizes incapazes de sustentar uma voz que não pareça de uma menina de dez anos que inalou gás hélio para buzinar nesse agudo ridículo banalidades como "tipo assim, foi irado".
Mas se toda tragédia é catarse, e fascina e ensina pelo excesso, que esta também - a ancestral guerra dos sexos-  tenha chegado a um tempo em que de fato nos ensine e nos melhore, nos prepare a "pactuar" com os deuses inferiores e superiores, com Afrodite pandêmia e celestial, carnal e platônica, não mais a venda da alma (notem o diálogo de Masoch com o "Fausto"), mas a reconquista da vida. 

terça-feira, setembro 29, 2015

Popol Vuh, "Song of the Earth"


o templo do Espírito

"My Body, My Temple", Autum Skye Morrison, 2015

domingo, setembro 27, 2015

o viandante e sua sombra


perto de uma mulher são só garotos


Popol Vuh, trilha de "Nosferatu"

Austin Osman Spare, "The negation of unity is wisdow" (lápis, 1919)

sábado, setembro 26, 2015

Para a Folha- Nazismo de Heidegger


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
sábado, 26 de setembro de 2015
textos de Caio Liudvik

HEIDEGGER – A INTRODUÇÃO DO NAZISMO NA FILOSOFIA
Para o enfastiado professor de filosofia de “Homem Irracional” – a aula paródica de existencialismo dostoiévskiano de Woody Allen, em cartaz em SP-, o tema “Heidegger e o fascismo”  soava batido. “Como se o mundo precisasse de mais um livro sobre isso”,  dizia, racionalizando a estagnação de sua própria pesquisa. Se por acaso tivesse lido esse belo livro de Emmanuel Faye, veria que não, o tema não está nada batido. De quebra, reencontraria uma defesa da dimensão ética da filosofia que poderia tê-lo demovido do crime que estava prestes a cometer. 
Num dos mais duros e fundamentados ataques a Heidegger, Faye lhe nega o direito sequer a ser chamado de filósofo, mostrando que vida e obra tinham, para o pensador da Floresta Negra, uma unidade, em torno do signo místico-racial da suástica, muito mais profunda do que os discípulos depois tentaram alegar. 
Não se tratou de meros “dez curtos meses de febre” (Hannah Arendt), de um erro pessoal e passageiro, que não chegaria a manchar as grandiosas especulações sobre o ser, o tempo, a técnica, a existência. 
Para Faye, além disso, o perigo de Heidegger é atualíssimo: até pelos véus esotéricos em que depois da guerra recobriu uma pregação que seguiu sendo nazi, Heidegger paira entre nós como um profeta potencial de um  “quarto Reich”, contra o qual o filósofo francês se mobiliza com paixão e muitos documentos inéditos ou pouco conhecidos.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O MAL E O SOFRIMENTO
Desde os tempos do Livro de Jó, passando pelo fatídico terremoto de Lisboa (marco da reflexão moderna sobre o Mal) até o Holocausto,  a história não cessa de pôr ao homem o dilema: por que tamanho horror e indiferença da  natureza e dos deuses em relação a nossos anseios de segurança, justiça e felicidade? Em paralelo com as reflexões desesperadas de um Sartre e um Camus, de mais repercussão pública no século 20 filosófico francês, é preciso conhecermos melhor a abordagem de Louis Lavelle. Em sintonia com as perplexidades existenciais de nossa era, ele nos conecta com uma dimensão ética e espiritual que parecia perdida: o Mal como purificação que convoca não ao conformismo, mas à evolução criadora da consciência,  que na provação dá testemunho da autonomia e precedência dos bens espirituais ante as contingências externas.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO



O CUBISMO
Marco inaugural do movimento cubista, o quadro “Les Demoiselles d’ Avignon”,  de Pablo Picasso, sugeriu a Apollinaire a seguinte reação, sintomática do caráter revolucionário da obra e do movimento: “Não é possível levar o cadáver do pai para todo lugar”. Este livro de Serge Fauchereau, com mais de 200 reproduções coloridas, é um guia precioso para, mais de um século depois, se tomar pulso da radicalidade e das consequências (muitas delas atuais) do cubismo nas mais diversas artes e no seu âmago, que o crítico define com uma metáfora religiosa: uma espécie de novo “jansenismo”   que, tendo em Picasso o seu Pascal, calcava seu credo estético em elementos como a austeridade antirromântica, a busca de um equilíbrio estático na contramão da ênfase impressionista no fugidio e transitório, a quebra das convenções sobre o belo, a geometrização alheia à verossimilhança.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO   

OS EIXOS DA LINGUAGEM
Há décadas Luiz Costa Lima se dedica a pensar o estatuto da literatura a partir de conceitos como o de “mímesis” (a chamada imitação da vida pela arte, termo chave que remonta a Aristóteles) e de controle do imaginário na cultura ocidental. O chamado “veto à ficção” tem entre suas estratégias a desvalorização do poder cognitivo de toda forma de linguagem que não se subordine ao conceito racional, empiricamente testável, próprio da mentalidade científica. Mas o conceito, mostra em seu novo livro, não é o topo da pirâmide das formas discursivas do ser humano. É, isso sim, um dos dois grandes “eixos da linguagem” de que trata o título. O outro é o eixo metafórico, que o professor emérito da PUC-RJ investiga em profundidade, dialogando com Heidegger, Husserl e, em especial, Hans Blumenberg, do qual traduz, em anexo, importante texto sobre as raízes da racionalidade moderna.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

quem tem medo dela?

