Friday, September 25, 2015

filosofia, a massa e os massagistas de manobra



Minha reflexão do dia é inspirada por essas palavras de  Charles Bukowiski:
"Tenho lido os filósofos. São uns caras realmente estranhos, engraçados e loucos. Jogadores. Descartes veio e disse: é pura bobagem o que esses caras estão falando. Disse que a matemática era o modelo da verdade absoluta e óbvia. Mecanismo. Então, Hume veio com seu ataque à validade do conhecimento científico causal. E depois veio Kierkegaard: ` Enfio meu dedo na existência - não tem cheiro de nada. Onde estou?` E depois veio Sartre, que sustentava que a existência é absurda. Adoro esses caras. Embalam o mundo. Será que tinham dor de cabeça por pensar dessa forma? Será que uma torrente de escuridão rugia entre seus dentes? Quando você pega homens como esses e os compara aos homens que vejo caminhando nas ruas ou comendo em cafés ou aparecendo na tela da TV, a diferença é tão grande que alguma coisa se contorce dentro de mim, me chutando as tripas."

Adorei a citação do Velho Safado, mas vou focar por ora no que nela hà de falho. Quando era pra tirar um 10 ele trocou os pés pelas mãos. Preferiu sublinhar a grandeza de ser filósofo da pior forma possível, rebaixando quem é diferente: "os homens que vejo caminhando nas ruas ou comendo em cafés". É preciso dar um basta nessa mania de elogiar desprezando. Isso é ressentimento, não amor. É PARA esses homens que o filósofo tem razão de ser, para dialogar com eles, se  redescobrir como um deles, e reciprocamente despertar o filósofo, o amigo da sabedoria, que há também neles.  
Uma reviravolta essencial da filosofia do século 20 é justamente valorizar a cotidianidade como tempo e espaço da mais legítima manifestação das estruturas existenciais da vida humana.
Não se trata tampouco de escutar e observar os homens ao nosso redor apenas na medida de nosso interesse em usá-los como massa -ou MASSAGISTA- de manobra. 
Massa de manobra como no erro de Heidegger, quando deixou de lado as agonias (isto é, lutas) do Dasein que se encontra e se perde na cotidianidade para, na segunda fase de sua filosofia, se instalar no trono imperial de uma História do Ser a ser reconfigurada com as mãos pesadas de um Führer do pensamento . Foi o momento de sua adesão infeliz ao Partido Nacional-Socialista, de sua tentação de poder usurpando as prerrogativas e humildade crítica do saber..
 Heideggeriano até na opção de escrever O Ser e o Nada, a réplica de Ser e Tempo, nos cafés da cidade, palco por excelência de um filosofar despojado e assentado na vida cotidiana, Sartre também na política replicou e repetiu a tentação do existencialista alemão. Mas em direção ideológica aparentemente oposta. Com sua adesão, após a vitória aliada em 1945, ao comunismo, movido pelo sentimento legítimo de solidariedade com os condenados da Terra, arriscou-se a sucumbir a uma lógica de pensamento de cima para baixo, fazendo-se não mais libertador do homem,  e sim legislador do que "deveria ser" a vida das massas. Encantado pelo dever ser da utopia, reprimiu e enrijeceu em si as habilidades de intérprete do que "é". Isso ao menos nas performances da persona pública que passou a encenar, e em episódios lamentáveis como a ruptura com Camus em 1952..
Nos dois casos, um empobrecimento ético do filósofo não pela proximidade, mas pelo afastamento do homem cotidiano, convertido em massa de manobra de fantasias pessoais de poder. 
Mas eu dizia, não só massa, mas massagista de manobra. Como assim? Já vi muito disso, o filósofo, fodido pela sociedade, mal pago, incompreendido, se "vingar" imaginariamente fazendo das torpezas da gente comum uma espécie de mãos tailandesas que acariciam e levam ao orgasmo o amor-próprio do "sábio" : sim, sejam esses imbecis alienados, assistam A Fazenda, votem no Datena, ou nem queiram mais votar, torçam pela volta da ditadura, arrastem esses empregos & casamentos brochantes, assim, ass... ASSIM! isso! quanto mais idiotas, mais vocês comprovam minha sabedoria.