Tuesday, September 01, 2015

um capacete para o absurdo


A jornada de ontem , na minha instituição de psicanálise, corria sem surpresas. Clima seco lá fora, seca também a pregação, de resto rotineira, das professoras lacanianas sobre nosso infortúnio patológico universal, termos vindo ao mundo com uma dessas três cartas cabalísticas na bagagem: serás neurótico; (ou) serás psicótico; (ou) serás perverso. 
Nem pensar na alternativa de sermos simplesmente saudáveis, mesmo que imperfeitos, falhos, frágeis. Mesmo até, concedo a Bion (nesse aspecto, mais interessante), se dotados de "núcleos psicóticos", potencialidades patogênicas, latências do pior que, em dadas situações, podem aflorar numa série de sintomas de grande mal-estar e disfuncionalidade. 
Não, as professoras (eram duas, faltava uma para completarem o elenco das Três Parcas do Destino) estavam inflexíveis. Somos um tipo de doente ou outro. E a forma de "explicação" destas doenças me oprimia ainda mais do que o decreto da impossibilidade de não tê-las. O neurótico é um condenado a buscar fora de si o objeto "para sempre perdido" de sua satisfação; o psicótico é o iludido que botou o tal objeto precioso no bolso, porque não aceitou o choque do meteoro da linguagem sobre seu planeta-corpo e a consequente "perda", e fenda, que desde então constitui os participantes do pacto social; o perverso não entrou em pauta, porque não dava tempo de falar dele, o texto não era sobre isso.
Não que descrições dramáticas e niilistas do absurdo humano não me interessem (as aprecio e elas me tornam Jacques Lacan um cara bem interessante, um Albert Camus da psicanálise, como discuto em artigo no prelo). 
O problema é a secura dos recursos teóricos e espirituais de muitos psicanalistas, quando confrontados com o mistério humano, inclusive o mistério do sofrimento. Se o sofrimento nos escandaliza, nos faz sofrer por tê-lo de sofrer, é porque a alma tem dentro de si a capacidade de algo mais, algo maior que isso. É capaz de amar, aprender, evoluir; é capaz de criar, o que envolve também a angústia, a miséria, mas não a asfixia em modos de tratamento e de "interpretação" teórica secos como o inverno de São Paulo. Secos e esterilizantes.
Um artista ou um intelectual se sentiriam peixe fora d' água, peixe agonizante na orla, se submetidos a tanta conversa fiada, seja a dos teóricos, ou a deles próprios, as vìtimas, se submetidos à tortura (passei por ela sete cabalísticos anos) de falar, e falar e falar sobre o que não tem juízo nem nunca terá: a vida! Foi então que ocorreu a iluminação da minha alma, ou, como queiram, o temporal umidificador da minha garganta: uma aluna, para ilustrar o que é "o psicótico", confidenciou um caso pessoal. Ela é formada em psicologia. A experiência que contou é do tempo em que trabalhava num Caps (Centro de Atenção Psicossocial) do interior da Bahia.
A paciente tinha o hábito de fazer concursos e mais concursos, sempre passando, mas sempre declinando do emprego - "não conseguiria se sustentar" numa posição social assim estável mas também exigente. Para "o psicótico", vale muito a frase sartriana, "O inferno são os outros": nada a esperar do outro, como o neurótico, afinal o objeto precioso não está com  o outro, está no bolso do psicótico, precisando ser protegido do olhar alheio ameaçador e invejoso.
E, alèm de não responder ao tratamento, a paciente enfim surtou. Num dia em que nossa colega estava de folga, a paciente foi à procura dela no Caps. Quebrou tudo no consultório. Dizia que a psicóloga queria lhe "roubar a inteligência". Detalhe interessantíssimo: estava vestida de capacete. 
Minha sonolência intelectual acabou naquele mesmo instante. Excitado, tomei do meu caderno que roncava como eu, registrei umas notas e pedi a palavra. A contribuição da colega ameaçava passar batido, as professoras não deram bola. Eu dei. Falei de Schreber (*veja a seguir link para post detalhado sobre o mais célebre caso de psicose da história da psicanálise). 
Lembrei as agonias que Schreber passava, por mais que envoltas em delírio, ao estar submetido a seu psiquiatra, doutor Flechsig, a quem acusava de ser um "assassino de almas". Claro que estamos, nosograficamente, no campo das paranoias de perseguição. Mas há aí algo mais. Algo potente, algo poético, algo político. O mito pessoal de Schreber sobre o "assassinato de almas" se tornou tema recorrente de movimentos de contestação à psiquiatria primitiva, praticada antes da revolução da escuta, da empatia, trazida por Freud e outros humanistas para o seio das terapias da alma. Há até banda alemã de rock com nome inspirado nesse termo.
Não quis sugerir que minha colega fosse objetivamente culpada, estivesse tratando mal sua paciente. Nada no campo da alma é necessariamente objetivo. O que pontuei é que o delírio pode portar caminhos e advertências úteis ao curador (não ao assassino) de almas, ainda que de uma maneira distorcida, exagerada e eventualmente criminosa. A psicóloga considera que a intenção de sua paciente era de matá-la; em russo, a mesma palavra que designa "criminoso" vale também para se referir ao "infeliz", o que causava profunda impressão em Dostoiévski. Saber disso nos reabre para outra leitura de obras como Crime e Castigo e Os Demônios.
Antes que a infelicidade redunde em crime, é preciso escutá-la. Sem camisas-de-força conceituais como a de psicanalistas desprovidos de imaginação para conversar com a imaginação do sofrente. Sem a pretensão de que "só pela análise" (uma das Parcas disse isso, o que retomei na minha fala com certa ironia) o fodido de um neurótico ou psicótico pode tomar jeito na vida. 
Ao contrário, há análises que sufocam, esterilizam, drenam nossa energia (como as conversas improdutivas), roubam a alma, a assassinam. Aplicam explicações tão desesperadoras quanto a própria vida que gostaria de encontrar uma luz, um bálsamo, não um oráculo das razões e custos caríssimos (entre os quais os honorários pela conversa fiada anos a fio no divã) de ter nascido com esta ou aquela "carta" cabalística do infortúnio. É preciso capacete para se proteger dessa gente. E uma moto para viajar  bem longe dessa mediocridade.
Se há o Camus do absurdo, há também o da revolta. Assim há de ser também na psicanálise.
*Sobre Schreber:
http://unzuhause77.blogspot.com.br/2013/09/freud-schreber-e-as-flores-de-almodovar.html