segunda-feira, outubro 12, 2015

a paixão vampira


SINOPSE
FILME- RESPIRE
França, 2014
Direção - Mélanie Laurent
Charlie (Joséphine Japy) tem 17 anos. A idade das paixões, das emoções, das convicções. Tímida e comportada, é atraída imediatamente por Sarah (Lou de Laage), carismática e rebelde nova aluna da escola. As jovens logo passam a dividir intimidades e segredos, mas o relacionamento ganha ares estranhos quando verdades vêm à tona.




O impactante filme de Mélanie Laurent recolhe num debate milenar da filosofia a sua epígrafe teórica: o valor das paixões. O professor do Liceu  indaga, numa das cenas iniciais, se elas são um empecilho ou um estímulo a uma vida mais livre. Dois pensadores, que os manuais filosóficos diriam ser opostos, são citados ao longo da breve discussão: Platão e Nietzsche. O primeiro, pela distinção que estabeleceu entre a razão, ligada à mente, e a paixão, cuja sede ele situava, não no coração, mas no ventre. E Nietzsche, quem menciona, por ironia do destino, é a própria Charlie, sem saber que estava prestes a ser tomada de arrastão por esse sentimento "visceral". Ela lembra que, para Nietzsche, é mais fácil renunciar a uma paixão do que controlá-la. Não que isso seja uma recomendação: a virtude moral, no sentido nietzschiano, passa longe da "facilidade" maniqueísta de simplesmente rechaçar os afetos. 
Não há, como em Platão, uma hierarquia de corpo e alma, nem tampouco, dentro da alma, "partes" mais vis e mais nobres, umas presas aos apetites e às emoções, e a outra, suprema, livre para a pura a contemplação espiritual. Mas isso não implica se deixar tragar pelo caos psíquico: a pessoa há de ter um senso de "vontade" suficientemente fortalecido para gerir seus desejos. Sem renúncia moralista, ao estilo de Schopenhauer, mas sem tampouco a ingenuidade que conduz o homem às agonias e servidões que, não por acaso, levaram tantos pensadores do Oriente e do Ocidente a pregar o controle da paixão como regra de sabedoria. 
Mesmo um Epicuro, tão simpático ao direito humano aos prazeres nessa vida efêmera e sem amanhã (num além da morte, inclusive), insistia que nossos desejos se dividiam entre os naturais e necessários, os naturais e não necessários e os não naturais NEM necessários. Seríamos tanto mais felizes, quase como "deuses na terra", no sentido da autossuficiência e da liberdade, quanto menos dependêssemos deste terceiro tipo de satisfações, território mental por excelência dos vícios mentais como a obsessão, a manipulação, o desespero, temas tão candentes -fechamos assim estes longos parênteses- no filme "Respire".
O filme nos oferece material psicológico de altíssima qualidade para o entendimento desse drama que Joe Slate chamou de o "vampirismo psíquico". Ao contrário dos dentuços de capa preta do vampirismo folclórico, trata-se aqui dos perigos do relacionamento humano no cotidiano:  predadores energéticos, parasitas mentais que podem estar escondidos no chefe, colegas de trabalho, amigos, amantes e grupos com os quais interagimos no dia-a-dia. Sua mera proximidade física  pode nos trazer desconforto ou exaustão, e nos compelir a fugir para longe. Pior porém quando não sentimos em nós este alerta da repulsa e, ao contrário, seguimos oferecendo voluntariamente nosso "sangue", isto é, nosso afeto, energia, senso de auto-estima a ser preenchido de fora para dentro, em relações de uma dependência doentia. miseráveis dividendos, mas que, por alguma razão, parecem valer mais a pena do que a mediocridade da vida sem esses monstros.
Como vimos na análise do filme "Nosferatu", o vampiro conta com as janelas abertas de suas vítimas. No caso de Charlie, a família deteriorada e o péssimo exemplo de imaturidade afetiva da mãe, dependente de uma relação também tóxica, no seu caso, com o marido,  como a que Charlie terá com Sarah. 
O fato de a história de passar numa pacata cidadezinha do interior da França (reparem no dialeto que Charlie em alguns momentos fala com o pai) reforça a sensação de limitações do ambiente claustrofóbido do apartamento, pelos choros, resmungos e fungar de nariz da mãe, por tudo que torna a "irrespirável" a vida da menina. Apesar disso, e da sua ASMA tão sintomática, Charlie consegue no colégio, ele próprio mais arejado, de ar mais "contemporâneo", ser uma aluna dedicada, de sorriso cativante e cheia de amigos. É o que provavelmente a tornou atrativa, além do quê de pureza virginal,  para os apetites predatórios de Sarah, também prisioneira de um ambiente doméstico deletério, como as grades da janela de seu quarto materializam tão bem. .
Afora as atuações brilhantes, o discurso cinematográfico é poderoso,, desde a sutileza com que articula começo e fim da ação, em torno da cama de Charlie, passando pelo modo como sabe mostrar a tensão agressiva e sexual entre as meninas, o encanto carismático, perfídia e jogo sádico de Sarah e  a espiral de desamparo, isolamento e derrocada de sua vítima. 
Uma aula de cinema e de "exercício espiritual" filosófico (aprendizado ético e psicológico pelo anti-exemplo), eis o que temos e fazemos ao ver este "Respire". E saímos sem fôlego, mas com radares redobrados para o perigo não da paixão em si, mas do servilismo que ela pode induzir em almas despreparadas para bem cuidar dela e de si mesmas. Lição a levar para a vida, a importância da força mental, no sentido amplo do equilíbrio, energia e comando de si, como alho e Sol para manter longe, até pelo prazer e poder que trarão para a vida, a falsa solução que é se vender a vampiros psíquicos, inclusive os que podem espreitar dentro de nós, como compulsões de rebaixamento. Chupa-cabras energéticos tão menos interessantes do que o arquétipo mítico em si do Vampiro,  em seu poder sombrio, sedutor e transformador, em contrapartida às fachadas de luz da sociedade de bem.