Tuesday, September 22, 2015

o fantasma da noite





O subtítulo do "Nosferatu" (1979) de Werner Herzog -que teve pré-estreia ontem no Espaço Itaú- define seu vilão como "Phantom der Nacht". A tradução, como se fez no Brasil, como "vampiro da noite", peca por certa redundância (é quase como dizer o "peixe do mar") e, mais importante, por sonegar esse dado simbólico essencial: a natureza FANTASMÁTICA do vampiro.
Como mostram José Luiz Aidar e Márcia Maciel no livrinho "O Que É Vampiro?" (da saudosa coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense), estas "criaturas de terrível espectro" são "mortos que saem misteriosamente de suas sepulturas, à noite, para buscar sangue fresco dos vivos que dormem". E como podem abandonar o túmulo sem deixar vestígios? É que se trata de "um FANTASMA que sai do caixão sem deixar vestígios". Um fantasma que "sai do caixão como um vapor, por uma fenda qualquer, conseguindo depois condensar-se e corporificar-se para DAR A ILUSÃO DE UM SER VIVO. Um vampiro não age durante o dia talvez porque a luz dissolva seu corpo artificial ou impeça sua condensação".
Se depende de "uma fenda qualquer" para SAIR do leito da morte, esse fantasma depende também, vemos no filme de Herzog e em tantos de seus congêneres, de uma fenda, de outro tipo, para ENTRAR no corpo de sua vítima. A fenda da CUMPLICIDADE: os vampiros só têm acesso às vítimas quando estas deixam portas ou janelas abertas. 
Esse tipo de "descuido" camufla, isso sim, o DESEJO.  Assim como fantasma, em francês, é sinônimo de FANTASIA, obra por excelência de nossa libido. Não é preciso Hollywood convocar seus maiores galãs para que este personagem sinistro tenha em torno de si uma aura de fascínio. Mesmo o ancião careca, carcomido, abatido de "Nosferatu" (sinônimo romeno de vampiro, mas um termo de origem etimológica incerta, que alguns associam a "portador de enfermidade") mostra esse magnetismo, veja como a belíssima Lucy gravita em torno dele, é atraída por ele, de pressentimento em pressentimento, desde o pesadelo inicial, com as múmias e o voo lento do morcego gigante, interrompendo o sono no grito de pavor,  passando pelo caminhar sonambúlico, até a decisão de se "sacrificar", como mulher de coração puro, em nome da salvação universal. Excelente racionalização!
A sua "janela aberta" tem a ver com a revolta metafísica que, apesar  do crucifixo purificador no peito, a afasta das ilusões religiosas - no diálogo com Drácula, Lucy é de uma "lucidez" cortante ao dizer coisas como "os rios prosseguem sem nós", sendo a morte a soberana irrecusável que retrata a precariedade e perfeita dispensabilidade da vida humana sobre a Terra. 
Drácula, ex-cruzado devoto, se desiludiu com Deus quando perdeu a amada (que parece reconhecer em Lucy, séculos depois) numa conspiração abjeta em que os humanos de novo provaram do que são capazes. 
Seu castigo, como a dos heróis gregos precipitados no inferno eterno devido à "hybris" trágica de quererem contestar a vontade campeã olímpíca dos deuses, é não poder acabar de morrer,e de não mais desfrutar do amor de uma parceira, só do sangue de vítimas. 
A fenda do desejo de Lucy, permitindo que o fantasma da noite viesse perfurar seu macio pescoço imaculado,  tem a ver também com um casamento carinhoso, sim, mas já pálido de insatisfação sexual e falta de paixão  - vide as camas separadas, a conotação asséptica da brancura das vestes, a preocupação maternal com o marido que come o café da manhã rápido demais.
Jonathan, por sua vez, diz que ir ao encontro do exótico conde da Transilvânia, numa viagem a cavalo de um mês, o deixa feliz, ao afastá-lo da sua cidade de "canais que não vão a lugar nenhum", de águas que sempre retornam ao mesmo lugar.O desenlace de sua história mostra o quanto, desde o início, sua alma entediada era uma janela aberta para o Morcego da peste. 
"A aterradora aparição do Mal que nos Mistérios de Elêusis se dava em sua forma pura, e era verdadeiramente revelada, corresponde ao tempo negro de certas tragédias antigas que todo teatro verdadeiro deverá reencontrar.
Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso, mas porque, como a peste, ele é a revelação, a afirmação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam num indivíduo ou num povo todas as possibilidades perversas do espírito" (Antonin Artaud)
Perversão como o reverso da neurose, liberdade sonhada (fantasiada, fantasma) do neurótico, liberdade da criança perverso-polimorfa revelada por Freud, ele próprio orgulhoso de trazer, com Jung, a "peste" da psicanálise, a moderna libertadora do desejo,  para a América, num navio como o que transporta Nosferatu e seus ratos para a cidade de fantasmas diurnos da pacata vidinha normal.  
Pode-se alegar que o filme não nos causa o mesmo impacto bruto de terror  décadas depois. E que um personagem como o "discípulo" de Drácula, que envia Jonathan ao encontro do mestre, resvala no caricatural. Mas nada disso diminui a força do remake de Herzog para o clássico expressionista de Murnau (1922), ambos inspirados na bìblia da mitologia vampìrica moderna, o "Drácula" de Bram Stocker. 
A densa névoa, os lobos e ventos uivantes, os lindos planos,  -não sem o recurso do "time lapse"-, a música majestática, nos oferecem instantes de verdadeiro pensamento meditativo, no sentido pregado por Heidegger em seu ensaio sobre a serenidade. 
Do mestre-vampiro da Floresta Negra, aliás, nos lembramos também pelo fato de tanto o racionalismo científico quanto a fé tradicionalista parecerem, na visão de Herzog (como na ontologia  de Heidegger, na contramão da tecnocracia moderna e do projeto  "onto-teo-lógico" do Ocidente desde Platão), caminhos insuficientes para dar conta da existência humana, portanto também do mistério do Mal e do sinistro desejo que sentimos por ele, que o conterrâneo de Heidegger figura aqui, em cena inesquecível, na Peste Negra que devasta a cidade mas não impede os últimos sobreviventes, infectados todos, de cantar, dançar e cear junto à multidão dos ratos.