Virginia Woolf, em 1926

Robert de Niro e o prazer de Epicuro


Me deliciando aqui com as "Sentenças Vaticanas" de Epicuro, na coleção "Grandes Nomes do Pensamento", da Folha. Quero trazer para este Diário de Bordo alguns recortes, a começar dos poucos aforismos que tive tempo de desfrutar ontem, pouco antes de assistir a "Um Senhor Estagiário", com a deusa Anne Hathaway e Robert de Niro. 
"Aquele que é plenamente feliz e imortal não tem preocupações, nem perturba os outros; não é afetado pela cólera ou pelo favor, pois tudo isso é próprio à fraqueza".
O que Epicuro quer dizer por "felicidade" e "imortalidade"? Veremos melhor. Mas a segunda sentença sugere que, mais que uma "abolição" da morte, ao estilo prometido pelas religiões, o homem de sabedoria suspende a ANGÚSTIA da morte. Esse ao menos parece ser o convite dessas palavras. Convite propriamente ético, isto, é, voltado para a educação da vontade, termo que, literalmente, no vocabulário de Epicuro, tem a conotação de "o que é relativo a nós".
"A morte nada é para nós. Com efeito, aquilo que está decomposto é insensível e a insensibilidade é o nada para nós".
Enquanto somos, a morte não é; quando a morte "for", já nada seremos. Essa dupla distância, desigualdade entre a vida sensível e a morte, como que nos dá o direito a uma "imortalidade", verdade que provisória, mas eterna enquanto durar, enquanto durarmos, e dura o bastante, nem que por um instante, para que não precisemos desperdiçar o poder de felicidade aqui e agora em nome de conjecturas vagas sobre o depois e alhures.  
Na sentença 10, Epicuro nos diz: "Lembra-te  de que, sendo mortal por natureza e dispondo de tempo limitado, tu te elevaste pelos raciocínios sobre a natureza até o ilimitado e o eterno e contemplaste a teus pés 'o que é, o que será e o que já foi'". 
Aqui a sabedoria parece nos permitir uma "imortalidade" não apenas psicológica, pela evitação do pensamento de que morreremos. O sábio efetivamente entra em contato com a "natureza"  de uma tal forma que transcende a angústia e o apego sugeridos pelo pensamento de que somos finitos. Isso não pela entrega descabelada aos "prazeres" anestesiantes - uma acusação comum de se ouvir contra os epicuristas, como uns hedonistas irresponsáveis, adeptos diabólicos da "trindade" do beber, comer e foder o mais que puder. 
"Não é possível viver prazerosamente sem viver com prudência, retidão e justiça". Epicuro não considera o prazer como bem supremo, isto é, como objetivo que justifica todo e qualquer meio. O bem supremo não é "o prazer", mas é prazeroso: a sabedoria, prudente, reta e justa, portanto com um senso sutil de medida (base de sua liberdade) e chave, ela sim, da felicidade integral, em todas as dimensões da vida, não excludente como as dicotomias cristãs de prazer e dever nos acostumariam a acreditar. 

E "Um Senhor Estagiário", que coroou a noite epicurista que os deuses me propiciaram ontem? O filme mereceria comentário à parte. Mas cabe uma ou duas palavras no espírito de Epicuro, que o revela ainda mais divertido e terno do que pela història e o carisma da dupla principal. 
Vi nas redes sociais gente jovem ridicularizar De Niro por topar um papel como este, de um viúvo, avô e aposentado de 70 anos que, para fugir do vazio, do lugar na quina de escanteio que a sociedade lhe reserva no gramado da vida, resolve voltar a trabalhar. "Você viu? Que decadência!", disseram. Concordo. Decadência desses fulanos, jovens só de pele,  sentados na janela da varanda (em que os facebooks da vida muitas vezes se degradam) e tricotando preconceitos tão torpes, eu diria tão rasos, se não fossem de uma ignorância profunda, abissal, sobre o que, de fato, é o nobre e o ridículo, para uma alma filosoficamente sadia. Dona de si, de seus parâmetros, de sua liberdade de escolha de onde està a sabedoria prazerosa. De Niro, e seu personagem, nos dão uma linda lição de prazer epicurista, no sentido genuíno do termo: sabedoria impulsionada pelo desejo (quem não se motivaria em ser estagiário tão dedicado, depois de saber que teria por chefe Anne Hathaway?). 
Sabedoria que vem ensinar passos de tai-chi para nossa obsessão workaholic e jeitos mais elegantes de se pedir desculpas pela pisada de bola com uma mulher. Sabedoria que oferece hospitalidade e é "coach"  (cocheira) do bom conselho nas travessias e encruzilhadas. Sabedoria que chora, discretamente, o estar na cama e não apetecer a jovem ao lado a nada mais do que um convite a conversar e ver TV. Sabedoria que sorri e faz sorrir, de dentro pra fora ("Intern" é o cargo do personagem de De Niro e o título do filme) ao ensinar que, apesar das perdas e dissabores, a vida merece o melhor de nós, em qualquer idade, na "melhor idade", a única com que contamos, o agora que passa. 

