Sunday, September 06, 2015

o daimon materno de Barthes


Grata surpresa hoje topar com "Roland Barthes, Plural", na Casa das Rosas. A exposição retrata, com fotos e vídeos, parte da multifacetada trajetória do semiólogo e ensaísta que, com Lacan e Lévi-Strauss, foi um dos ícones da aventura estruturalista. Um dos argonautas, pois, da reviravolta intelectual que, em plena Paris, capital existencialista, deu fim à hegemonia sartriana. Angústia, solidão, liberdade, engajamento deixaram de ser os SIGNOS soberanos e quase exclusivos de definição da condição humana e do intelectual. É obra da própria voga estruturalista pensar cada vez mais a cultura e seus diversos subsistemas, entre eles a filosofia, em termos de signo.
 Cabe lembrar que a contribuição decisiva de Saussure, pai da linguística estrutural, ciência piloto de todos os estruturalistas, foi mostrar a autonomia da linguagem para forjar na mente dos homens uma coesão dada não pela vida, mas como efeito da união sempre arbitrária entre as palavras e as coisas,  atividade especificamente humana de invenção de sentido -mas não uma atividade "livre", no sentido do sujeito existencial sartriano, também socialmente moldado como as tantas outras versões do que é ser uma "Pessoa", fábulas díspares se migramos das tribos ribeirinhas da Amazônia às da Rive Gauche.  
Mas a exposição mostra o quanto Barthes jamais se deixou assimilar por alguma ortodoxia estruturalista fechada. A subjetividade, já não "existencial" como antes da era aberta por As Estruturas Elementares do Parentesco (1949), de Lévi-Strauss,  ressurgiria de outra maneira. Um movimento que marca também as constantes transformações do projeto psicanalítico de Lacan, que da euforia com os poderes da palavra, inclusive como via de cura analítica, passa cada vez mais a enfatizar o que no humano -e no subjetivo, singular, estranho a toda estrutura compartilhada- vai além de todo nome, portanto de toda ficção coletiva: o pulsional, o irracional, o chamado "real" (diferente da "realidade" visível, já ela encharcada e adulterada pelas duas outras dimensões da tríade lacaniana real / simbólico / imaginário). 
Numa das salas, o foco das fotos é a própria fotografia, o discurso fotográfico tal como pensado por Barthes em A Câmara Clara (1980), publicado poucas semanas antes do seu atropelamento fatal, em frente ao Collège de France. Ecoando a dor pela perda recente da mãe, o livro mostra que no PUNCTUM, isto é, o cerne da intensidade da imagem, aquilo que nela deflagra as emoções do espectador,  há a dimensão do nostálgico. A foto sempre fala daquilo que FOI, quer o ser retratado ainda exista ou não; o momento ali flagrado não volta mais, é uma realidade que nos toca "como os raios retardados de uma estrela". Entre as imagens mostradas, uma chocante é a da mulher que se atira para a morte, saltando de um prédio sob incêndio.  
Na outra sala no térreo, o destaque é para imagens do próprio Barthes, colhidas de sua curiosa autobiografia Roland Barthes por Roland Barthes, marcada por uma "sensualidade verbal", uma busca das virtudes sedutoras da palavra, do texto, pouco habituais para os cânones abstratos, cientificistas, do estruturalismo que então já é uma moda que balança. Vale a pena atentar para as citações que intermedeiam as imagens, por exemplo a apologia de um pluralismo que implodisse os estereótipos do discurso e do amor ("discurso amoroso", esse resíduo de resistência à tirania da linguagem vigente, é, como sabemos, tema de um dos mais belos livros de Barthes). 
Roland Barthes, plural: o mesmo pluralismo  que nos liberta para a escritura, para a "obra aberta" (U. Eco), reverbera na desmistificação das identidades sexuais rígidas. Outro aforismo de que gosto muito, e que lá está em destaque:  "O meu corpo só existe para mim mesmo sob duas formas correntes:  a enxaqueca e a sensualidade". 
Verdade binária, simples, do corpo: seu prazer ou sua dor. Verdade prévia a toda representação, e que cumpria resgatar, e com ela resgatar-nos  a nós mesmos, dos feitiços fascistas a que o homem é tragado quando se perde nas abstrações da linguagem e das "mitologias" das sociedades capitalistas (ou da comunista, tão algoz e vítima da lógica do poder quanto as nossas).  Não admira essa ênfase no sensorial, em se tratando de um "don Juan" do texto -como aprendi pouco tempo atrás de uma caríssima companheira linguista, ciente de minhas pesquisas, para curso na USP em novembro, que envolvem a filosofia da sedução.
No andar superior, trechos de entrevistas em vídeo, como que retratando três tempos diversos da vida e da obra de Barthes, nos fazem desfrutar do seu charme pessoal na reflexão sobre ideias como essa, de que é preciso resgatar a valorização do "prazer do texto", essa volúpia de transar com as palavras minimizada não só por certo ascetismo moralista de tipo religioso, mas também por uma esquerda com mania de julgar e usar as ideias apenas segundo sua utilidade para o "combate" político-social. 
A domesticação intelectual do prazer (e de sua forma radicalizada, o gozo) era efeito de um patriarcalismo que, clerical ou "militante" , não bastava para o espírito anarquista e pluralista de Barthes. Tampouco -e saí da mostra ainda mais impressionado com esse aspecto de sua vida, tão terna e intensamente retratado na foto acima reproduzida- para o seu daimon materno, que tanto o fazia viver, que tanto o empurrou para a depressão e a morte precoce, como que saltando do prédio em chamas, ainda que oficialmente não tenha se tratado de suicídio,  pouco depois da morte da mãe -esse materno, eu dizia, é o yin que nele exigia o resgate dos direitos "femininos" do corpo, da afetividade, da sensualidade  e do Sol, como também reclamados por outro Don Juan do pensamento, que Barthes tanto admirava, Albert Camus.