Saturday, September 26, 2015

Robert de Niro e o prazer de Epicuro


Me deliciando aqui com as "Sentenças Vaticanas" de Epicuro, na coleção "Grandes Nomes do Pensamento", da Folha. Quero trazer para este Diário de Bordo alguns recortes, a começar dos poucos aforismos que tive tempo de desfrutar ontem, pouco antes de assistir a "Um Senhor Estagiário", com a deusa Anne Hathaway e Robert de Niro. 
"Aquele que é plenamente feliz e imortal não tem preocupações, nem perturba os outros; não é afetado pela cólera ou pelo favor, pois tudo isso é próprio à fraqueza".
O que Epicuro quer dizer por "felicidade" e "imortalidade"? Veremos melhor. Mas a segunda sentença sugere que, mais que uma "abolição" da morte, ao estilo prometido pelas religiões, o homem de sabedoria suspende a ANGÚSTIA da morte. Esse ao menos parece ser o convite dessas palavras. Convite propriamente ético, isto, é, voltado para a educação da vontade, termo que, literalmente, no vocabulário de Epicuro, tem a conotação de "o que é relativo a nós".
"A morte nada é para nós. Com efeito, aquilo que está decomposto é insensível e a insensibilidade é o nada para nós".
Enquanto somos, a morte não é; quando a morte "for", já nada seremos. Essa dupla distância, desigualdade entre a vida sensível e a morte, como que nos dá o direito a uma "imortalidade", verdade que provisória, mas eterna enquanto durar, enquanto durarmos, e dura o bastante, nem que por um instante, para que não precisemos desperdiçar o poder de felicidade aqui e agora em nome de conjecturas vagas sobre o depois e alhures.  
Na sentença 10, Epicuro nos diz: "Lembra-te  de que, sendo mortal por natureza e dispondo de tempo limitado, tu te elevaste pelos raciocínios sobre a natureza até o ilimitado e o eterno e contemplaste a teus pés 'o que é, o que será e o que já foi'". 
Aqui a sabedoria parece nos permitir uma "imortalidade" não apenas psicológica, pela evitação do pensamento de que morreremos. O sábio efetivamente entra em contato com a "natureza"  de uma tal forma que transcende a angústia e o apego sugeridos pelo pensamento de que somos finitos. Isso não pela entrega descabelada aos "prazeres" anestesiantes - uma acusação comum de se ouvir contra os epicuristas, como uns hedonistas irresponsáveis, adeptos diabólicos da "trindade" do beber, comer e foder o mais que puder. 
"Não é possível viver prazerosamente sem viver com prudência, retidão e justiça". Epicuro não considera o prazer como bem supremo, isto é, como objetivo que justifica todo e qualquer meio. O bem supremo não é "o prazer", mas é prazeroso: a sabedoria, prudente, reta e justa, portanto com um senso sutil de medida (base de sua liberdade) e chave, ela sim, da felicidade integral, em todas as dimensões da vida, não excludente como as dicotomias cristãs de prazer e dever nos acostumariam a acreditar. 

E "Um Senhor Estagiário", que coroou a noite epicurista que os deuses me propiciaram ontem? O filme mereceria comentário à parte. Mas cabe uma ou duas palavras no espírito de Epicuro, que o revela ainda mais divertido e terno do que pela història e o carisma da dupla principal. 
Vi nas redes sociais gente jovem ridicularizar De Niro por topar um papel como este, de um viúvo, avô e aposentado de 70 anos que, para fugir do vazio, do lugar na quina de escanteio que a sociedade lhe reserva no gramado da vida, resolve voltar a trabalhar. "Você viu? Que decadência!", disseram. Concordo. Decadência desses fulanos, jovens só de pele,  sentados na janela da varanda (em que os facebooks da vida muitas vezes se degradam) e tricotando preconceitos tão torpes, eu diria tão rasos, se não fossem de uma ignorância profunda, abissal, sobre o que, de fato, é o nobre e o ridículo, para uma alma filosoficamente sadia. Dona de si, de seus parâmetros, de sua liberdade de escolha de onde està a sabedoria prazerosa. De Niro, e seu personagem, nos dão uma linda lição de prazer epicurista, no sentido genuíno do termo: sabedoria impulsionada pelo desejo (quem não se motivaria em ser estagiário tão dedicado, depois de saber que teria por chefe Anne Hathaway?). 
Sabedoria que vem ensinar passos de tai-chi para nossa obsessão workaholic e jeitos mais elegantes de se pedir desculpas pela pisada de bola com uma mulher. Sabedoria que oferece hospitalidade e é "coach"  (cocheira) do bom conselho nas travessias e encruzilhadas. Sabedoria que chora, discretamente, o estar na cama e não apetecer a jovem ao lado a nada mais do que um convite a conversar e ver TV. Sabedoria que sorri e faz sorrir, de dentro pra fora ("Intern" é o cargo do personagem de De Niro e o título do filme) ao ensinar que, apesar das perdas e dissabores, a vida merece o melhor de nós, em qualquer idade, na "melhor idade", a única com que contamos, o agora que passa.