sábado, setembro 26, 2015

Para a Folha- Nazismo de Heidegger


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
sábado, 26 de setembro de 2015
textos de Caio Liudvik

HEIDEGGER – A INTRODUÇÃO DO NAZISMO NA FILOSOFIA
Para o enfastiado professor de filosofia de “Homem Irracional” – a aula paródica de existencialismo dostoiévskiano de Woody Allen, em cartaz em SP-, o tema “Heidegger e o fascismo”  soava batido. “Como se o mundo precisasse de mais um livro sobre isso”,  dizia, racionalizando a estagnação de sua própria pesquisa. Se por acaso tivesse lido esse belo livro de Emmanuel Faye, veria que não, o tema não está nada batido. De quebra, reencontraria uma defesa da dimensão ética da filosofia que poderia tê-lo demovido do crime que estava prestes a cometer. 
Num dos mais duros e fundamentados ataques a Heidegger, Faye lhe nega o direito sequer a ser chamado de filósofo, mostrando que vida e obra tinham, para o pensador da Floresta Negra, uma unidade, em torno do signo místico-racial da suástica, muito mais profunda do que os discípulos depois tentaram alegar. 
Não se tratou de meros “dez curtos meses de febre” (Hannah Arendt), de um erro pessoal e passageiro, que não chegaria a manchar as grandiosas especulações sobre o ser, o tempo, a técnica, a existência. 
Para Faye, além disso, o perigo de Heidegger é atualíssimo: até pelos véus esotéricos em que depois da guerra recobriu uma pregação que seguiu sendo nazi, Heidegger paira entre nós como um profeta potencial de um  “quarto Reich”, contra o qual o filósofo francês se mobiliza com paixão e muitos documentos inéditos ou pouco conhecidos.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O MAL E O SOFRIMENTO
Desde os tempos do Livro de Jó, passando pelo fatídico terremoto de Lisboa (marco da reflexão moderna sobre o Mal) até o Holocausto,  a história não cessa de pôr ao homem o dilema: por que tamanho horror e indiferença da  natureza e dos deuses em relação a nossos anseios de segurança, justiça e felicidade? Em paralelo com as reflexões desesperadas de um Sartre e um Camus, de mais repercussão pública no século 20 filosófico francês, é preciso conhecermos melhor a abordagem de Louis Lavelle. Em sintonia com as perplexidades existenciais de nossa era, ele nos conecta com uma dimensão ética e espiritual que parecia perdida: o Mal como purificação que convoca não ao conformismo, mas à evolução criadora da consciência,  que na provação dá testemunho da autonomia e precedência dos bens espirituais ante as contingências externas.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO



O CUBISMO
Marco inaugural do movimento cubista, o quadro “Les Demoiselles d’ Avignon”,  de Pablo Picasso, sugeriu a Apollinaire a seguinte reação, sintomática do caráter revolucionário da obra e do movimento: “Não é possível levar o cadáver do pai para todo lugar”. Este livro de Serge Fauchereau, com mais de 200 reproduções coloridas, é um guia precioso para, mais de um século depois, se tomar pulso da radicalidade e das consequências (muitas delas atuais) do cubismo nas mais diversas artes e no seu âmago, que o crítico define com uma metáfora religiosa: uma espécie de novo “jansenismo”   que, tendo em Picasso o seu Pascal, calcava seu credo estético em elementos como a austeridade antirromântica, a busca de um equilíbrio estático na contramão da ênfase impressionista no fugidio e transitório, a quebra das convenções sobre o belo, a geometrização alheia à verossimilhança.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO   

OS EIXOS DA LINGUAGEM
Há décadas Luiz Costa Lima se dedica a pensar o estatuto da literatura a partir de conceitos como o de “mímesis” (a chamada imitação da vida pela arte, termo chave que remonta a Aristóteles) e de controle do imaginário na cultura ocidental. O chamado “veto à ficção” tem entre suas estratégias a desvalorização do poder cognitivo de toda forma de linguagem que não se subordine ao conceito racional, empiricamente testável, próprio da mentalidade científica. Mas o conceito, mostra em seu novo livro, não é o topo da pirâmide das formas discursivas do ser humano. É, isso sim, um dos dois grandes “eixos da linguagem” de que trata o título. O outro é o eixo metafórico, que o professor emérito da PUC-RJ investiga em profundidade, dialogando com Heidegger, Husserl e, em especial, Hans Blumenberg, do qual traduz, em anexo, importante texto sobre as raízes da racionalidade moderna.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO