Wednesday, September 16, 2015

samba de roda com Tolstói e Vinícius


No Calendário da Sabedoria de Leon Tolstói (tradução da saudosa Barbara Heliodora), o 16 de setembro está investido de palavras especialmente inspiradoras, para quem, como nós, e como Jó, não se conforma com uma fé por "ouvir falar".  Para quem não abre mão das inquietudes da existência e das reservas céticas que uma racionalidade sadia nos propicia, na aventura da busca da verdade em meio a tantos falsos caminhos que o mundo nos oferece. 
"As dúvidas não destroem a verdade; elas a fortalecem".
Duvidar não é pecado! É uma dádiva que dota o pensamento da capacidade de se mover, com liberdade e inteligência, entre as incertezas e as dificuldades de um mundo que não nos deixou no berçário o gabarito quando cá chegamos e iniciamos a infinita caminhada de ampliação da consciência moral, intelectual, estética e amorosa. Sem  levar em conta sua precariedade, o homem não pode ser um amigo da sabedoria (etimologia do "filósofo"), ele se pretende um marido dela. Marido possessivo, paranoico, brucutu, impotente na cama, e que com todos esses requisitos de violência e fraqueza certamente será chifrado por Sofia, essa rebelde indomável. 
Ao contrário da fraqueza do arrogante, o sábio é forte na humildade capaz de não levar demasiado a sério quaisquer certezas, por mais que originalmente inspiradas pelo toque autêntico da Verdade que nos vela. 
"O sábio tem dúvidas até em seus melhores momentos. A verdade real é sempre acompanhada por hesitações. Se eu não pudesse hesitar, não poderia crer", diz Henry David Thoreau, citado aqui pelo autor de Guerra e Paz.
O mestre russo, renunciando às frescuras da elite social e intelectual da qual era parte, como conde e escritor consagrado, "foi para a galera". Afastou-se da Igreja ortodoxa, na qual via um espelho das distorções mundanas do homem corrompido de seu tempo, e aproximou cristianismo e anarquismo em bases tão poderosas, mas não fechadas a algum dogmatismo monolítico, que pôde inspirar poéticas políticas diversas como a rebelião pacifista de Gandhi e  os revolucionários russos de 1917. Neste último caso, evidentemente, seu ideário espiritual se viu ostensivamente adulterado pela maldição, tão bem investigada por Camus em O Homem Revoltado, que pesa sobre as revoluções modernas: perderem a raiz ética libertária e restaurarem, em versão pior, a injustiça contra a qual a revolta tinha razão de ser. A espiritualidade da revolta, isto é, sua sintonia profunda com "o fenômeno originário da vida", segundo o filósofo e sociólogo Georg Simmel: ir além de si mesmo. O protesto por uma vida melhor bicando sua insatisfação  contra a opressão não só nos dias da fúria, mas com a leveza incansável com que, chegada a hora de nascer,  o pintinho bica o ovo e Deus nos chama no íntimo da consciência à decisão de agir, de descer ao mundo material para transformá-lo e transformar-nos.
Equilíbrio matéria e espírito que a dúvida ameaça romper, se nos empurra para o vórtex da descrença na "dimensão espiritual da vida". Mas mesmo esses momentos de queda, diz Tolstói, devem ser bem-vindos como eventos do "calendário da sabedoria", a nossa, em construção. Como marcos do desenvolvimento de uma fé cada vez mais madura, fecunda e prática, capaz de fazer a diferença na nossa vida e dos outros e do mundo. 
Onde há dúvida, pode sim haver fé. E onde há fé, pode ainda haver medo, mas ele tende a tomar contornos menores, os de um espectador no teatro (a metáfora é de Tolstói) que se deixou assustar pela violência, a dor, a morte, em suma, os impactos do Mal, esquecendo que tudo não passava de jogo de cena, e que um Bem mais essencial, impalpável e generoso esteve sempre no comando, graça até na des-graça, vida que tem sempre razão como diz música de Vinícius que sabiamente diz sei lá e acaba com "sei não".