Thursday, September 17, 2015

a arca de Noé do amor



LOVE
França, 2015
Direção: Gaspar Noé
SINOPSE:
Murphy (Karl Glusman) está frustrado com a vida que leva, ao lado da mulher (Klara Kristin) e do filho. Um dia, ele recebe um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), perguntando se ele sabe onde ela está, já que está desaparecida há meses. Mesmo sem a encontrar há anos, a ligação desencadeia uma forte onda saudosista em Murphy, que começa a relembrar fatos marcantes do relacionamento que tiveram.

Entre a orgia e a carnificina, com direito à profusão de excrementos, estupros, mutilações : assim se passa o festim diabólico de "Saló: 120 Dias de Sodoma",originalmente um clássico do Marquês de Sade levado às telas  por Pasolini, no último de seus filmes. Um dos mais perturbadores da história do cinema, até pela fidedignidade com que dá carne e sangue literais a um dos universos literários mais reveladores -portanto sinistros e fascinantes a um só tempo- da vida moderna.
Esta que é a "narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe" ganha, na versão de Pasolini, dimensões políticas que a crítica moralista apressada tende a esquecer. Libelo antifascista, mostra a perversão que transborda dos pactos prazerosos entre amantes na alcova para virar lógica de poder, de imposição "sádica" do Estado totalitário, para o qual vale tão bem a palavra de um dos personagens sadianos: 
“Se fosse justo, não nos deixaria de pau duro.”
O cartaz de "Saló" na casa de Murphy, em "Love",vem a calhar como reforço da identidade do personagem, estudante de cinema que deseja fazer filmes com abundância de  "sangue, lágrimas e esperma". Não, contudo, o pornô pelo pornô, mas que fossem despudorados a ponto de revelar também a sentimentalidade do sexo. 
É esse "despudor" sentimental que falta em muitos filmes pornográficos, sintomas de uma sociedade que, como se diz, só PENSA  naquilo, mas que nem por isso pensa bem. E pior, quando pensa, pensa um pensar dissociado do sentimento, não mais SENTE "aquilo", o sexo em suas dimensões múltiplas, do sacana ao sublime. 
O filme de Noé é interessante por subverter essa brutalidade do pornográfico - o sexo dissociado do amor- com as próprias armas do erótico. Até pelo seu título, ele se preocupa sim com o discurso amoroso que está aos pedaços, que padece de uma "extrema solidão", talvez "falado" por uma multidão, sem ser "sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação. Esta afirmação é em suma o tema do livro que ora começa" (Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso) - e da polêmica Arca-filme que Noé, o diretor, propõe e contrapõe, como erotismo selvagem, pós-moderno, mas ainda assim, a sua maneira, romântico , ao pornografismo banal de uma era que já Max Weber profetizava, um século atrás, ser para especialistas sem espírito e sensualistas sem coração.

Incursões como a de Lars Von Trier ao universo X, em "Ninfomaníaca", estão permeadas de um espírito bem pouco entusiasmado pela matéria de que tratam: o sexo é ali inflado mas paradoxalmente desvalorizado, como pouco mais que um oco divertimento (Pascal), é uma fome insaciável contra a dor, ou pela dor, num frenesi de sensações cujos atrativos ilusórios  deixam, pela própria abundância numa cultura permissiva, de nos agasalhar, em sua nudez fogosa, ante a angústia da condição humana. 
Não se nota a mesma coisa em "Love". Não ao menos o mesmo tom nórdico de absurdo.  É verdade que paira certo pessimismo na visão do inevitável esfriamento das relações, e da substituição do vermelho tórrido da noites de paixão pelo quarto branco, ascético, quase hospitalar, em que se acorda aos berros do bebê gerado pelo acaso de uma camisinha que estourou numa transa com uma semi-desconhecida.
Mas o sexo não chega nunca a nos enojar,como em "Saló". Ao contrário, literalmente nos atrai, nos chama para perto de si: o recurso do 3D quase que nos faz participar dos jogos de luxúria. Reforça a proposta do enredo de nos fazer acompanhar Murphy (nome "pessimista" por excelência) no fluxo de consciência de um dia de sua vida hoje monótona de pai de família. Olhamos com suas retinas internas -com direito às "piscadelas" da câmera intermediando as imagens- o passado com Electra de modo não-linear, da inocente conversa no parque ao fatídico convite a que a vizinha de Murphy viesse também partilhar da cama do casal.  
Não que essa loirinha ainda quase adolescente fosse a primeira "intromissão" de um terceiro. Mas foi aquela que, por um fato fortuito (a gravidez indesejada), ao invés de aquecer a luxúria, incendiou e destruiu algo de íntimo no pacto espiritual de Murphy e de Electra e que faz de um casal humano mais que um acasalamento animalesco.
Sem propriamente bancar um juiz moral de seus personagens, o filme levanta o questionamento do quão longe a caça a "sensações" novas pode ir sem desfigurar a sentimentalidade do sexo, delicado equilíbrio do círculo mágico, demarcador de fronteiras entre o dentro e o fora, o nosso e o resto. Proteção recíproca como a que Murphy e Electra se prometem no chuveiro após a primeira transa, que já não era mera foda, de um casal cuja intensidade, e não banalidade, fizera com que se beijasse antes de um saber o nome do outro..
Por outro lado, o fim do relacionamento não teria acontecido por outra via, de qualquer modo, se não essa? Não é da "lei de Murphy" que se algo pode dar errado, fatalmente dará? E dentre as coisas menos papais, isto é, menos infalíveis, e menos sujeitas a cagação de regras, está a paixão, o sexo, a existência, a morte. Tudo isso de "real" (Lacan) que irrompe em ejaculações abundantes neste filme que merece ser visto, pensado e sentido, como o amor, arca de Noé que nos resta, falível e fascinante, em tempos sombrios de amesquinhamento do erótico em pornográfico.