Popol Vuh, álbum "Spirit of Peace"



sexta-feira, setembro 25, 2015

filosofia, a massa e os massagistas de manobra



Minha reflexão do dia é inspirada por essas palavras de  Charles Bukowiski:
"Tenho lido os filósofos. São uns caras realmente estranhos, engraçados e loucos. Jogadores. Descartes veio e disse: é pura bobagem o que esses caras estão falando. Disse que a matemática era o modelo da verdade absoluta e óbvia. Mecanismo. Então, Hume veio com seu ataque à validade do conhecimento científico causal. E depois veio Kierkegaard: ` Enfio meu dedo na existência - não tem cheiro de nada. Onde estou?` E depois veio Sartre, que sustentava que a existência é absurda. Adoro esses caras. Embalam o mundo. Será que tinham dor de cabeça por pensar dessa forma? Será que uma torrente de escuridão rugia entre seus dentes? Quando você pega homens como esses e os compara aos homens que vejo caminhando nas ruas ou comendo em cafés ou aparecendo na tela da TV, a diferença é tão grande que alguma coisa se contorce dentro de mim, me chutando as tripas."

Adorei a citação do Velho Safado, mas vou focar por ora no que nela hà de falho. Quando era pra tirar um 10 ele trocou os pés pelas mãos. Preferiu sublinhar a grandeza de ser filósofo da pior forma possível, rebaixando quem é diferente: "os homens que vejo caminhando nas ruas ou comendo em cafés". É preciso dar um basta nessa mania de elogiar desprezando. Isso é ressentimento, não amor. É PARA esses homens que o filósofo tem razão de ser, para dialogar com eles, se  redescobrir como um deles, e reciprocamente despertar o filósofo, o amigo da sabedoria, que há também neles.  
Uma reviravolta essencial da filosofia do século 20 é justamente valorizar a cotidianidade como tempo e espaço da mais legítima manifestação das estruturas existenciais da vida humana.
Não se trata tampouco de escutar e observar os homens ao nosso redor apenas na medida de nosso interesse em usá-los como massa -ou MASSAGISTA- de manobra. 
Massa de manobra como no erro de Heidegger, quando deixou de lado as agonias (isto é, lutas) do Dasein que se encontra e se perde na cotidianidade para, na segunda fase de sua filosofia, se instalar no trono imperial de uma História do Ser a ser reconfigurada com as mãos pesadas de um Führer do pensamento . Foi o momento de sua adesão infeliz ao Partido Nacional-Socialista, de sua tentação de poder usurpando as prerrogativas e humildade crítica do saber..
 Heideggeriano até na opção de escrever O Ser e o Nada, a réplica de Ser e Tempo, nos cafés da cidade, palco por excelência de um filosofar despojado e assentado na vida cotidiana, Sartre também na política replicou e repetiu a tentação do existencialista alemão. Mas em direção ideológica aparentemente oposta. Com sua adesão, após a vitória aliada em 1945, ao comunismo, movido pelo sentimento legítimo de solidariedade com os condenados da Terra, arriscou-se a sucumbir a uma lógica de pensamento de cima para baixo, fazendo-se não mais libertador do homem,  e sim legislador do que "deveria ser" a vida das massas. Encantado pelo dever ser da utopia, reprimiu e enrijeceu em si as habilidades de intérprete do que "é". Isso ao menos nas performances da persona pública que passou a encenar, e em episódios lamentáveis como a ruptura com Camus em 1952..
Nos dois casos, um empobrecimento ético do filósofo não pela proximidade, mas pelo afastamento do homem cotidiano, convertido em massa de manobra de fantasias pessoais de poder. 
Mas eu dizia, não só massa, mas massagista de manobra. Como assim? Já vi muito disso, o filósofo, fodido pela sociedade, mal pago, incompreendido, se "vingar" imaginariamente fazendo das torpezas da gente comum uma espécie de mãos tailandesas que acariciam e levam ao orgasmo o amor-próprio do "sábio" : sim, sejam esses imbecis alienados, assistam A Fazenda, votem no Datena, ou nem queiram mais votar, torçam pela volta da ditadura, arrastem esses empregos & casamentos brochantes, assim, ass... ASSIM! isso! quanto mais idiotas, mais vocês comprovam minha sabedoria.

quinta-feira, setembro 24, 2015

a graça, a farsa e o urso


Nietzsche considerava a humildade, virtude capital do cristianismo, como a inteligência compreensível, mas covarde, do verme que, uma vez ferido, aprendeu que precisa viver encolhido para não ser pisoteado de uma vez por todas. Fez muita falta a Nietzsche uma relação mais positiva com o cristianismo em geral, e a humildade e a compaixão em particular. Mas ainda assim o amo, como os mestres (e amigos) que ensinam também pelas imperfeições. 
Pior é o caso de quem diz, mas só da boca pra fora, ser cristão, e não assume como prática de vida o rosário pesado, heroico, de compromissos que Nietzsche pelo menos tinha a hombridade de dizer que não desejava, que não lhe servia. Vejamos então o caso do " cristão" Olavo de Caravlho. Nele, a humildade é tema de floreios bonitos, como esse pensamento que ele diz que lhe ocorre quando ora a Deus e vê diante Dele o quanto é pequeno e falho: "O sentimento adequado da nossa miséria é o centro da nossa consciência, a chave do nosso senso das proporções, a única via eficiente para um ser humano se instalar na realidade da sua vida com uma perspectiva correta." 
Mas, brincando com a inscrição à porta da casa de Jung, e que se refere à presença de Deus:  aceita ou não aceita, a vontade de poder estará sempre presente, não porque Nietzsche a "inventou", mas porque a natureza É assim.  Para me valer da poética de Pessoa, é um dos heterônimos psicológicos de Deus, como a caridade autêntica. 
A vontade de poder baba, daquela baba borbulhante, na fala arrogante e ressentida deste católico inimigo de Francisco (mais um atestado de dignidade do Papa) , no vídeo acima. Humildade diante do Criador é menos que nada se não passa de salvo-conduto para a autocelebração egoica e vontade de humilhação das criaturas, a começar do urso morto que, com cabeça e tudo, fica à mostra como tapete na sala de estar do astrólogo. Só acredito num cristianismo da graça que aceite e sublime o nietzscheísmo da vida. No ruído externo da palavra, graça até parece com farsa. A diferença profunda é interna.

