Tuesday, September 08, 2015

o renascimento de Renato

Cantor morto em 1996 "ressurge" em holograma durante show no Mané Garrincha em 30 de junho de 2013



Para quem fez da Legião Urbana parte da trilha sonora, trilha de vida, fio de Ariadne nos labirintos do Minotauro de ser jovem nos difíceis anos 80 e 90, eis uma excelente notícia. Não, não a caricata "volta" da banda, com não sei quem no lugar de Renato. Impossível. Mas o retorno do próprio Renato, alma da banda e de uma era que não voltam, como tudo o que há de irreversível na história.  Retorno mesmo, eterno, de quem nunca de fato se foi, é dos gênios, este agora no seu avatar de escritor. A Companhia das Letras começou com "Só por Hoje e Para Sempre" o projeto de lançar o que parece ser o vasto e ainda inédito legado literário de Renato Russo ao longo dos próximos anos.
A estreia é sensacional. O livro é uma espécie de diário de bordo de um dos períodos mais turbulentos da vida de Renato: sua internação, em abril de 1993, numa clínica de reabilitação no Rio de Janeiro, para tratar de seu vício em drogas e álcool e, mais que isso, poder mergulhar em si -o nome da clínica é "Vila Serena"- num projeto de se autoconhecer e se transformar no espírito dos AAs ("só por hoje", dia após dia, vencer o duro embate com o vício).Passou 29 dias lá.
É como ele disse na música "Os Anjos" (link acima): "Hoje não dá / Hoje não dá / Vou consertar a minha asa quebrada/ E descansar". O resultado foi a descida às cavernas de onde resgatou, qual Orfeu cantor, e nos legou verdadeiros metais preciosos de introspecção psicológica. Vejam como o livro começa, numa "carta" em que o Medo, a Sombra personificada ao estilo que Jung pregava no seu método de imaginação ativa, fala com o ego de Renato. Pus em destaque o trecho em que a Sombra "parabeniza" Renato pela vitória provisória, é verdade, mas consistente -porque lastreada no que Renato tinha de melhor e mais próprio, sua capacidade de trabalhar e de amar, sua criatividade, ilesa na Alma mesmo quando o Ego se perde em trilhas sombrias. Simultaneamente à entrevista de Fellini, irei trazendo mais detalhes desse jogo psicológico de um dos gênios de minha geração, que soube ser farol tão luminoso porque entendia também da escuridão de um tempo em que "nada é fácil de entender" (Pais e Filhos), em que "nas favelas e no senado é sujeira pra todo lado" (Que País é Esse?) mas no qual o divino insiste em vir bater na janela do teu quarto pra mostrar que o Caminho é Um Só (l).

"Olá Renato,
Estou lhe escrevendo para me despedir. Sei que não sou mais bem-vindo e consigo ver por quê. No começo nos divertíamos muito e você deixou que eu tomasse seu lugar, eu acreditei que seria para sempre. Tendo sua permissão, aproveitei para fazer tudo que eu mais queria: usar seu corpo, mente e espírito para viver, forçando-o a necessitar de mim, a querer cada vez mais se anular e deixar que eu o controlasse, o levando à dor, ao sofrimento, à solidão e à destruição total do seu espírito. Esse é o meu jogo, eu sou o seu lado ruim, a semente do mal e da doença que você carrega. Você não sabia disso e eu me aproveitei. Mesmo quando você queria me esquecer e pedir ajuda, eu me esforçava de todas as maneiras possíveis (e sou realmente muito ardiloso e sedutor, quase tanto quanto você) para ter de novo sua vida. Eu sou a Morte, eu sou o seu Eu maligno, eu sou o que você quis, por não ver mais a Luz e a Verdade. MAS VOCÊ FINALMENTE PROVOU SER MAIS FORTE - NUNCA ATINGI SEU TRABALHO, SUA CRIATIVIDADE OU SEU AMOR PELOS SEUS. No final de nosso relacionamento, tinha quase certeza de que eu seria o vencedor, mas não consegui conquistar sua Alma. Seu Poder Superior é muito forte e acho que você deve seguir o seu caminho. Estarei adormecido, e digo isso porque sei que disso você sabe. Você me controla agora  e não tenho mais espaço para respirar. Você sabe que eu vou tentar voltar. Mas reconheço minha derrota. Cuidado comigo,
Seu medo
XXX"