Wednesday, September 02, 2015

o despertar dos magos

Cena de Fellini 8 1/2

Depois de nosso destaque às "visitas" oníricas de Picasso a Fellini, vamos dar uma olhada agora em duas formulações gerais do cineasta italiano, uma ao sonho em si e outra à própria arte.
Pettigrew lhe pede para falar do "caderno de sonhos" que Fellini conservava há uns 30 anos. A entrevista aconteceu em Roma, em abril de 1992, um ano e pouco antes da morte de Fellini. Tal hábito do registro onírico remete, portanto, ao início dos anos 60,  mesmo momento em que, com La Dolce Vita, ele se afastava dos cânones do neorrealismo italiano ao incorporar ativamente a dimensão fantasística da mente humana como princípio narrativo. 
Ele explica que anotar os sonhos era um costume desde criança, retomado sob o impacto da análise com o dr. Ernst Berhard, psicanalista de formação psiquiátrica, fundador da psicologia analítica (nome da corrente junguiana) na Itália. Diz que tentar fixar seus sonhos em palavras ou imagens diurnas é tarefa "quase impossível pois a linguagem, seja no plano narrativo ou no plano figurativo, através da qual se expressa o sonho, é verdadeiramente impossível de transcrever. É um outro código de expressão que pertence a outra dimensão onde a ideia, a razão, o intelectual estão totalmente excluídos. A expressão é feita por símbolos. O símbolo torna-se, então, o modo de linguagem mais completo".
O entrevistador se anima então a ver nisto uma declaração de que a meta é "a procura do significado da vida" por este "mundo absoluto de símbolos".
Fellini concorda, mas desde logo relativiza, ou nuança essa dimensão absoluta: trata-se de ARTE. A mentira verdadeira, o "como se fosse", talvez mais íntegro que o "assim é", mas que ainda assim não elimina os véus, a opacidade, a ambiguidade. Assim como a Trindade cristã, na releitura alquímica de Jung, incorpora uma quarta pessoa obscura, de tipo mefistofélico, equilibrando Bem e Mal na imagem de Deus, assim também o símbolo artístico é alquimia de verdade e mentira ("Eu sou um grande mentiroso", convém recordar, é o título do livro em foco), de sentido e nonsense, de sim e não à vida como ela é:
"A arte é uma necessidade: uma interpretação da vida, que abandonada à própria sorte, nos aparecerá, provavelmente, desprovida de sentido, monstruosa. A arte é o contrário disso, é alguma coisa que nos reconforta, nos fala da vida com termos extremamente protetores. Ela nos faz refletir sobre a vida que por si só seria apenas um coração que bate, um estômago que digere, pulmões que respiram, olhos que se enchem de imagens desprovidas de sentido. Acredito que a arte é a melhor tentativa de induzir no homem a necessidade de ter um sentimento religioso que a arte, não importa qual arte, exprime".
Se a estética conduz à religião, no sentido transcendente, não confessional, a religião instituída vale a Fellini pelas emoções estéticas que sugere, mistério em pedra, sagrado concreto: "Não tenho hábito de ir à igreja, salvo se tenho uma crise moral muito importante, mas, quando entro numa igreja, é porque tenho curiosidade no cenário, nas telas, na arquitetura. É bastante sombrio no interior e acho isso irresistível".
Me parece que o elogio ao sonho, a revolta contra o sem-sentido da vida, a dimensão religiosa que a arte assume, seu próprio poder, em qualquer obra de Fellini, de abolir os limites da realidade prosaica, a dessacralização dissolvendo a religião abstrata, seu culto literal, em seus valores propriamente concretos,  estéticos, simbólicos, tudo isso, enfim, aponta para uma outra dimensão de espiritualidade: a do esoterismo gnóstico e mágico. Heresia dos primeiros tempos de cristianismo, e mesmo anterior (recua aos tempos míticos de Hermes Trimesgisto), o gnosticismo alia uma visão sombria da existência no mundo denso da matéria com uma fé, ou melhor, um conhecimento (gnosis), um pressentir místico e mágico do além. Além-Deus, inclusive: denuncia o Criador deste mundo, o Iahwé do Velho Testamento como um demiurgo tirânico cego, violento, injusto, inventor de fábulas de idolatria moral e metafísica que aprisionam a maioria dos mortais na caverna da opressão. Em contraponto, os gnósticos são sensíveis ao poder do mito, não da história da carochinha, mas das revelações anímicas diretas, por exemplo mediante sonhos, que com os recursos da ficção são traduzidas em imagens intuitivas, sem a pretensão explicativa dos cientistas, menos ainda a arrogância dogmática dos padres. Mais simpáticas aos magos, entre eles os mestres modernos do pensamento por imagem, como Fellini e como o bruxo de Kusnacht:
"É (...) com as modernas escolas de psicologia, mais particularmente a associada ao nome de C. G. Jung, que o mago encontra sua maior proximidade com o pensamento moderno. Pelo balanço curioso do pêndulo moderno, percebido por Heráclito, chamado enantiodromia [enantios, do grego: "contrário, oposto. Seria a capacidade de certas forças, reprimidas por suas antagonistas, virem a substituí-las em movimento pendular. Por exemplo, a condenação medieval ao culto do corpo sendo substituída por esse culto por meio da recuperação dos ideais estéticos do Renascimento", diz nota do tradutor], o que foi subjugado e obrigado à clandestinidade começa agora a aflorar para desalento dos ortodoxos" (E. W. Butler, A Magia e o Mago