terça-feira, setembro 22, 2015

um conto de muitas cidades

A Tale of Many Cities: Rio de Janeiro, Brazil;  por Paul Clemence 

o fantasma da noite





O subtítulo do "Nosferatu" (1979) de Werner Herzog -que teve pré-estreia ontem no Espaço Itaú- define seu vilão como "Phantom der Nacht". A tradução, como se fez no Brasil, como "vampiro da noite", peca por certa redundância (é quase como dizer o "peixe do mar") e, mais importante, por sonegar esse dado simbólico essencial: a natureza FANTASMÁTICA do vampiro.
Como mostram José Luiz Aidar e Márcia Maciel no livrinho "O Que É Vampiro?" (da saudosa coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense), estas "criaturas de terrível espectro" são "mortos que saem misteriosamente de suas sepulturas, à noite, para buscar sangue fresco dos vivos que dormem". E como podem abandonar o túmulo sem deixar vestígios? É que se trata de "um FANTASMA que sai do caixão sem deixar vestígios". Um fantasma que "sai do caixão como um vapor, por uma fenda qualquer, conseguindo depois condensar-se e corporificar-se para DAR A ILUSÃO DE UM SER VIVO. Um vampiro não age durante o dia talvez porque a luz dissolva seu corpo artificial ou impeça sua condensação".
Se depende de "uma fenda qualquer" para SAIR do leito da morte, esse fantasma depende também, vemos no filme de Herzog e em tantos de seus congêneres, de uma fenda, de outro tipo, para ENTRAR no corpo de sua vítima. A fenda da CUMPLICIDADE: os vampiros só têm acesso às vítimas quando estas deixam portas ou janelas abertas. 
Esse tipo de "descuido" camufla, isso sim, o DESEJO.  Assim como fantasma, em francês, é sinônimo de FANTASIA, obra por excelência de nossa libido. Não é preciso Hollywood convocar seus maiores galãs para que este personagem sinistro tenha em torno de si uma aura de fascínio. Mesmo o ancião careca, carcomido, abatido de "Nosferatu" (sinônimo romeno de vampiro, mas um termo de origem etimológica incerta, que alguns associam a "portador de enfermidade") mostra esse magnetismo, veja como a belíssima Lucy gravita em torno dele, é atraída por ele, de pressentimento em pressentimento, desde o pesadelo inicial, com as múmias e o voo lento do morcego gigante, interrompendo o sono no grito de pavor,  passando pelo caminhar sonambúlico, até a decisão de se "sacrificar", como mulher de coração puro, em nome da salvação universal. Excelente racionalização!
A sua "janela aberta" tem a ver com a revolta metafísica que, apesar  do crucifixo purificador no peito, a afasta das ilusões religiosas - no diálogo com Drácula, Lucy é de uma "lucidez" cortante ao dizer coisas como "os rios prosseguem sem nós", sendo a morte a soberana irrecusável que retrata a precariedade e perfeita dispensabilidade da vida humana sobre a Terra. 
Drácula, ex-cruzado devoto, se desiludiu com Deus quando perdeu a amada (que parece reconhecer em Lucy, séculos depois) numa conspiração abjeta em que os humanos de novo provaram do que são capazes. 
Seu castigo, como a dos heróis gregos precipitados no inferno eterno devido à "hybris" trágica de quererem contestar a vontade campeã olímpíca dos deuses, é não poder acabar de morrer,e de não mais desfrutar do amor de uma parceira, só do sangue de vítimas. 
A fenda do desejo de Lucy, permitindo que o fantasma da noite viesse perfurar seu macio pescoço imaculado,  tem a ver também com um casamento carinhoso, sim, mas já pálido de insatisfação sexual e falta de paixão  - vide as camas separadas, a conotação asséptica da brancura das vestes, a preocupação maternal com o marido que come o café da manhã rápido demais.
Jonathan, por sua vez, diz que ir ao encontro do exótico conde da Transilvânia, numa viagem a cavalo de um mês, o deixa feliz, ao afastá-lo da sua cidade de "canais que não vão a lugar nenhum", de águas que sempre retornam ao mesmo lugar.O desenlace de sua história mostra o quanto, desde o início, sua alma entediada era uma janela aberta para o Morcego da peste. 
"A aterradora aparição do Mal que nos Mistérios de Elêusis se dava em sua forma pura, e era verdadeiramente revelada, corresponde ao tempo negro de certas tragédias antigas que todo teatro verdadeiro deverá reencontrar.
Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso, mas porque, como a peste, ele é a revelação, a afirmação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam num indivíduo ou num povo todas as possibilidades perversas do espírito" (Antonin Artaud)
Perversão como o reverso da neurose, liberdade sonhada (fantasiada, fantasma) do neurótico, liberdade da criança perverso-polimorfa revelada por Freud, ele próprio orgulhoso de trazer, com Jung, a "peste" da psicanálise, a moderna libertadora do desejo,  para a América, num navio como o que transporta Nosferatu e seus ratos para a cidade de fantasmas diurnos da pacata vidinha normal.  
Pode-se alegar que o filme não nos causa o mesmo impacto bruto de terror  décadas depois. E que um personagem como o "discípulo" de Drácula, que envia Jonathan ao encontro do mestre, resvala no caricatural. Mas nada disso diminui a força do remake de Herzog para o clássico expressionista de Murnau (1922), ambos inspirados na bìblia da mitologia vampìrica moderna, o "Drácula" de Bram Stocker. 
A densa névoa, os lobos e ventos uivantes, os lindos planos,  -não sem o recurso do "time lapse"-, a música majestática, nos oferecem instantes de verdadeiro pensamento meditativo, no sentido pregado por Heidegger em seu ensaio sobre a serenidade. 
Do mestre-vampiro da Floresta Negra, aliás, nos lembramos também pelo fato de tanto o racionalismo científico quanto a fé tradicionalista parecerem, na visão de Herzog (como na ontologia  de Heidegger, na contramão da tecnocracia moderna e do projeto  "onto-teo-lógico" do Ocidente desde Platão), caminhos insuficientes para dar conta da existência humana, portanto também do mistério do Mal e do sinistro desejo que sentimos por ele, que o conterrâneo de Heidegger figura aqui, em cena inesquecível, na Peste Negra que devasta a cidade mas não impede os últimos sobreviventes, infectados todos, de cantar, dançar e cear junto à multidão dos ratos. 

