Friday, September 04, 2015

Regina da Empatia, ardendo para inflamar



QUE HORAS ELA VOLTA?
(Brasil, 2015)
Direção: Anna Muylaert
A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino (Michel Joelsas) vai prestar vestibular, Jéssica (Camila Márdila) lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Eugênio Kusnet, em Ator e Método -deliciosa síntese dos preceitos de Stanislávski para a construção da personagem teatral-. define como meta do ator alcançar com seu papel uma "comunicação essencialmente emocional". Apresenta esse conceito durante diálogo com I. M. Smoktunovski, do elenco do Grande Teatro Dramático de Leningrado. O ator russo, que realizou memorável trabalho com "O Idiota", de Dostoiévski, cita a esse respeito o poeta Iessenin:  "Se você não estiver ardendo, não poderá inflamar ninguém". Mas pondera:  "a comunicação em teatro não deve ser apenas emocional. Em teatro deve estar sempre presente uma ideia apaixonada": não o transbordamento afetivo tresloucado e apelativo, mas a fina integração das dimensões do pensamento e do sentimento.
Aqui formulado como debate, tal dinâmica é intuitiva e inevitável para todo grande ator na busca do seu santo graal, a "verdade cênica", a máxima encarnação de corpo e mente do seu papel, sob as condições da famosa dualidade do ator: viver um outro ser humano sem deixar de ser em momento algum, no palco, consciente de quem se é fora dele. 
Os preceitos da criatividade humana têm, entre suas características marcantes, o fato de valerem surpreendentemente bem nos mais diversos campos de atividade. Podem aparecer com mais clareza aqui, mas são plenamente traduzíveis acolá. Um bom ator aprende muito sobre seu ofício ao saber dos princípios, e até das técnicas, do trabalho de um pintor, e assim por diante. Os saberes dialogam entre si, num labirinto de vasos comunicantes em que o sangue da genialidade passeia alimentando e trocando energia dos e com todos os órgãos. 
Se até com as regras de magia do trabalho dos físicos e biólogos é possível aprender sobre o ofício teatral, e vice-versa, que diremos de um show de atuação como o de Regina Casé no filme "Que Horas Ela Volta?". Ele é a demonstração integral da validade, para além dos limites da ribalta teatral,  da meta da "comunicação essencialmente emocional" de que fala Kusnet. 
Essencialmente, vimos, não é exclusivamente. Regina não cai nunca num emocionalismo demagógico. O filme inteiro tampouco. Muylaert reserva, por exemplo, a música para um momento específico, e de fato bastante emocional - a antológica descida de Val à "fontana di trevi" particular que foi para ela,  ecoando Anita Eckberg em "La Dolce Vita" de Fellini, a piscina semi-esvaziada de "dona" Bárbara. A cena é comovente, mas nem mesmo ela nos chantageia nem empurra a uma catarse emocional que anestesiasse a dimensão crítica, brechtiana, que também Kusnet valoriza muito em sua releitura de Stanislávski.
Ressaltar essa sobriedade é importante porque o filme, entre seus muitos méritos, soube escapar das armadilhas do politicamente correto, hoje tão fáceis. Soube lançar um olhar crítico sobre as injustiças sociais sem o mau humor xiita de quem, no fundo, pouco convive com os injustiçados de que faz uso em seus discursos de esquerdismo caviar auto-elogioso: "que phodástico que sou, vejam:, famoso, rico, vida ganha, e ainda por cima preocupado com os fodidos". O phodástico vampirizando os fodidos. A falsidade parece que chama por mais e mais violência nos modos de se comportar e dialogar com os outros grupos e interesses de nossa sociedade cindida. Afinal, quanto mais violentos, mais damos ibope a nossa mensagem, e mais limpamos dela as digitais de nossa falta de empatia efetiva pelos pobres, que não falam por nós, nem conosco, são pretextos de nossa vaidade.
Regina, que nunca foi pobre, fala com eles e fala por eles. Não só neste filme. Toda sua trajetória está aí pra mostrar. O filme coroa. Faz dela de fato uma regina (rainha) - não rainha dos pobres, mas rainha de empatia, capacidade de se pôr no lugar do outro. Não reproduzindo clichês sobre o que é "toda e qualquer" empregada doméstica vinda do Recife e "quase da família" numa mansão do Morumbi. Mas se perguntando, na esteira de Stanislávski, "como EU seria se fosse essa pessoa?". E que resultados esplêndidos. Que naturalidade! Que que é, por exemplo, aquela sua partitura de gestos, entre a sala e a cozinha, na cena em que leva para sua filha cobiçada pelo pai o "sorvete do Fabinho"?
Quanto à sociologia da brasilidade no filme, sabe ser crítica à nossa atávica "casa grande & senzala", em que o apartheid social sempre foi adocicado por uma afetividade tão sui generis quanto essa brasileiríssima figura da empregado doméstica, que é e não é "da casa",  um quase parente enquanto conveniente aos interesses (inclusive carnais) do patrão.
Mas na figura de Jéssica (Camila Márdila), já comparada, com razão, à figura que vem desestabilizar, pela lufada do desejo, a ordem das relações domésticas em "Teorema" de Pasolini, Muylaert aponta para uma tendência nova. Para horror dos reacionários, o pobre ganha uma nova visibilidade e autonomia, Não se trata aqui da "auto-estima" artificialmente inflada por programas popularescos e outras formas de cooptação consumista da "nova classe C". A mudança é, ou, salvo regressões, poderá ser mais profunda que isso. É uma reviravolta de valores nascida dos inegáveis ganhos socioeconômicos propiciados pelo controle da inflação e aumento de gastos sociais nos anos FHC e Lula. Mas não se trata de favores desse ou daquele governante, nem de falácias marqueteiras como a "pátria educadora": é a Jéssica. É fulano e beltrano, é,  como já testemunhei várias vezes, nas andanças e conversas no meu circuito urbano habitual,  o padeiro, é a moça do caixa do restaurante. São os filhos, antes confinados à senzala dos pais, que se apercebem do valor do trabalho, e sobretudo da educação (Jéssica está em São Paulo para prestar vestibular para a FAU) como motor de ascensão, trazendo consigo também os pais, , como Val.se vê levada por Jéssica É o sentimento (bem essa palavra) da cidadania, pedindo passagem e exigindo o que lhe é de direito, respeito e igualdade de oportunidades.
Melhor filme brasileiro em muito tempo, este "Que Horas Ela Volta?" já faz carreira de sucesso no exterior. Que nos apresente também a nós, brasileiros, o rosto deste novo Brasil, mais complexo, dinâmico e maior que os ressentimentos de direita e oportunismos de esquerda.