Saturday, October 03, 2015

a Igreja e o desejo à contraluz



SINOPSE
O CLUBE
Chile, 2015
Direção: Pablo Larraín

Um grupo eclético de sacerdotes convive com Mónica, uma freira, em uma casa na costa chilena. Quando não estão orando e expiando seus pecados, eles treinam seu cachorro para a próxima corrida. O que será que os levou até ali, praticamente no meio do nada, onde o vento sopra forte frequentemente? Quando um novo sacerdote muda-se para lá, um homem começa a lhe fazer fortes acusações. Sua voz aumenta mais e mais até que um tiro soa. O padre evita as acusações dizendo ser suicídio. A igreja envia um investigador, mas será que ele realmente tem a intenção de descobrir a verdade ou apenas garantir que a aparência santa seja mantida?


"Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas" (Gn 1, 4). A  epígrafe de "O Clube",  vencedor do Urso de Prata em Berlim,  é uma pista excelente do que está em jogo no sutil discurso cinematográfico articulado por Larraín não só nas falas e ações dos personagens, mas na própria estética do filme. 
 Em uma entrevista, o diretor chileno diz ter procurado por  "uma fotografia que ditasse o tom desse purgatório, essa casa onde nada se vê, mas se fala de tudo, e onde tudo se oculta". E de fato, a despeito da beleza natural de La Boca, a cidadezinha no litoral do Pacífico onde a Igreja os esconde dos olhos do mundo, esses quatro padres, além da freira que cuida da casa, estão imersos numa atmosfera que nos inquieta, quase sufoca, pela monotonia das vozes e dos planos à contraluz do sol, das lâmpadas, das janelas.
Diretor badalado, que vem de uma trilogia sobre a ditadura de Pinochet, Larraín prossegue sua investigação das perversões do autoritarismo, agora se voltando para o braço eclesiástico do regime militar local . Além da cumplicidade com os crimes do Exército no anos de chumbo, também mencionada, a lupa recai sobre a própria Igreja, enquanto "instituição total", como diria Erwin Goffman:  regime de internação comandado por uma hierarquia e código comportamental rígidos e despersonalizantes. 
A separação original de luz e trevas, por vontade do Criador, nesse contexto, se insinua como um gesto exemplar, a ser repetido pelo sistema que, em Seu nome, estabelece o certo e o errado, o bem e o mal e empurra para longe os indesejáveis, como o são estes religiosos do "Clube", e como o é o próprio desejo: para uma instituição total deste tipo, a religião, mais que espaço privilegiado de religação com o Mistério, é sistema penitencial, e penitenciário, que se relaciona com o sexo de formas necessariamente doentias. 
Sem confrontar as causas, notadamente o celibato obrigatório, aberrações como a pedofilia não passam de "escândalos sexuais" que desgastam uma instituição já fragilizada pela agressiva concorrência de evangélicos, muçulmanos e, por outro lado, pelos valores materialistas e libertinos do mundo secular, para os quais o "espírito" cristão, ao invés de convite de elevação da carne, tende a se degradar a sepulcro de tristes velharias sem sentido, quando não francamente hipócritas, como neste caso. 



Outra chave simbólica interessante do filme é o "galgo" que um dos padres cuida e treina para as corridas de cachorro locais. "Única raça" canina citada na Bíblia, diz, como que tentando justificar esse hábito junto ao jesuíta psicólogo que chegou para investigar, e eventualmente fechar, aquela casa de penitência, na qual, afora a tragédia recente (não entrarei em detalhes da trama), as  apostas em dinheiro para corridas de animais, sem falar da intimidade de um tarado sexual com bichanos indefesos, são coisas dignas de atiçar as pulgas da suspeita.
No Inferno de Dante, o galgo, ou Veltro, é um animal que alegoriza uma espécie de enviado messiânico portador de pureza e vitória da "sabedoria, amor e virtude" sobre a malignidade insaciável  (I, 97-103). Possível alusão a líderes que representariam a redenção político-moral da Itália, senão mesmo da condição humana imersa no submundo do pecado. 
 Vê-se bem, pelo galgo de Larraín, o quanto tais esperanças escatológicas parecem fenecer como o lindo e triste pôr-do-sol a que assistimos logo após o clímax do filme.
Setores conservadores provavelmente reagirão dizendo que não se trata senão de mais uma "peça de propaganda anticatólica" da Nova Ordem Mundial. As iniciativas de Papa Francisco contra a pedofilia -se bem que  ele próprio seja apontado como um emissário satânico dessas forças das trevas, em tais narrativas paranóicas- mostram o caminho, sobretudo o espírito:  é preciso, anrtes de mais nada, ir além de respostas meramente defensivas, autoritárias,  a desafios que decidirão, conforme a qualidade da resposta a eles, pela sobrevivência ou não dos nobres ideais éticos e espirituais da Igreja num mundo em que está cada vez mais difícil ver a luz.