quinta-feira, setembro 10, 2015

entre o muito louco, meu! e a sã chatice


Como parte do seu combate interior na Vila Serena, Renato põe no papel os prejuízos que o vício em drogas e álcool estava lhe causando em diversas áreas da vida: saúde, dinheiro, relações familiares, carreira, imagem pública. Neste último aspecto, admite que, paradoxalmente, se autodestruir como pessoa era algo que lhe ajudava a se "autoconstruir" como ídolo num meio que valoriza o que ele chama de "comportamento dionisíaco de um artista". Vende bem na mídia e alimenta no público o embasbacado "Esse cara deve ser muito louco, meu".
A loucura, não é de hoje, atrai para si uma aura quase mágica. E tem ares de experiência radical que soa atraente numa modernidade que se afasta, pro bem e pro mal, da lógica "careta" que enfeia e estraga o rosto leve. experimentador e jovial que acreditamos ser o ideal  para quem não morreu ainda em vida. 
Tudo que não me mata, me  fortalece, diria um dos ícones dos devotos do casamento sagrado de loucura & genialidade, Friedrich Nietzsche, pai também do conceito de "dionisíaco" como arquétipo da criação artística embrigada.
A maior parte da pessoas, segundo Renato, "acha que só alguém que não é 'normal' escreve canções 'profundas', ou com conteúdo poético acima do normal, que tocam a sensibilidade de todos de um jeito especial". Não deixa de ser verdade! Jung está aí pra mostrar o quanto os loucos "têm razão" ao serem porta-vozes visionários do inconsciente coletivo. A questão aqui é a dose e a maneira de experimentar com o além da razão e do "normal". O que a um é aventura romântica a velas (e Renato é visceralmente romântico não só nas canções, mas até no nome que adotou, homenageando Rousseau), a outro pode ser naufrágio. 
E o roqueiro cita colegas de ofício e de estrelato que só confirmam a relação entre personalidade problemática e criatividade excepcional: Cazuza, Raul, Lennon, Janis Joplin, Hendrix, Jim Morrison, Cobain. "Sem comparações, é claro", ressalva com um senso de modéstia que não basta para nos tirar a impressão, sim, de que algo nele o comparava aos gênios malditos, ou pelo menos atuou como fator motivacional para "não se reprimir" (lema dos anos 80) durante as farras das quais herdou males curàveis e incuràveis, como o vírus da Aids (ainda não falou na doença no seu diário de bordo).
Outro tópico em que a relação com as drogas não se afigurou como prejudicial:  "Minha educação (escolaridade, estudos, cursos, leituras)".
 Volto mais tarde a isso. Mas o legal, em termos de uma análise da "jornada da alma" de Renato na Vila Serena, é que, no processo terapêutico, o vício precisa ser verbalizado em toda sua complexidade, não apenas como um vilão de folhetim de segunda linha. Se é um vilão, o é num nível mais alto: o de Sedutor que, banhado na rubra luz da paixão mefistofélica, não cativaria se nada tivesse a oferecer que nos desviasse do caminho da sã e chata "normose", esse neologismo delicioso que Jean-Yves Leloup, sábio de uma sabedoria esculpida ao fogo de caminho espiritual entre o absurdo e a graça, cunhou para classificar a doença de querer ser normal a qualquer preço, inclusive ao preço da perda da graça de viver.