Friday, September 04, 2015

as cartas do medo


No intervalo da final do Super Bowl de 1993, maior competição do futebol americano, o técnico do Dallas Cowboys juntou seus jogadores e lhes pregou um discurso motivacional que encaminhou a vitória consagradora, por 52 a 17. Imaginem-se naquele vestiário ou em qualquer outro vestiário de qualquer outra grande final de sua vida, vivendo as excitações e ansiedades da decisão:
"Eu disse a eles que, se eu colocasse uma tábua no chão do vestiário, todos ali iriam andar sobre ela até o fim sem cair, porque nosso foco estaria em atravessá-la. Mas se eu colocasse aquela mesma tábua ligando dois prédios de 10 andares, muito poucos conseguiriam atravessar até o outro lado, porque o foco estaria principalmente em cair. Foco é tudo. O time que estiver mais concentrado hoje é o que irá vencer a partida".
Claro que não dá para comparar as duas travessias da tábua, em si mesmas. Ou os desafios de um dia prosaico com o peso da responsabilidade de um dia do nascimento de seu filho, do encontro em que você enfim vai se declarar para seu amor, ou da entrevista para o tão sonhado emprego.  Nossos ancestrais nos legaram, entre outras estratégias de sobrevivência no árido mundo, o medo. É parte da vida, é a ressonância interior do fato de que vida é movimento, mudança, risco e portando dor: a perna só não dói quando beliscada se estiver paralisada. 
Nesse sentido, o medo é nossa herança "evolutiva", no sentido darwinista. Mas muitas vezes a evolução natural é uma retórica de leigos no assunto que querem mesmo é impôr uma visão estática, paradoxalmente não "evolutiva" ao mundo cultural, relativo, em aberto, livre (Sartre: somos livres até por "obrigação", somos prisioneiros da liberdade, na medida do que nossa consciência pode decidir para si no espectro de suas alternativas).  Se algo "evolui", é porque se transforma, e muitas vezes para melhor, no sentido de permitir maior economia de tempo e recursos e maximização de benefícios para a espécie e o indivíduo viventes. Mas muitas vezes a retórica biologista da evolução embute a tentativa ridícula de desqualificar as ciências "humanas" (catso, quais não o são?) e sua visão marcadamente histórica da condição humana.
E quanto ao medo, também ele pode ser uma experiência "evolutiva". E evoluir, nesse caso, é, não digo diminuir, mas se nuançar conforme o medo vira ingrediente a mais na motivação de agir, e, agindo, impedir ou postergar ou atenuar o mal tão temido. Assim como no nível macro das sociedades, do pombo correio à internet, crescem no indivíduo, em sua interioridade, na relação consigo, as chances e recursos de uma melhor COMUNICAÇÃO.  "Comum-nicar", é tornar "comum" não pela vulgarização do  extraordinário, mas pela partilha entre os opostos, integração. Integrar o medo, nos momentos de grande responsabilidade, nas finais de campeonato da existência, é deixar que ele abra em nós um envelope em que estava escrita esta mensagem: cuide-se, este não é um dia qualquer, muita coisa está em jogo. O medo então não dá as cartas, era uma carta a mais, como a do amor. Traduzindo medo em linguagem de amor, ele vira cuidado, e não perdemos o tesão de lutar (medo de perder é um infalível inibidor da vontade de vencer). O medo então é seiva que engrandece o entusiasmo do combate, mais que isso, a alegria de estar vivo, aqui agora, independente dos resultados posteriores, mas orgulhoso por saber que nem todo dia a tábua está no chão, largada e disponível para um exercício banal. Está lá no alto, armada para provar nossas habilidades técnicas e psicológicas, treinadas muitas vezes na segurança sem ambições que era andar no chão.  
Mas transportando mentalmente o conforto de andar no chão para o risco de andar no céu, a travessia adquire esta qualidade de confiança, de despojamento, que levava um Garrincha a jogar uma final de Mundial como se estivesse numa pelada na praia. Ganhamos em simplicidade e em foco no positivo do exercício em si, na medida de nossas possibilidades; já o resultado do exercício depende de nós e de um algo a mais, fora de nosso controle, incerto: devemos, merecem de nós respeito os adversários, humildade o jogo, amor a vida, mas não devemos nada ao imponderável, nem o nosso temor.