Tuesday, October 06, 2015

a levitação da amizade


"Toda revolução mundial é precedida por uma revolução da alma" (T. Macho, Weltrevolution der Seele).
 Essa graça de tirinha seria excelente ilustração para uma aula sobre filosofia epicurista. A amizade é,nessa escola, experiência por excelência de sabedoria, ou seja, de alegria e saída da miséria do mundo, sendo essa "levitação" do desenho resumida no convite de Epicuro: "É preciso cultivar nosso jardim". Tanto como os estoicos, os epicuristas concebiam a filosofia como uma terapêutica dos afetos desordenados, entre os quais a cobiça e o medo em relação a coisas que estão fora do nosso alcance. Na expressão chave de Pierre Hadot, são escolas de EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS. Mas, se brincarmos com o discurso típico de um professor de academia, o momento estoico seria o do CONTRAI, e o epicúreo, o do RELAXA. 
A contração estoica era o esforço de preservar a liberdade moral ante os assédios da ilusão, o que envolvia, inclusive, o hábito de antecipar em pensamento os sofrimentos da velhice, doença, pobreza e morte, para não se deixar surpreender por elas quando viessem de fato a ocorrer.  Um pessimismo estratégico, por assim dizer, diferentemente de um gozo masoquista da desgraça ou ranhetice estressada. Antecipar-se ao mal, imaginando-o, para mais bem desviar-se dele, minimizá-lo ou ultrapassá-lo. Vigilância pela lucidez que ressoa no apelo cristão: ORAI E VIGIAI.
 Já Epicuro ensina justamente o descolar-se das dores e a atenção aos prazeres, por uma DESCONTRACÃO reflexiva que desfruta o presente e que nas horas de agruras, se consola nas `levitacões` de prazer e de amizade no passado. Mais que vigilância, que sem dùvida hà, o espìrito è de gratidão pelo que a natureza oferece de alegria e contentamento a quem sabe procurar e receber, com simplicidade. 
Isso nos traz de volta à dimensão da amizade como postura ètica para com a vida, e da vida para conosco. A vida amiga de quem é amiga dela, nos transportando para além da ideia fixa dos sofrimentos e carências, dos rancores e esperas vãs.