Saturday, September 12, 2015

só por hoje




Musicalmente não está entre as melhores coisas que Renato fez. Mas a canção "Só Por Hoje" é um testemunho importante do período que passou na clínica Vila Serena, em luta contra a dependência química, em 1993. O livro que estamos lendo tem por título, lembremos,  "Só Por Hoje e Para Sempre".
O livreto oficial dos Narcóticos Anônimos (NA) diz assim: "Diga para você mesmo: SÓ POR HOJE meus pensamentos estarão concentrados na minha recuperação, em viver e apreciar a vida sem drogas. SÓ POR HOJE terei fé em alguém de NA, que acredita em mim e quer ajudar na minha recuperação. SÓ POR HOJE terei um programa. Tentarei segui-lo o melhor que puder. SÓ POR HOJE tentarei conseguir uma melhor perspectiva da minha vida através da NA. SÓ POR HOJE não terei medo, pensarei nos meus novos companheiros, pessoas que não estão usando drogas e que encontraram uma nova maneira de viver. Enquanto eu seguir este caminho, não terei nada a temer".
É legal que, sem ter pretendido, faço uma segunda postagem seguida em que o tempo aparece não como pano de fundo, que sempre é. Mas como um co-protagonista, que deveria sempre ser, se nossa consciência vivesse a trajetória de autodescobrimento que Heidegger descreveu tão bem em Ser e Tempo.
Nas alturas do Everest dos místicos, ou nas profundezas do Hades da drogadicção, o convite é de -não, eu pensei em dizer "nos apropriar" do tempo. Mas o melhor é pensar no tempo como o próprio acontecimento apropriativo, aquilo que vem a nosso encontro, se o deixarmos ser na sua transparência própria e na nossa também. 
Na luta por renascer, estar presente no presente é essencial. Renato (o "renascido") nos ensina isso: aprende a viver um dia de cada vez. Seria esmagador demais, e ilusório, e prepotente, baixar um "decreto" que decidisse de uma vez por todas que está tudo bem, que o pesadelo acabou. Não! As tentações continuam, as fragilidades que abrem as portas para elas também. A queda (lapsus) é quase inevitável, seja pela recaída no vício antigo ou entrega a um substituto. Que nos aprimore o cuidado do passo, na firmeza de cada reerguimento. Melhor então é focar no aqui-agora, no que dá para fazer de melhor dentre as alternativas do hoje, sem gastar demasiada energia especulando e remoendo, se torturando pelo futuro ou pelo que passou, isto é, que NÃO passou, enquanto nosso remorso não deixa. 
Como diz Blake a propósito da iluminação:
"Para ver o mundo num grão de areia
e o céu numa flor do campo
segure o infinito na palma da mão
e a eternidade em uma hora"
É passar do tempo profano (cronos, do cronômetro) ao  kairós, instante valioso, oportunidade singular e única, coisa que sempre foi, mas que nossa dispersão interna diluía. A atenção que nos unifica, nos reagrega, "individua", nos religa também com o que É apesar e para além das impressões equivocadas. Adquirimos objetividade, e flexibilidade para dispormos de nossa energia de maneira adequada aos recursos, aos dilemas, às tarefas que, HOJE, decidirão se iremos dormir felizes ou frustrados. Ao Senhor do Tempo toda a glória. A nós, só por hoje, cada modesta vitória. 


Só por Hoje
-Legião Urbana-

Só por hoje 
eu não quero mais chorar
Só por hoje 
eu espero conseguir 
Aceitar
o que passou o que virá 
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz. 

Hoje já sei que sou, tudo que preciso ser 
Não preciso me desculpar, e nem te convencer
O mundo é radical, 
Não sei onde estou indo 
Só sei que não estou perdido 
Aprendi a viver, um dia de cada vez, 
Só por hoje 
eu não vou me machucar 
Só por hoje
eu não quero me esquecer 
Que há algumas pouco vinte quatro horas 
Quase joguei, a minha vida inteira fora. 

Não não não não 
Viver é uma dádiva fatal 
No fim das contas, ninguém sai vivo daqui mas 
Vamos com calma!
Só por hoje 
eu não quero mais chorar 
Só por hoje
eu não vou me destruir 
Posso até, ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi.