Wednesday, September 02, 2015

as rotas do desejo


FILME: NA PRÓXIMA, ACERTO NO CORAÇÃO

direção: Cedric Anger
(França, 2014)
Oise, França, 1978. Franck Neuhart (Guillaume Canet) é um policial que, nos dias de folga, comete frios assassinatos ao matar jovens mulheres a quem dá carona. Ninguém tem a menor pista de quem seja o autor dos crimes, sendo que o batalhão onde Franck trabalha é responsável pela investigação. Sem conseguir conter a ânsia em matar, Neuhart começa a se envolver com a jovem Sophie (Ana Girardot), que trabalha em sua casa e é perdidamente apaixonada por ele.


Gostaríamos de acreditar que, apesar das aparências, "o bem sempre vence no fim, e se não venceu é porque não é ainda o fim". Que a realidade, tal como o barro que vira obra nas mãos de um criador carinhoso e cuidadoso, tivesse sempre os contornos da sensatez e da virtude. Mas sabemos que não é assim. Ao clichê acima, sobre o bem e o fim, se contrapõe outro, o de que "bonzinho só se fode". No campo sexual, nem isso. Muitas vezes é ele, o fofo, o amigo universal das mulheres, o compreensivo, o afetuoso, quem fica chupando o dedo. Muitas vezes virtude é ineficácia: quem se dá bem é o mau,  o cafajeste, o perverso, inclusive no sentido clínico do termo. Quantos não são os assim chamados "sedutores", a começar do arquétipo deles, Don Juan, marcados pela mais fria  indiferença ou hostilidade deliberada a cada uma de suas "vítimas"?  Raramente amamos pelas mesmas razões que acreditamos e que professamos serem as boas razões para amar. No caso de tantos serial killers do amor, na ficção e na realidade, essa dissonância pode custar a vida de quem cai no canto da sereia ou do lobo do Mal.
Este filme, baseado em caso verídico, nos propõe uma variação instigante desse mesmo tema. O maníaco não se configura como um master da pegação: apenas tem o talento de atrair muitas mulheres para o banco do passageiro de seus carros. Seus, no plural, porque a cada emboscada e vítima que ele faz, ele larga o corpo para trás e furta um novo veículo. Até por ser policial, tem todas as manhas para driblar as malhas da lei. Que seja um policial envolvido na investigação de SEUS próprios crimes é uma poderosa metáfora para a clínica da perversão: pervertido, aqui, não como o "malvado" do senso comum, mas como o tipo de subjetividade que, no avesso da neurose, reconhece a lei, mas não sofre com ela, usa-a como um utensílio para seu gozo, tal como o fetichista (tipo de perverso) que "precisa" ser pisoteado pelo salto alto da amante.
Mas Franck não goza da "leveza" típica do perverso: seus sintomas psicopáticos mostram que muitos sujeitos "preferem" pirar a se assumirem gays. Os tiros na região genital de uma de suas vítimas são as balas na agulha que esse monstro tem a oferecer, na ausência de libido que levantasse seu pau para penetrar as mulheres que ele atrai mas que não O atraem, para seu desespero.
Terrível o sofrimento dessa alma asfixiada, lotada, como sua casa, de sacos de lixo que não encontram vazão. Terrível verificar, uma vez mais, o quanto, na vida e no amor, aceitamos "carona" em veículos do desastre. Às cegas como a Vontade metafísica -personagem mítico como o perverso Iahweh dos gnósticos- que segundo Schopenhauer dá as cartas e escreve errado por rotas  tortas (sedução=levar à parte, desviar) nas estradas sem rumo do mundo material.