Monday, September 07, 2015

sedução, mito e os fantasmas do amor


Falava, ontem, no "prazer do texto" tal como concebido por Barthes, e hoje queria partilhar de um exemplo de obra que sempre me propiciou orgasmos: a peça As Moscas de Sartre,  que tive a honra de traduzir e publicar em 2005. É um texto "companheiro de jornada", no jargão sartriano, ao longo de muitas fases e encruzilhadas por que passei. Mais recentemente, nosso amor voltou à tona, passando de novo da latência ao ato, por conta do curso sobre filosofia da sedução e poética do mito que preparo para novembro na USP. 
Amor, sedução, por onde ele começa e sem a qual vai embora,  e mito: três conceitos que cada vez mais se integram numa só paixão para mim, por razões ainda não totalmente claras - espero que estejam em tempo para comunicar aos meus alunos neste e nos próximos cursos que, após séculos hibernando em leitura e introspecção, me sinto motivado a dar.
Amor e mito estão juntos, inseparáveis, em As Moscas. Por hoje me deterei numa das cenas cruciais, quando Orestes decide que permanecerá em Argos para "roubar" e "matar", tal como um Raskolnikóv, anti-herói de Dostoiévski alçado a ícone dos niilistas revolucionários. Matar a própria mãe, Clitemnestra, e o amante dela, Egisto, tal como na lenda grega. E assim, novidade de Sartre, roubar os remorsos mórbidos do povo submetido à tirania de Egisto e de seus padres, metáfora da França posta pelos seus traidores internos (colaboracionistas de Hitler) de joelhos ante o Terceiro Reich. 
A decisão de Orestes passa pela tomada de consciência de que, em se tratando da felicidade e da justiça, nada "cairá do céu": ante o vale de lágrimas em que aquele povo chafurdava, só podemos desculpar Deus porque Ele não existe. Se existisse, seria como aparece na paródia da peça: um cúmplice a mais do tirano. Deus é projeção de nossa vontade de não sermos livres, porque a liberdade, além de dar muito trabalho, é só um jeito mais cívico de falar em nosso absurdo, nosso desamparo e vazio. Le Bien é Leur Bien: "O" Bem é o Bem "deles", dos outros, das forças dominantes capazes de impor seus interesses disfarçados como valores universais. 
Isso tudo fará de Orestes uma espécie de Cristo ateu, expiador de nossos pecados, libertador. Daí o retorno do mito. Mas nessa empreitada ele é movido não só por ideais coletivos, mas por um afeto todo particular, quase incestuoso, pela irmã Electra. É para corresponder ao Orestes vingador que ela tinha em mente que ele decide ficar e deixar de ser o jovenzinho inocente, olhos doces, intelectualizado demais para agir, jeito meio afeminado (mas não afetado como seu Pedagogo e como Olavo de Carvalho, outsider em nossos circuitos acadêmicos, diz ser a regra para o intelectual típico na Banânia).
No trecho que proponho à vossa leitura, Orestes desabafa, com Electra, sobre o vazio de alma que quer preencher, enfim, AGINDO (como vimos ser o caso do professor de filosofia do filme de Woody Allen, "Homem Irracional"). Ninguém "é", se torna, e Orestes se torna Orestes, aceita encarnar o papel que o mito lhe prescreve, por uma decisão de amor, de sedutor seduzido por Electra, espelho em que viu com horror uma falta em si que não podia mais tolerar, se quisesse estar à altura daquela que foi "causa de seu desejo", como diz Lacan do objeto a.
"É minha única chance. Electra, não podes me recusar essa chance. Compreenda-me: quero ser um homem de algum lugar, um homem entre homens. Olha: um escravo que passa, cansado e resmungando, e carregando seu pesado fardo, com os joelhos trêmulos e olhando para seus pés, para evitar cair, ele está dentro de sua cidade, como uma folha na folhagem, como a árvore na floresta (...) eu quero ser esse escravo, Electra, quero estender a cidade em volta de mim e me enrolar nela como se fosse um manto. Eu não vou embora". Isso pouco depois de ter afirmado: "Tu, eu teria podido te amar. Teria podido... mas quê? para amar, para odiar, é preciso se dar. (...) Quem sou eu, e o que tenho para dar? Mal existo: de todos os fantasmas da cidade [os parentes mortos, que todo ano voltavam, numa festa macabra, para martirizar os vivos e se vingar pelas desfeitas sofridas quando ainda existiam na Terra], nenhum é mais fantasma que eu. Conheci fantasmas do amor, hesitantes e dispersos como vapores; mas ignoro as densas paixões dos viventes".
Leiam essa passagem ao som dos "fantasmi d' amore" de que Renato Russo fala nessa linda canção:





I VENTI DEL CUORE
-Renato Russo-

Campi di lavanda e l'auto che va
Dietro quei cipressi la strada piegherà
E passata la collina chissà,
Se la casa come un tempo mi apparirà

Ed ogni volta che ti penso eri là
Quel sorriso in tasca largo ed incredulo
Quanti bimbi e cani avevi intorno
E che chiasso di colori al tramonto

E I ricordi si confondono, là dove non vorrei
Le memorie poi s'increspano e non so più chi sei
E I venti del cuore soffiano e gli angeli por ci abbandonano
Con la fame di volti e di parole
Seguendo fantasmi d'amore, I nostri fantasmi d'amore

E mi sembrava quasi un'eternità
Che non salivo scalzo sopra quel glicine
In penombra ti guardavo dormire nei capelli tutti I nidi d'aprile

E le immagini si perdono, fermarle non potrei
E le pagine non svelano, chi eri e chi ora sei
E I venti del cuore soffiano e gli angeli poi ci abbandonano
Con la voglia di voci e di persone
Seguendo fantasmi d'amore, I nostri fantasmi d'amore
Seguiamo fantasmi d'amore, I nostri fantasmi d'amore

Quando I venti del cuore soffiano
Seguiamo fantasmi d'amore, I nostri fantasmi d'amore


Campos de lavanda e o carro que vai
atrás aqueles ciprestes a estrada esconderá
e passará a colina quem sabe
a casa como o tempo aparecerá

E cada vez que penso em você era lá
aquele sorriso grande e incrível
quantas crianças e cães tinhas em volta
e que lindas cores ao pôr do sol

...e as lembranças se confundem, lá onde não queria
as memórias se encrespando e não sei mais quem sou
E os ventos do coração assopram e os anjos nos abandonam
com a fome de volta e de palavras
seguindo os fantasmas do amor, os nossos fantasmas do amor

E me parecia quase uma eternidade
que não subia descalço sobre aquela glicínia
na penumbra eu ficava olhando você dormir nos cabelos todos os ninhos de abril

...em imagens se perdem, parar não poderia
e as páginas não revelam, quem eras e quem és agora
E os ventos do coração assopram e os anjos nos abandonam
com a vontade de vozes e de pessoas
seguindo fantasmas do amor, os nossos fantasmas do amor
seguimos fantasmas do amor, os nossos fantasmas do amor

Quando os ventos do coração assopram
seguimos fantasmas do amor, os nossos fantasmas do amor.