Friday, September 18, 2015

Tolstói por uma nova alforria das almas


No Calendário da Sabedoria de Tolstói, o tema de ontem pareceria bem mais politizado, para não dizer incendiário, do que o de hoje: a pregação contra o latifúndio. Possuir demasiadas terras (não fica claro que critério demarcaria a quantidade "justa") é uma injustiça tão grande, segundo ele, quanto possuir pessoas. Lembremos o impacto que teve para a Rússia a então recente abolição do regime de servidão, que permitia ao amo contabilizar entre suas riquezas a quantidade de hectares, bois e "almas",  como era hábito se referir aos servos. 
Ecoando o lema de Proudhon, Tolstói chega a afirmar que a propriedade é um roubo. Uma adulteração das relações naturais entre os homens, uma injustiça que pede outras. Um abismo que chama outros abismos, dir-se-ia em linguagem bíblica, nada distante do tom de profeta que o grande escritor assume cada vez mais, ao trocar a literatura por uma mística popular e revolucionária, que faria dele o Rousseau da Revolução Russa. 
Pois bem, hoje Tolstói volta ao tema da alma. Aparentemente, não fala de política. Marca, com as citações que reúne (fragmentos judaicos, budistas e estoicos), a especificidade de nossa dimensão espiritual:
"A fagulha divina vive em todos nós , e luta perpetuamente no sentido de nossa origem" (Sêneca)
"Quando perceber que tudo na sua vida é transitório, haverá de perceber outras coisas, permanentes e eternas" (Dhammapada)
"Ninguém pode ver a alma, mas só a alma pode verdadeiramente ver a essência das coisas" (Talmude)
"Chamo espírito àquela parte do homem que tem existência independente e nos dá a compreensão da vida" (Marco Aurélio) 
Disse que o tom apolítico é aparente. Nada é apolítico. Nada mais político do que nossas decisões essenciais acerca de quem somos, quem queremos ser, onde está nosso tesouro e nosso coração.
O apelo de Tolstói cala fundo em nosso tempo, que é de um  embrutecimento notável do amor, como eu dizia ontem, e das demais dimensões do que se pode chamar de o trabalho do espírito, essencial no cultivo de uma vida equilibrada, harmônica e sadia. Desse trabalho, dizia Valéry, depende a capacidade humana de tomar distância, por momentos, de tudo o que existe, inclusive do próprio ego, e assim observar-se, criticar-se, controlar-se, transformar-se. O espírito é o passaporte para, senão, ainda, o Reino de Deus, uma região ontológica mais pacífica dentro e fora de nós. Com mais empatia, amorosidade e energia orientada criativamente.
Mas o próprio Valéry anunciava, quando da eclosão da Primeira Guerra Mundial, que ano passado fez cem anos: "Temo que o espírito esteja se transformando em coisa supérflua".  
Por isso é preciso uma nova abolição da escravatura, uma nova libertação das "almas". 
Não sei se por uma luta à moda antiga, de tipo político-institucional. Enquanto as almas estiverem corrompidas, suas lutas externas também o estarão. É o que os partidos e movimentos mais "progressistas" não cessam de nos ensinar, com seus espetáculos de hipocrisia e cobiça de poder pelo poder, essas estreitezas materialistas que fazem o espírito sucumbir e apagar-se em nós a centelha divina.
Seja como for, vem o tempo, e já chegou, de tomarmos uma decisão contínua (não é de uma vez por todas, é exercício cotidiano) de recusa da acomodação à mediocridade, à lei da selva, à lei da carne, ao latifúndio gordo da improdutividade e do desperdício que nos trouxe aos atuais extremos de sofrimento pessoal, coletivo e ecológico.