Tuesday, September 29, 2015

guerra e jogo do amor segundo Polanski


A PELE DE VÊNUS
Direção - Roman Polanski
França  / Polônia
SINOPSE
A trama gira em torno de Vanda (Emmanuelle Seigner), atriz que se esforça para convencer o diretor Thomas (Mathieu Amalric) de que ela é a pessoa ideal para interpretar a protagonista de sua mais nova peça, inspirada em obra de Sacher Masoch.


No cartaz, o salto alto que estilhaça os óculos do saber e do poder masculinos. E desde a sequência inicial, com a invasão das três portas do teatro pelo olhar da câmera, estamos avisados: quem dará as cartas é a Mulher. E não uma qualquer.  Vanda (Emmanuelle Seigner, esposa de Polanski, em estado de graça ) a princípio parece uma mera atriz  de modos chulos, trajes e curvas provocantes e disposta a tudo, sobretudo o bom e velho teste do sofá, para conseguir o papel da dama de mesmo nome do texto do espetáculo. Uma "coincidência" misteriosa, a nos nomes, como tudo que cerca essa estranha e magnética visitante. Mas com o avanço do jogo entre os dois, madrugada adentro, Vanda se transmuta em outras, por exemplo a "psicanalista" com óculos intelectuais e sexy tailleur, capaz de "ver dentro" (insight)  a vidinha sexualmente insossa que seu paciente leva e que o leva. Ou ainda, evidentemente, a deusa evocada pelo título. 
Aliás, essa expressão "Pele de Vênus" nos fala não de uma, mas de "duas" peles de natureza  e escala diversa: a estola física, fetiche sexual particular, próprio do personagem masculino da peça, Severin. E a própria Vênus, como "pele", vestimenta arquetípica, coletiva, com que a cultura tenta ansiosamente traduzir , ordenar, se proteger (conforme se patriarcaliza) do anárquico Real do sexo e da fêmea no Simbólico-Imaginário do Amor e "da" Mulher, essa que não existe, segundo Lacan. Desponta aqui a dimensão propriamente mágica do "fetiche", isto é, do feitiço, que faz do sexo experiência limítrofe (como a pele da gente) entre os territórios do sagrado e do profano, do natural e do cultural. 
No debate entre Vanda e Thomas sobre o suposto "machismo" do texto de Sacher-Masoch, está implícita uma tensão mais ampla, histórico-cultural, entre as perspectivas pagã e judaico-cristã de reconhecimento do poder da mulher. O reconhecimento é o mesmo, mas com conotações emotivas e morais opostas: da exaltação extática nos mitos de Afrodite e das Bacantes ao temor sagrado a Eva, a Lilith, refletido na citação bíblica que abre o texto e fecha o filme: "E o Todo-Poderoso o feriu e o entregou às mãos de uma mulher". 
Como a câmera que invade as três portas do velho teatro parisiense,  Polanski parece nos convidar  a revisitar da ótica matriarcal, pretérita e futura (impressão minha ou é a hora e a vez de uma nova hegemonia das mulheres?) um poder "diretor" patriarcal suscetível, de tão desgastado que está, a ser facilmente seduzido e  "travestido", ou melhor, transvalorado, no sentido revolucionário que este termo tem na filosofia báquica de Nietzsche.
O "masoquismo" de Masoch, para além da tara erótica do gozar sofrendo, catalogada pelos psiquiatras, assume assim uma dimensão filosófica maior,  no contexto da "guerra dos sexos",  esse conflito que ainda precisamos aprender, como outras diferenças humanas, a tirar do registro opressivo e maniqueísta isso "versus" aquilo, senhor "versus" escravo. E, trazendo a questão masoquista para o nível dos afetos carnais, é preciso lembrar a lição freudiana de que as "perversões" em geral, entre as quais figura esta inspirada (involuntariamente)  no nome do escritor austríaco, não são por si sós uma "doença".
Nascemos perversos, por assim dizer: com múltiplas possibilidades, vias e regiões de energização erótica no contato com nosso próprio corpo, o da mãe, o dos outros. E, ao longo de uma vida sexualmente satisfatória, é provável que o coito genital papai-mamãe não elimine de nós o anseio por outras brincadeiras, desviadas dessa rota previsível, "pervertidas". Podem não envolver chicotadas físicas ou morais como ao gosto de certo tipo de "masoquistas", mas jamais estarão distantes, senão em grau, da natureza eminentemente sofredora, instável, de "queda" e ferida, que há no "fall in love", no "tomber amoureux".
Por que não a brincadeira gozosa com o próprio sofrer do amar, com a própria lógica do "versus", por que não carnavalizar, na cama, o que fora dela tantas vezes é causa de tragédia na história: nossa sanha de dominío, nossa vontade de poder?  
O sado-masoquismo, nessa ótica lúdica, se faria um modo de "transvalorar", transformar consentido e democrático jogo win-win, a  estranha ambivalência que faz do senhor escravo do escravo, e do escravo, senhor do senhor. Uma ambiguidade virtual que torna possível a  alternância concreta entre esses polos de domínio e submissão nos jogos de Vanda / Vênus e Thomas / Severin, numa noite em que o que é cênico e o que é real são também universos sem peles espessas que os separem. 
Entre jogo e guerra, o filme nunca "concilia" a tensão. Gravita, vai ficando cada vez mais evidente, na lógica trágica, de punição para a hybris do diretor que começara zombando, senão do feminino em geral, dessa geração atual, de atrizes incapazes de sustentar uma voz que não pareça de uma menina de dez anos que inalou gás hélio para buzinar nesse agudo ridículo banalidades como "tipo assim, foi irado".
Mas se toda tragédia é catarse, e fascina e ensina pelo excesso, que esta também - a ancestral guerra dos sexos-  tenha chegado a um tempo em que de fato nos ensine e nos melhore, nos prepare a "pactuar" com os deuses inferiores e superiores, com Afrodite pandêmia e celestial, carnal e platônica, não mais a venda da alma (notem o diálogo de Masoch com o "Fausto"), mas a reconquista da vida.