Sunday, September 20, 2015

Sartre, Renato e os biscoitos proibidos


No trecho da entrevista à MTV acima, Renato Russo fala muita coisa interessante de se cruzar com os testemunhos escritos de seu "Só Por Hoje e Para Sempre", diário de bordo do período de internação, em 1993, para se livrar da dependência química.
A entrevista é daquela época. É o que se infere das alusões ao líder do Nirvana. Renato prevê, infelizmente com razão, o fim iminente de Kurt ("esse vai embora rapidinho"), devorado por duas coisas que o próprio Renato sabia e sofrera por experiência própria,  os excessos da imprudência e o circo midiático que se cria em torno de figuras de tamanho carisma, esperando com sofreguidão pelo próximo escândalo, vexame e pela consumação da ruína, para Sua maior glória, como diriam os antigos católicos: glória porém não às alturas, mas às profundezas infernais do Moloch da Idade Mídia, que faz e desfaz seus fantoches efêmeros para que a idolatria persista sempre igual e nova.
Sobre si mesmo, e sobre a condição do viciado em geral, os insights são de suma importância. Renato se revela num nível de autoconsciência e maturidade impressionantes, que prenunciavam uma vida muito mais estável e duradoura, não fosse o HIV . Ele iria embora quase tão rápido quanto Kurt, para maior glória do inferno de ausência de ídolos de verdade, em todas as áreas, que hoje nos acomete em plena sociedade da idolatria difusa. 
No livro, ele menciona leituras que buscava deprimido e PARA reforçarem a depressão. Que lhes dessem razão sobre o quanto o mundo é uma merda mesmo, sem solução, a não ser encher a cara, comer da "jarrinha dos biscoitos proibidos"  que nos prometem o paraíso artificial, como diria Baudelaire - ou, citando autores que Renato cita nesse contexto de reforços intencionais (lidos nesse viés, necessariamente parcial)  da sua depressão: Rimbaud, Nietzsche, Kierkegaard, pai do existencialismo.

Sartre e Simone de Beauvoir

Falando em existencialismo, Sartre dá o exemplo de um jovem francês indeciso entre se juntar à Resistência antinazista ou ficar em casa cuidando da mãe. Um dilema entre duas alternativas, dois valores, mutuamente excludentes, como acontece tantas vezes nas decisões mais cruciais da vida. Nessas horas, mostra ele, a escolha começa a ser moldada já ao escolhermos esta ou aquela pessoa para nos aconselhar. Dava para saber mais ou menos o que se escutaria se o conselho viesse do padre de direita, a favor da resignação nacional, ou do amigo militante de esquerda. 

Assim também os livros, músicas, alimentos espirituais ou psicológicos que assumimos como  dieta cotidiana. Renato escolhia textos que fossem pretextos para se confinar ainda mais na depressão, da qual se utilizava "para escrever e me isolar". Verdade que a droga pode representar, por um tempo, certo refúgio e  reserva de energia para resistir e ir mais fundo do que os medianos. Verdade que pessoas de uma sensibilidade acima do usual são mais propensas a se deixar arrastar pela angústia, num mundo que não está fácil para ninguém. Verdade, também, que a angústia pode ser inspiradora, criativamente útil, ela é um afeto que não mente, diria Lacan.
 Mentimos nós, e nos empobrecemos, ao fazer dela o ÚNICO afeto, como se não houvesse também motivos para alegria, esperança, compaixão construtiva (não só a que "sofre junto", mas a que, no sentir e agir em comum, cura se curando e, se curando, cura).
Boa e má, a vida é ambivalente. E é, em grande medida, o que fazemos dela, diz  na entrevista, ecoando outro importante preceito de Sartre.
"Quando estou feliz, vejo a felicidade nos outros. Quando sinto compaixão, vejo o mesmo sentimento nas outras pessoas. Quando estou cheio de energia e esperança, vejo muitas oportunidades à minha volta. Mas quando estou com raiva, vejo uma irritação despropositada. Quando estou deprimido, percebo a tristeza nos olhos de quem me rodeia. Quando estrou desanimado, vejo o mundo como um lugar chato e sem atrativos. Eu vejo o que sou!" (Steve Chandler).
Vemos o mundo não como ele é, mas como somos, ou melhor, como estamos, afinal mais que um ego petrificado e monolítico, "sou 300, 350" (Mário de Andrade), multiplicidade de tendências, jogo com novos jogadores e novas regras possíveis a cada instante. A impermanência de que falam os budistas, o vazio do Para-si sartriano, a perpétua disponibilidade a  ser segundo o nosso fazer, ao invés de meramente fazer em resposta sempre-igual a um ser pronto e acabado, que "nasceu assim", como a Gabriela do Jorge Amado.
E, noutro momento sartriano da entrevista, Renato completa: não faria nada daquilo de novo, mas não me arrependo de nada, como Edith Piaf e como todos nós que sabemos o quão o remorso pode ser pre-texto, como outros textos mentais, para não sair daquele mesmo lugar de miséria, de tristeza, de esterilidade. Melhor sim encarar tudo o que passamos, até de pior, como o jeito possível de crescer. Dando graças sempre ao Poder Superior, como o poeta o faz aqui e como fazemos nos turning points em que sentimos a presença desse Poder, seja como Alguém fora de nós, seja como budeidade ou magia da vida que nos faz e desfaz e refaz e nos ama, ao contrário do Moloch predador da Idade Mídia.