domingo, setembro 20, 2015

cangurus ao Sol


Boston, "More Than a Feeling"

I looked out this morning and the sun was gone
Turned on some music to start my day
I lost myself in a familiar song
I closed my eyes and I slipped away

It's more than a feeling, when I hear that old song they used to play (more than a feeling)
I begin dreaming (more than a feeling)
'Till I see my Marianne walk away
I see my Marianne walkin' away

So many people have come and gone
Their faces fade as the years go by
Yet I still recall as I wander on
As clear as the sun in the summer sky

It's more than a feeling, when I hear that old song they used to play (more than a feeling)
I begin dreaming (more than a feeling)
'Till I see Marianne walk away
I see my Marianne walkin' away

When I'm tired and thinking cold
I hide in my music, forget the day
And dream of a girl I used to know
I closed my eyes and she slipped away
She slipped away

It's more than a feeling, when I hear that old song they used to play (more than a feeling)
I begin dreaming (more than a feeling)
'Till I see Marianne walk away


Sartre, Renato e os biscoitos proibidos


No trecho da entrevista à MTV acima, Renato Russo fala muita coisa interessante de se cruzar com os testemunhos escritos de seu "Só Por Hoje e Para Sempre", diário de bordo do período de internação, em 1993, para se livrar da dependência química.
A entrevista é daquela época. É o que se infere das alusões ao líder do Nirvana. Renato prevê, infelizmente com razão, o fim iminente de Kurt ("esse vai embora rapidinho"), devorado por duas coisas que o próprio Renato sabia e sofrera por experiência própria,  os excessos da imprudência e o circo midiático que se cria em torno de figuras de tamanho carisma, esperando com sofreguidão pelo próximo escândalo, vexame e pela consumação da ruína, para Sua maior glória, como diriam os antigos católicos: glória porém não às alturas, mas às profundezas infernais do Moloch da Idade Mídia, que faz e desfaz seus fantoches efêmeros para que a idolatria persista sempre igual e nova.
Sobre si mesmo, e sobre a condição do viciado em geral, os insights são de suma importância. Renato se revela num nível de autoconsciência e maturidade impressionantes, que prenunciavam uma vida muito mais estável e duradoura, não fosse o HIV . Ele iria embora quase tão rápido quanto Kurt, para maior glória do inferno de ausência de ídolos de verdade, em todas as áreas, que hoje nos acomete em plena sociedade da idolatria difusa. 
No livro, ele menciona leituras que buscava deprimido e PARA reforçarem a depressão. Que lhes dessem razão sobre o quanto o mundo é uma merda mesmo, sem solução, a não ser encher a cara, comer da "jarrinha dos biscoitos proibidos"  que nos prometem o paraíso artificial, como diria Baudelaire - ou, citando autores que Renato cita nesse contexto de reforços intencionais (lidos nesse viés, necessariamente parcial)  da sua depressão: Rimbaud, Nietzsche, Kierkegaard, pai do existencialismo.

Sartre e Simone de Beauvoir

Falando em existencialismo, Sartre dá o exemplo de um jovem francês indeciso entre se juntar à Resistência antinazista ou ficar em casa cuidando da mãe. Um dilema entre duas alternativas, dois valores, mutuamente excludentes, como acontece tantas vezes nas decisões mais cruciais da vida. Nessas horas, mostra ele, a escolha começa a ser moldada já ao escolhermos esta ou aquela pessoa para nos aconselhar. Dava para saber mais ou menos o que se escutaria se o conselho viesse do padre de direita, a favor da resignação nacional, ou do amigo militante de esquerda. 

