sábado, setembro 05, 2015

o tabu de Bono



A vida amorosa de Julia se definia pelo refrão do U2: "I still haven't found what i'm looking for". Ainda não encontrei o que procuro. Que sina era esta, que a levava para camas estranhas e a punha de pé no dia seguinte em frangalhos, se lamentando de que Bono de novo teve razão? A sina de Bono! O tabu de Bono!  E nem os roqueiros davam jeito nisso. Os roqueiros, os maconheiros, os fuzileiros, os cavalheiros. Faltava sempre alguma coisa.
Era um sábado à tarde, frio como o de hoje, frias como as camas estranhas das quais se levantava de manhã após o calor noturno efêmero de cada tentativa frustrada de amor. Ela caminhava pelas redondezas de casa, disse que ia comprar pão, mas precisava mesmo era de um cigarro, prazer recente que ainda não tinha coragem de contar para os pais hipocondríacos. No café do outro quarteirão, na varanda ainda permitida para os fumantes, tentou, ainda desajeitada, acender seu primeiro fogo do dia. Pedro viu e riu. Ela ficou meio encabulada, não gostava mais de parecer aprendiz em nada, era exigente ao extremo. Seus 22 anos não amaciaram ainda essa mania de ter razão, que trazia de sua adolescência mimada. Quis se levantar. Mas Pedro se antecipou. Sem pedir desculpas, que para ele, à exceção de momentos de agudo arrependimento moral, era um gesto de fraqueza. Ofereceu é firmeza no gesto das mãos ao acender o fogo para Julia. O rosto dela se iluminou. Suas esperanças se acenderam. A maldição de Bono parecia estar chegando ao fim. Pedro também percebeu uma luz diferente, embora  o isqueiro usado tenha sido o de sempre.
Não se disseram mais nada. Nem telefone, nem contato de facebook, nenhuma promessa ou conversa se acrescentou ao fogo entre os olhares. O reencontro estava marcado sem palavras. 
Julia, do alto dos 22, aumentados em glamour e charme pelo cigarro na mão esquerda, todavia parecia de volta aos 12, caminhava sem nem se importar com os fios do cabelo que, lisos, a irritavam sempre porque inexplicavelmente cacheados -era uma luta para alisar mais!. Cabelos agora mais revoltos que nunca, levemente despenteados pela flor de girassol colocada junto à faixinha violeta. Mas ela não se importava com nada mais.
 Caminhava, parecia que sem gravidade alguma a prendê-la,  mas louca pra olhar para trás, sem querer dar bandeira, que isso não era coisa pra uma mina forte como ela. Resistiu mas olhou, e  olhou mais de uma vez, antes que o dobrar da esquina lhe tomasse de vez a visão do café. E a visão de Pedro. Que ao longe se afastava, misterioso, com óculos escuros que, mistério dos mistérios, parecia... com o de Bono! Mas a música que a tocava, que tocava dentro no dial amoroso de Júlia agora era outra: era "One". O tabu das noites frias era coisa para aquele tipo de noites, não para o que acabara de acontecer, que não era bênção nem maldição, nem sim, nem não. Nem promessa, nem conversa. Apagou o cigarro perto de casa, para não assustar os pais hipocondríacos. Mas não perderia mais aquele cigarro, nem a lembrança das poucas baforadas quentes que ele lhe propiciou naquela tarde fria de sábado.