Tuesday, September 15, 2015

Fellini, a espera e o medo da mulher




Cenas de "Le Notti di Cabiria" 

Seguindo os recortes da entrevista de Fellini a Damien Pettigrew, chegamos a um tópico delicado: as mulheres! Da pureza destratada pelo mundo da personagem de Giullieta Masina (sua esposa na vida real) em "Noites de Cabíria" aos seios de proporções cósmicas da matrona em "Amarcord", passando, claro, pela "Cidade das Mulheres", como  dissociar a magia do universo felliniano deste fundamento matriarcal que recua aos primórdios dos tempos?
 Às brumas avalônicas da História, origens remotas quando a mulher era celebrada como a força da natureza que é, poderosa e ambivalente como os deuses?
 Segue sendo, claro, mas no inconsciente do homem:  seja reprimida ou idealizada, desprezada ou talmudeada (neologismo com que Reich fala das teorizações que mal camuflam seu teor de conversa fiada de virjões no assunto), mas sempre e miseravelmente escanteada para um lugar inautêntico, ruim para os dois sexos e para o sexo em si.

Isso não quer dizer que esse ou aquele arranjo social algum dia possa nos anestesiar por completo a dimensão tensa, aliás parte da química, que torna o jogo homem-mulher tão fascinante. O entrevistador, nesse sentido, provoca: "A mulher lhe dá medo?"

A primeira reação de Fellini é defensiva: "A palavra medo é um pouco exagerada. Curiosidade, interesse, sentimento de espera, sim". Não que o medo seja por si só um mal a ser combatido:
"Acho que o homem não pode deixar de ter medo porque é essa atitude de ansiedade, de espera em relação ao desconhecido que nos dá um sentido mais profundo da vida. O homem sem medo seria um homem estúpido, um robô. O medo é um sentimento intrínseco da humanidade."
Mas, insiste o cineasta: "Quando consideramos esse sentimento em relação à mulher, acredito que, mais que o medo, a atitude que a mulher sugere aos homens em geral, é muito complexa. É um sentimento composto de várias nuances. Nós projetamos sobre a mulher, eu acho, um SENTIMENTO DE ESPERA. O da revelação de alguma coisa, da chegada de uma mensagem, um pouco como o personagem de Kafka que esperava uma mensagem do imperador. A mulher é talvez a imperatriz que enviou, quem sabe há quantos milhões de anos, uma mensagem que era alegre e não chegou. Porque o prazer da vida está na espera da mensagem e não na mensagem propriamente dita".
A literatura universal, dos mitos à  psicanálise -que pode perfeitamente ser entendida como uma "teoria literária" em sentido amplo-, atesta isso que Fellini sintetiza tão bem: a mulher, "para o homem em geral e em particular para um criativo, está em intercâmbio como uma fonte de inspiração, qualquer coisa de profundamente nutritiva". Uma "mediadora, uma embaixatriz e assim, um estímulo potente".   
Um leite materno, indaga o entrevistador? "Essa é uma imagem MUITO ITALIANA que utilizei duas ou três vezes em meus filmes", responde Fellini, mas não é só isso. É Minerva (ou Palas Atena; ele cita os nomes romanos das deusas gregas), como "mulher intelectual que afronta o homem"; é Diana, "a Caçadora, a mulher guerreira, o aspecto agressivo"; é Vênus, "amor e arte". É, em suma, o "tipo psicológico da mulher" na sua imagética plural, profusão de impactos, funções, não meramente reduzidas ao paradigma da mãe, como a leitura freudiana rasa forçaria. É, para evocar o termo clássico de Jung,  a Anima, o Feminino no inconsciente masculino, da qual a mãe é primeira portadora e versão, é o roseiral felliniano de  "todas as musas que inspiraram os poetas gregos que, antes de criar, dirigiam uma prece à musa para que ela os alimentasse, desse força e iluminasse suas imaginações".
A cena de "Amarcord" que destaco acima sempre me impressionou pela aparência cômica que, no fundo, fala de tragédia: a do homem que regride ao seio da Árvore da Vida, como que fazendo o caminho de volta dos macacos ancestrais, e grita em desespero pela vinda dessa donna que lhe restituia um sentido de existir, um motivo para não ser o tiozinho louco da família. Sua esterilidade afetiva faz da "espera" arquetípica de todo homem por uma mulher uma tortura. Que a misteriosa freirinha anã que, ao contrário da  parentela, o tira de lá possa não só ter silenciado  seu apelo estridente aos céus. Que possa ter, de algum modo, respondido a esse apelo: se não da maneira erótica, ao menos o pacificando para que busque em melhores condições não pela "donna", mas pela jornada interior que a trará. "Parece-me, para citar Jung -depois não me permitirei mais citações- que o homem projeta sobre a mulher sua parte obscura, fazendo-a, desse jeito, fascinante. A mulher, segundo Jung, é o planeta desconhecido, a parte à qual o homem queria se unir para encontrar uma esfericidade, uma integridade, uma totalidade e é também, pela mesma razão, a parte dele mesmo que ele ignora, a parte sombria dele mesmo que o seduz e intimida".