Assim também os livros, músicas, alimentos espirituais ou psicológicos que assumimos como  dieta cotidiana. Renato escolhia textos que fossem pretextos para se confinar ainda mais na depressão, da qual se utilizava "para escrever e me isolar". Verdade que a droga pode representar, por um tempo, certo refúgio e  reserva de energia para resistir e ir mais fundo do que os medianos. Verdade que pessoas de uma sensibilidade acima do usual são mais propensas a se deixar arrastar pela angústia, num mundo que não está fácil para ninguém. Verdade, também, que a angústia pode ser inspiradora, criativamente útil, ela é um afeto que não mente, diria Lacan.
 Mentimos nós, e nos empobrecemos, ao fazer dela o ÚNICO afeto, como se não houvesse também motivos para alegria, esperança, compaixão construtiva (não só a que "sofre junto", mas a que, no sentir e agir em comum, cura se curando e, se curando, cura).
Boa e má, a vida é ambivalente. E é, em grande medida, o que fazemos dela, diz  na entrevista, ecoando outro importante preceito de Sartre.
"Quando estou feliz, vejo a felicidade nos outros. Quando sinto compaixão, vejo o mesmo sentimento nas outras pessoas. Quando estou cheio de energia e esperança, vejo muitas oportunidades à minha volta. Mas quando estou com raiva, vejo uma irritação despropositada. Quando estou deprimido, percebo a tristeza nos olhos de quem me rodeia. Quando estrou desanimado, vejo o mundo como um lugar chato e sem atrativos. Eu vejo o que sou!" (Steve Chandler).
Vemos o mundo não como ele é, mas como somos, ou melhor, como estamos, afinal mais que um ego petrificado e monolítico, "sou 300, 350" (Mário de Andrade), multiplicidade de tendências, jogo com novos jogadores e novas regras possíveis a cada instante. A impermanência de que falam os budistas, o vazio do Para-si sartriano, a perpétua disponibilidade a  ser segundo o nosso fazer, ao invés de meramente fazer em resposta sempre-igual a um ser pronto e acabado, que "nasceu assim", como a Gabriela do Jorge Amado.
E, noutro momento sartriano da entrevista, Renato completa: não faria nada daquilo de novo, mas não me arrependo de nada, como Edith Piaf e como todos nós que sabemos o quão o remorso pode ser pre-texto, como outros textos mentais, para não sair daquele mesmo lugar de miséria, de tristeza, de esterilidade. Melhor sim encarar tudo o que passamos, até de pior, como o jeito possível de crescer. Dando graças sempre ao Poder Superior, como o poeta o faz aqui e como fazemos nos turning points em que sentimos a presença desse Poder, seja como Alguém fora de nós, seja como budeidade ou magia da vida que nos faz e desfaz e refaz e nos ama, ao contrário do Moloch predador da Idade Mídia.

sábado, setembro 19, 2015

clama, clama contra o morrer da luz


Duas citações da famosa elegia que Dylan Thomas escreveu ao saber que o pai estava à beira da morte: nos filmes "Interstellar" e "Mentes Perigosas"

Do not go gentle into that good night


Do not go gentle into that good night,

Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

-Dylan Thomas, 1914 - 1953-


Não vás tão docilmente
trad. Augusto de Campos


Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

sexta-feira, setembro 18, 2015

bem dizer a sua dor


Na programação neurolinguística, a fala orientada positivamente, sublinhando nossos potenciais e objetivos, depurando toxinas, é considerada essencial para o enfrentamento das barreiras. Para que os obstáculos, negativos por natureza ou circunstância (na medida em que jogam CONTRA NÓS, nesse momento), não nos contaminem de um negativismo desnecessário, disfuncional, paralisante. Não se trata de bancar o otário gargalhando polianicamente enquanto sapateia na esquiva dos tiros da realidade,. Trata-se de, por palavras e sentimentos apropriados, geradores de estados de espírito enérgicos e determonados, identificar o que se quer e ir ao encontro dele, ao invés de fixar (e escoar) as energias no que não se quer, no que estamos implorando que acabe, mas que não tomamos a decisão de FAZER com que acabe. 
Na psicanálise, ainda que tão diversa das correntes da chamada psicologia positiva, temos uma convergência importante, ainda que o sentido do "bem dizer" seja outro. Aqui também, "bem dizer", ainda que o que vai mal, o seu sintoma, é parte essencial do processo de transformação. Bem dito, isto é, formulado com mais e mais "precisão" no fluxo da associação de pensamentos afetivos, o problema disforme e obscuro começa a ganhar forma e claridade. O saber em jogo na análise não é o do analista, mas do analisante. Um saber porém inconsciente, enovelado, que emerge sob transferência - ou seja, por força do AMOR, como amando será a resposta que nos libertará.  
No bem dizer de nossa dor, já sabemos ao menos DO que sofremos. Que a coisa não estava legal, sentíamos. ONDE não está é que são elas: chegamos ao divã com uma queixa genericamente projetada no outro,  nos fulanos ou sicranos que, do nosso vale sem água ou no Palácio do Planalto, sem caráter identificamos como bolas de ferro de nossa vida que está menos do que poderia ser. Não impede que tais coisas e fulanos SEJAM problemas, mas o sofrimento da alma os ELEGE, no momento do discurso interior ainda impreciso, como bode expiatório de algo mais vago, que está EM NÓS mas que ainda "maldizemos" quando botamos na conta do diabo do vizinho. Bem dizer é começar a reverter. Perceber a parte que nos cabe nesse latifúndio, como ajudamos a moldar o problema, ou o sofrimento que ele acarreta.A ver o DESEJO por trás do sintoma, abafado por ele. E começar a agradecer, acolher como bênção o próprio mal, na medida em que faceta da singularidade de nosso ser, sem ajustamento possível ao coro burro dos polianas ou conformados.
No vídeo acima, Monja Coen nos fala da importância, no zen-budismo, do acolhimento ao contratempo da doença como um instrumento de iluminação. O contratempo que nos revela o tempo,  temporais, frágeis, finitos, impermanentes, dissolvendo em perfumes de gratidão e compromisso com a vida a crosta de ansiedades egoicas que pode inclusive ter contribuído, emocionalmente, para atrair para nós o "carma" (não como castigo, mas efeito natural). 
Pensar é fazer do obstáculo um portal. Não para uma torturada renúncia ao desejo como se entende (mal) o ascetismo pregado por Buda, o Sidarta,  PARA os budas que somos todos. O que se pede é a queima do carma do apego, que distorce tudo, até a naturalidade do desejo. Porfal RUMO ao desejo,  ao qual começamos a perder -após tantas perdas, essa é a melhor de todas- o medo de consentir. E de com-pensar. Heidegger, o mais oriental de nossos pensadores depois de Schopenhauer, bem diz: denken ist danken, PENSAR É AGRADECER.

