Saturday, September 05, 2015

o teatro da morte de Maria Alice Vergueiro


SINOPSE:
Why the Horse?

Uma peça que surge do pedido feito pela diretora artística do Grupo Pândega de Teatro, Maria Alice Vergueiro, aos seus integrantes: morrer em cena. Instigada pelo tema da morte e reconhecendo seu próprio e natural receio diante do fim, bem como a força artística que envolve a situação, a atriz convocou seus parceiros de grupo para a criação de um espetáculo em que pudesse ensaiar o seu momento.






A impactante música de Gilberto Gil (link acima) é uma das atrações da não menos impactante peça "Why the Horse?", em cartaz no Centro Cultural São Paulo apenas até este domingo. Vender o espetáculo pelo fato de ele envolver a representação da morte e velório da atriz em cena seria não fazer justiça à radicalidade do projeto. 
Uma referência quase inevitável aqui é o polonês Tadeusz Kantor, que em manifesto célebre defende um "teatro da morte" como estética de ruptura com as formas desgastadas da "vida" vigente no palco e fora dele, as formas corrompidas, conformistas,  "moribundas" que faziam do teatro um monumento de inutilidade pública. Não mais o "inútil" no bom sentido,  como o excedente que transborda -proeza de toda arte radical- as margens estreitas do "utilitário" numa sociedade mercantilizada. Inútil  porque embotado, adestrado, anexado a uma vida que não se questiona, que faz da arte mero recreio da penúria. 
A propósito de margens estreitas da mediocridade, a peça menciona Brecht: "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem". Do dramaturgo marxista evoca também a canção em homenagem a Rosa Luxemburgo, assassinada pelas forças paramilitares de direita que, antecipando Hitler, saíram as ruas após a derrota alemã na Primeira Guerra, tentando conter o tsunami comunista que se armava na esteira da revolta popular. 
Mas além da inegável dimensão política (vide a alusão jocosa à Pindamonhangaba de Alckmin), a peça tem uma dimensão de surrealidade (é explícita a influência do escritor, cineasta e "psicomago" chileno Alejandro Jodorowsky) e um absurdismo de cunho mais existencial. Assoma (literalmente ganha corpo) a angústia que se respira quando assistimos os paralíticos do teatro pós-apocalíptico de Beckett; ruína, entre trágica e grotesca, que o personagem de Luciano Chirolli transmite quando mimetiza, além da dor do luto pelo ente querido, o que li serem também tentativas impossíveis de expressão verbal minimamente coerente de uma vítima de AVC.A calamidade fisiológica de um sequelado vira signo da incomunicabilidade patética da criatura humana desamparada como o cadáver da criança  à beira do mar que correu mundo, como meme das "redes sociais", esta semana.
Mas é a própria pegada surreal e beckettiana, afora o espírito de crítica social à la Brecht, que dão a peça um humor negro capaz de flertar até com o mau gosto potencial e subvertê-lo. Mau gosto tem é o destino, parece querer dizer com espírito de revolta metafísica uma peça que termina, literalmente, convertida em velório. Ficamos a nos perguntar: sério que é assim que termina? A atriz não se levanta? Não é essa a esperança que fez nascerem todas as religiões de transcendência (digo, aquelas distintas do budismo e do taoísmo, por exemplo)? Uma dessas religiões, o espiritismo afro-brasileiro, é a origem da metáfora - o corpo como o "cavalo"  em que a alma vem ao mundo cumprir sua missão- na origem do título do espetáculo. Sua forma interrogativa (why the horse?)  dá a medida da perplexidade que as religiões poetizam tão bem quando nos ajudam a buscar, não quando nos impõem respostas definitivas, tanto mais ingênuas quanto mais pretendem dar conta do mistério artaudianamente cruel que é o teatro da vida - e da morte. 
A "indesejada das gentes", como diria Manuel Bandeira, não se torna glamourizada e assim mais desejada, mas é carnavalizada num rito de exorcismo psicomágico em que Maria Alice realiza simbólica e antecipadamente -e assim, dando sentido ao acontecer brutal do mero morrer- o que diz ser seu sonho, despedir-se da vida atuando, tal como uma Cacilda Becker. 
Vida longa para ti, Maria Alice. Vida longa e forte, com a lucidez e carisma intactos que você ainda mostra no palco, com a coragem de expor e sublimar em risos e em arte a angústia da finitude e a esperança de redenção para o humano e para a arte que pena aos relinchos da mediocridade do burro exposto ao lado do seu caixão.