quinta-feira, setembro 24, 2015

a graça, a farsa e o urso


Nietzsche considerava a humildade, virtude capital do cristianismo, como a inteligência compreensível, mas covarde, do verme que, uma vez ferido, aprendeu que precisa viver encolhido para não ser pisoteado de uma vez por todas. Fez muita falta a Nietzsche uma relação mais positiva com o cristianismo em geral, e a humildade e a compaixão em particular. Mas ainda assim o amo, como os mestres (e amigos) que ensinam também pelas imperfeições. 
Pior é o caso de quem diz, mas só da boca pra fora, ser cristão, e não assume como prática de vida o rosário pesado, heroico, de compromissos que Nietzsche pelo menos tinha a hombridade de dizer que não desejava, que não lhe servia. Vejamos então o caso do " cristão" Olavo de Caravlho. Nele, a humildade é tema de floreios bonitos, como esse pensamento que ele diz que lhe ocorre quando ora a Deus e vê diante Dele o quanto é pequeno e falho: "O sentimento adequado da nossa miséria é o centro da nossa consciência, a chave do nosso senso das proporções, a única via eficiente para um ser humano se instalar na realidade da sua vida com uma perspectiva correta." 
Mas, brincando com a inscrição à porta da casa de Jung, e que se refere à presença de Deus:  aceita ou não aceita, a vontade de poder estará sempre presente, não porque Nietzsche a "inventou", mas porque a natureza É assim.  Para me valer da poética de Pessoa, é um dos heterônimos psicológicos de Deus, como a caridade autêntica. 
A vontade de poder baba, daquela baba borbulhante, na fala arrogante e ressentida deste católico inimigo de Francisco (mais um atestado de dignidade do Papa) , no vídeo acima. Humildade diante do Criador é menos que nada se não passa de salvo-conduto para a autocelebração egoica e vontade de humilhação das criaturas, a começar do urso morto que, com cabeça e tudo, fica à mostra como tapete na sala de estar do astrólogo. Só acredito num cristianismo da graça que aceite e sublime o nietzscheísmo da vida. No ruído externo da palavra, graça até parece com farsa. A diferença profunda é interna.