Tolstói por uma nova alforria das almas


No Calendário da Sabedoria de Tolstói, o tema de ontem pareceria bem mais politizado, para não dizer incendiário, do que o de hoje: a pregação contra o latifúndio. Possuir demasiadas terras (não fica claro que critério demarcaria a quantidade "justa") é uma injustiça tão grande, segundo ele, quanto possuir pessoas. Lembremos o impacto que teve para a Rússia a então recente abolição do regime de servidão, que permitia ao amo contabilizar entre suas riquezas a quantidade de hectares, bois e "almas",  como era hábito se referir aos servos. 
Ecoando o lema de Proudhon, Tolstói chega a afirmar que a propriedade é um roubo. Uma adulteração das relações naturais entre os homens, uma injustiça que pede outras. Um abismo que chama outros abismos, dir-se-ia em linguagem bíblica, nada distante do tom de profeta que o grande escritor assume cada vez mais, ao trocar a literatura por uma mística popular e revolucionária, que faria dele o Rousseau da Revolução Russa. 
Pois bem, hoje Tolstói volta ao tema da alma. Aparentemente, não fala de política. Marca, com as citações que reúne (fragmentos judaicos, budistas e estoicos), a especificidade de nossa dimensão espiritual:
"A fagulha divina vive em todos nós , e luta perpetuamente no sentido de nossa origem" (Sêneca)
"Quando perceber que tudo na sua vida é transitório, haverá de perceber outras coisas, permanentes e eternas" (Dhammapada)
"Ninguém pode ver a alma, mas só a alma pode verdadeiramente ver a essência das coisas" (Talmude)
"Chamo espírito àquela parte do homem que tem existência independente e nos dá a compreensão da vida" (Marco Aurélio) 
Disse que o tom apolítico é aparente. Nada é apolítico. Nada mais político do que nossas decisões essenciais acerca de quem somos, quem queremos ser, onde está nosso tesouro e nosso coração.
O apelo de Tolstói cala fundo em nosso tempo, que é de um  embrutecimento notável do amor, como eu dizia ontem, e das demais dimensões do que se pode chamar de o trabalho do espírito, essencial no cultivo de uma vida equilibrada, harmônica e sadia. Desse trabalho, dizia Valéry, depende a capacidade humana de tomar distância, por momentos, de tudo o que existe, inclusive do próprio ego, e assim observar-se, criticar-se, controlar-se, transformar-se. O espírito é o passaporte para, senão, ainda, o Reino de Deus, uma região ontológica mais pacífica dentro e fora de nós. Com mais empatia, amorosidade e energia orientada criativamente.
Mas o próprio Valéry anunciava, quando da eclosão da Primeira Guerra Mundial, que ano passado fez cem anos: "Temo que o espírito esteja se transformando em coisa supérflua".  
Por isso é preciso uma nova abolição da escravatura, uma nova libertação das "almas". 
Não sei se por uma luta à moda antiga, de tipo político-institucional. Enquanto as almas estiverem corrompidas, suas lutas externas também o estarão. É o que os partidos e movimentos mais "progressistas" não cessam de nos ensinar, com seus espetáculos de hipocrisia e cobiça de poder pelo poder, essas estreitezas materialistas que fazem o espírito sucumbir e apagar-se em nós a centelha divina.
Seja como for, vem o tempo, e já chegou, de tomarmos uma decisão contínua (não é de uma vez por todas, é exercício cotidiano) de recusa da acomodação à mediocridade, à lei da selva, à lei da carne, ao latifúndio gordo da improdutividade e do desperdício que nos trouxe aos atuais extremos de sofrimento pessoal, coletivo e ecológico.

é o que é

"Was es ist
Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist
Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe."
//
É o que é
É absurdo
diz a razão
É o que é
diz o amor
É infelicidade
diz o cálculo
Nada além de dor
diz o medo
É vago
diz o juízo
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É leviano
diz a prudência
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor.
Erich Fried (1921 - 1988) .

quinta-feira, setembro 17, 2015

a arca de Noé do amor



LOVE
França, 2015
Direção: Gaspar Noé
SINOPSE:
Murphy (Karl Glusman) está frustrado com a vida que leva, ao lado da mulher (Klara Kristin) e do filho. Um dia, ele recebe um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), perguntando se ele sabe onde ela está, já que está desaparecida há meses. Mesmo sem a encontrar há anos, a ligação desencadeia uma forte onda saudosista em Murphy, que começa a relembrar fatos marcantes do relacionamento que tiveram.

Entre a orgia e a carnificina, com direito à profusão de excrementos, estupros, mutilações : assim se passa o festim diabólico de "Saló: 120 Dias de Sodoma",originalmente um clássico do Marquês de Sade levado às telas  por Pasolini, no último de seus filmes. Um dos mais perturbadores da história do cinema, até pela fidedignidade com que dá carne e sangue literais a um dos universos literários mais reveladores -portanto sinistros e fascinantes a um só tempo- da vida moderna.
Esta que é a "narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe" ganha, na versão de Pasolini, dimensões políticas que a crítica moralista apressada tende a esquecer. Libelo antifascista, mostra a perversão que transborda dos pactos prazerosos entre amantes na alcova para virar lógica de poder, de imposição "sádica" do Estado totalitário, para o qual vale tão bem a palavra de um dos personagens sadianos: 
“Se fosse justo, não nos deixaria de pau duro.”
O cartaz de "Saló" na casa de Murphy, em "Love",vem a calhar como reforço da identidade do personagem, estudante de cinema que deseja fazer filmes com abundância de  "sangue, lágrimas e esperma". Não, contudo, o pornô pelo pornô, mas que fossem despudorados a ponto de revelar também a sentimentalidade do sexo. 
É esse "despudor" sentimental que falta em muitos filmes pornográficos, sintomas de uma sociedade que, como se diz, só PENSA  naquilo, mas que nem por isso pensa bem. E pior, quando pensa, pensa um pensar dissociado do sentimento, não mais SENTE "aquilo", o sexo em suas dimensões múltiplas, do sacana ao sublime. 
O filme de Noé é interessante por subverter essa brutalidade do pornográfico - o sexo dissociado do amor- com as próprias armas do erótico. Até pelo seu título, ele se preocupa sim com o discurso amoroso que está aos pedaços, que padece de uma "extrema solidão", talvez "falado" por uma multidão, sem ser "sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação. Esta afirmação é em suma o tema do livro que ora começa" (Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso) - e da polêmica Arca-filme que Noé, o diretor, propõe e contrapõe, como erotismo selvagem, pós-moderno, mas ainda assim, a sua maneira, romântico , ao pornografismo banal de uma era que já Max Weber profetizava, um século atrás, ser para especialistas sem espírito e sensualistas sem coração.

Incursões como a de Lars Von Trier ao universo X, em "Ninfomaníaca", estão permeadas de um espírito bem pouco entusiasmado pela matéria de que tratam: o sexo é ali inflado mas paradoxalmente desvalorizado, como pouco mais que um oco divertimento (Pascal), é uma fome insaciável contra a dor, ou pela dor, num frenesi de sensações cujos atrativos ilusórios  deixam, pela própria abundância numa cultura permissiva, de nos agasalhar, em sua nudez fogosa, ante a angústia da condição humana. 
Não se nota a mesma coisa em "Love". Não ao menos o mesmo tom nórdico de absurdo.  É verdade que paira certo pessimismo na visão do inevitável esfriamento das relações, e da substituição do vermelho tórrido da noites de paixão pelo quarto branco, ascético, quase hospitalar, em que se acorda aos berros do bebê gerado pelo acaso de uma camisinha que estourou numa transa com uma semi-desconhecida.
Mas o sexo não chega nunca a nos enojar,como em "Saló". Ao contrário, literalmente nos atrai, nos chama para perto de si: o recurso do 3D quase que nos faz participar dos jogos de luxúria. Reforça a proposta do enredo de nos fazer acompanhar Murphy (nome "pessimista" por excelência) no fluxo de consciência de um dia de sua vida hoje monótona de pai de família. Olhamos com suas retinas internas -com direito às "piscadelas" da câmera intermediando as imagens- o passado com Electra de modo não-linear, da inocente conversa no parque ao fatídico convite a que a vizinha de Murphy viesse também partilhar da cama do casal.  
Não que essa loirinha ainda quase adolescente fosse a primeira "intromissão" de um terceiro. Mas foi aquela que, por um fato fortuito (a gravidez indesejada), ao invés de aquecer a luxúria, incendiou e destruiu algo de íntimo no pacto espiritual de Murphy e de Electra e que faz de um casal humano mais que um acasalamento animalesco.
Sem propriamente bancar um juiz moral de seus personagens, o filme levanta o questionamento do quão longe a caça a "sensações" novas pode ir sem desfigurar a sentimentalidade do sexo, delicado equilíbrio do círculo mágico, demarcador de fronteiras entre o dentro e o fora, o nosso e o resto. Proteção recíproca como a que Murphy e Electra se prometem no chuveiro após a primeira transa, que já não era mera foda, de um casal cuja intensidade, e não banalidade, fizera com que se beijasse antes de um saber o nome do outro..
Por outro lado, o fim do relacionamento não teria acontecido por outra via, de qualquer modo, se não essa? Não é da "lei de Murphy" que se algo pode dar errado, fatalmente dará? E dentre as coisas menos papais, isto é, menos infalíveis, e menos sujeitas a cagação de regras, está a paixão, o sexo, a existência, a morte. Tudo isso de "real" (Lacan) que irrompe em ejaculações abundantes neste filme que merece ser visto, pensado e sentido, como o amor, arca de Noé que nos resta, falível e fascinante, em tempos sombrios de amesquinhamento do erótico em pornográfico.